Cidadãos dos EUA se mobilizam contra data centers
Comunidades de vários estados americanos pressionam autoridades locais e estaduais para conter a expansão acelerada
Um movimento de resistência popular contra a instalação de data centers ganha corpo nos Estados Unidos, à medida que moradores relatam prejuízos ambientais, impacto na saúde pública e alta nas contas de energia.
Em Frederick, condado rural de Maryland, a ativista Elizabeth Bauer lidera protestos após um projeto da Amazon ter sido ampliado em cerca de mil acres além do previsto originalmente, avançando sobre áreas verdes e terras agrícolas.
Expansão gera conflitos locais
A insatisfação não se restringe a Maryland. Segundo reportagem da DW, a região que reúne Maryland, Virgínia e o Distrito de Columbia se tornou um dos principais focos de tensão no país, com a Virgínia concentrando cerca de 640 data centers em operação.
O território americano já abriga 4,6 mil desses centros — número superior à soma dos dez países seguintes no ranking mundial da categoria. Quase 40% da população dos Estados Unidos mora a até cinco milhas de distância de uma dessas instalações, e outras 1,5 mil estão em fase de construção.
Uma pesquisa do instituto Gallup, citada na reportagem, aponta que 71% dos americanos rejeitam a instalação de data centers em suas comunidades.
O consumo de recursos naturais é um dos pontos mais criticados. Cada instalação pode consumir até 5 milhões de galões de água por dia, volume equivalente ao uso diário de uma cidade com 50 mil habitantes muitas vezes em regiões que já enfrentam escassez hídrica, como é o caso do próprio condado de Frederick, segundo o monitor de secas dos Estados Unidos.
Para Francesca Dominici, professora de bioestatística da Escola de Saúde Pública de Harvard, essa questão costuma ser deixada de lado pelas empresas do setor.
“Eles não estão levando em conta as questões hídricas, de forma alguma”, afirma a pesquisadora. Segundo ela, “os donos priorizam os locais onde podem adquirir o terreno por um preço mais baixo e onde haja políticos que deem a aprovação o mais rápido possível”.
Energia elétrica encarece e preocupa autoridades
O funcionamento dos data centers também pressiona a matriz energética americana. De acordo com a Agência de Proteção Ambiental dos EUA, uma instalação típica consome tanta eletricidade quanto 100 mil residências, mas os projetos atualmente em construção podem demandar até 20 vezes mais energia, impulsionados pelo avanço da inteligência artificial.
Atualmente, os data centers respondem por 4,4% do consumo elétrico do país, percentual que um levantamento do banco Goldman Sachs projeta chegar a 8,5% até o fim de 2027.
Nos estados com maior concentração dessas estruturas, o preço da eletricidade subiu 267% nos últimos cinco anos.
A professora de direito ambiental da Universidade da Pensilvânia, Hannah Wiseman, explica que as “concessionárias de energia elétrica estão construindo um grande número de novas linhas de transmissão para atender essas instalações”, e que “os custos dessas linhas de transmissão estão sendo repassados aos consumidores”.
Há ainda o temor de sobrecarga na rede elétrica, o que levaria ao uso de geradores a diesel como reforço. Em Frederick, o projeto planejado prevê a instalação de 99 desses geradores.
Dominici alerta para os riscos à saúde associados a esse tipo de poluição: “A exposição a partículas finas, mesmo em níveis baixos, implica um risco maior de malformações congênitas, doenças respiratórias, cardiovasculares e neurocognitivas, além de mortes prematuras”.
A regulação sobre a instalação desses empreendimentos, segundo Wiseman, ocorre majoritariamente em nível municipal, e muitos governos locais não estabeleceram normas específicas de uso do solo, o que amplia a liberdade das empresas.
Em 2025, o governo do presidente Donald Trump assinou decreto batizado de “Eliminando Barreiras à Liderança Americana em IA”, que reduziu exigências burocráticas para novos projetos do setor.
Diante da pressão popular, algumas medidas de contenção já foram adotadas. O estado de Nova York suspendeu por até um ano a construção de novos data centers de grande porte, tornando-se o primeiro do país a tomar essa decisão.
Outros estados discutem moratórias semelhantes, e municípios isolados já aprovaram proibições temporárias próprias.
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