Ciência revela que cabos de internet no fundo do mar podem funcionar como enormes microfones para detectar terremotos, tsunamis e até peixes
Experimentos em diferentes regiões mostram uma nova forma de observar o oceano, mas os resultados dependem de condições técnicas específicas.
Por baixo dos oceanos, cabos submarinos de fibra óptica transportam informações entre continentes e também podem registrar vibrações quase imperceptíveis. Pesquisadores utilizam o sensoriamento acústico distribuído (DAS) para transformar trechos dessas fibras em uma extensa rede de observação do ambiente marinho.
Como cabos submarinos captam vibrações no oceano?
A fibra óptica conduz pulsos de luz, e uma pequena parte dessa luz retorna ao equipamento que a enviou. Quando movimentos do solo ou ondas sonoras deformam a fibra, as características do sinal refletido sofrem mudanças que podem ser medidas.
O sistema DAS analisa essas variações e identifica onde ocorreram ao longo do cabo. Diferentemente de um microfone convencional, ele não grava diretamente o som: detecta deformações minúsculas e as transforma em registros interpretáveis.
Quais fenômenos podem deixar sinais nessas fibras?
Vibrações produzidas por terremotos, movimentos da água e sons da vida marinha podem alcançar os cabos no fundo do oceano. Cada fenômeno produz sinais com intensidade, frequência e duração diferentes, que precisam ser separados do ruído ambiental.
A sensibilidade depende da posição do cabo, do contato com o fundo marinho e do equipamento utilizado. As fibras ópticas oferecem muitos pontos de medição ao longo de uma única estrutura, mas não captam todos os acontecimentos com a mesma qualidade.
Os registros mais pesquisados incluem quatro grupos:
O que os experimentos científicos já demonstraram?
Em 2019, pesquisadores relataram medições em 41,5 quilômetros de cabo próximo a Toulon, na França. A rede registrou atividade sísmica, incluindo um pequeno terremoto de magnitude 1,9 ocorrido a aproximadamente 100 quilômetros de distância.
Em abril de 2026, um estudo japonês analisou sinais associados a tsunamis registrados em um cabo próximo a Muroto. No mesmo ano, uma pesquisa em Mônaco registrou sons de peixes em condições reais, usando hidrofones para conferir os resultados.
Três experimentos mostram aplicações científicas diferentes:
É possível identificar peixes pelo som?
Algumas espécies de peixes emitem pulsos, batidas ou outros sons ligados a comportamentos como comunicação e reprodução. Em estudo publicado em 1º de outubro de 2026, pesquisadores examinaram três espécies do Mediterrâneo com um cabo experimental instalado perto de Mônaco.
O experimento publicado na Scientific Reports registrou padrões compatíveis com os sons dessas espécies e comparou os dados com hidrofones, aparelhos especializados em escutar debaixo d’água. A técnica conseguiu distinguir sinais ao longo de dezenas de metros.
Para compreender melhor como essa infraestrutura funciona e conecta diferentes partes do planeta, o canal RackNerd, que conta com aproximadamente 5 mil inscritos no YouTube, apresenta um vídeo que explica o funcionamento dos cabos submarinos de fibra óptica e sua importância para a transmissão de dados em escala mundial:
Essa tecnologia pode melhorar alertas de tsunami?
O monitoramento por fibra óptica pode complementar instrumentos oceânicos ao registrar mudanças associadas à passagem de tsunamis. No Japão, foram examinados eventos ligados a outubro de 2023 e julho de 2025, com sinais observados em águas profundas.
Esses resultados ajudam a estudar a propagação das ondas e a possibilidade de avisos mais rápidos. Entretanto, detectar uma variação no cabo não significa calcular imediatamente a altura do tsunami ou substituir os sistemas oficiais de alerta.
Leia também: Após 60 anos, gigante dos eletrônicos fecha 567 lojas e demite 34 mil trabalhadores com dívida de quase R$ 12 bilhões
Por que todos os cabos de internet ainda não são sensores?
Os cabos precisam de equipamentos de leitura adequados, processamento de grandes volumes de dados e autorização para acessar a infraestrutura. Trechos muito protegidos, mal acoplados ao solo ou sujeitos a ruídos intensos podem apresentar desempenho diferente.
Além disso, muitas experiências usam fibras disponíveis ou cabos instalados especialmente para pesquisa. O avanço mais promissor é complementar sensores tradicionais sem prejudicar o tráfego de internet, ampliando a observação de regiões oceânicas pouco monitoradas.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)