China desafia os Estados Unidos lançando um novo sistema de pagamento digital, desafiando a hegemonia do dólar no comércio mundial
O sistema de pagamentos da China que quer disputar com o dólar
Um pagamento internacional que hoje leva dias e passa por vários bancos pode ser feito em segundos, sem usar o dólar como moeda intermediária. É isso que o mBridge promete. A plataforma, criada por bancos centrais liderados pela China, já movimentou mais de US$ 55 bilhões em transações e entrou em operação real em 2024, segundo o Banco de Compensações Internacionais. O sistema não derruba o dólar da noite para o dia, mas abre um caminho alternativo que nunca existiu antes.
O que é o mBridge e como ele funciona?
O mBridge, sigla para Multiple CBDC Bridge, é uma plataforma construída sobre blockchain que conecta bancos centrais de diferentes países. Em vez de um pagamento internacional passar por bancos intermediários e, muitas vezes, pelo dólar, os bancos centrais fazem a liquidação diretamente usando suas próprias moedas digitais.
O resultado prático é mais velocidade e menos custo. Uma transferência convencional pode levar dias e cobrar taxas altas. No mBridge, a operação acontece em segundos, com custos estimados em cerca de metade dos sistemas tradicionais, segundo dados do BIS.

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Quem está no projeto e como ele cresceu?
O mBridge começou como um experimento conjunto entre Hong Kong e Tailândia em 2019. Em 2021, entraram o Banco Central da China e os Emirados Árabes Unidos. A Arábia Saudita aderiu em 2024, ano em que o projeto atingiu o estágio de produto mínimo viável, ou seja, passou a funcionar em operações reais. Veja como o projeto evoluiu:
Qual é o papel do yuan digital em tudo isso?
O e-CNY, o yuan digital emitido pelo banco central da China, responde por cerca de 95% de todo o volume de transações no mBridge, segundo o Atlantic Council CBDC Tracker. Isso torna o mBridge, na prática, um trilho de pagamento em yuan que opera fora do sistema bancário tradicional.
O e-CNY também cresceu muito em uso doméstico. Até dezembro de 2025, as transações acumuladas com o yuan digital passaram de US$ 2,3 trilhões, segundo o mesmo rastreador. A China construiu a estrutura interna e agora tenta expandi-la para fora via mBridge.

Como o mBridge se compara ao SWIFT e ao CIPS?
O SWIFT é hoje a principal rede de mensagens financeiras do mundo, com mais de 11.000 instituições em 200 países. O mBridge não compete diretamente com o SWIFT: enquanto um troca mensagens, o outro liquida pagamentos diretamente entre bancos centrais. Veja as diferenças entre os sistemas:
| Sistema | O que faz | Status |
|---|---|---|
| SWIFTRede global de mensagens financeiras — 200 países | Comunica ordens de pagamento entre bancos. Não liquida diretamente. | Dominante |
| CIPSSistema interbancário chinês para pagamentos em yuan — desde 2015 | Liquida pagamentos em yuan entre mais de 1.300 instituições em 100 países. | Em expansão |
| e-CNYYuan digital emitido pelo banco central da China | Moeda digital para uso dentro e fora da China. US$ 2,3 trilhões em transações acumuladas até dez/2025. | Em expansão |
| mBridgePlataforma multi-CBDC em blockchain — China, HK, Tailândia, EAU, Arábia Saudita | Liquida pagamentos diretamente entre bancos centrais usando moedas digitais. US$ 55 bi em transações. | Crescendo |
O mBridge realmente ameaça o dólar?
Os dados mostram que a escala ainda é muito diferente. O SWIFT movimenta cerca de US$ 5 trilhões por dia. O mBridge somou US$ 55 bilhões em transações acumuladas desde 2022.
O dólar ainda representa cerca de 57% das reservas globais dos bancos centrais, segundo dados do FMI. Já o yuan aparece com menos de 2% nessa mesma conta. Para o Atlantic Council, o mBridge não vai derrubar o dólar rapidamente, mas pode abrir brechas em rotas comerciais específicas, especialmente entre a China e o Golfo Pérsico.
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Por que o BIS saiu do projeto em 2024?
O BIS anunciou que o projeto havia amadurecido e os países poderiam tocá-lo sozinhos. Mas o contexto político pesou. Meses antes, Vladimir Putin havia sugerido usar a arquitetura do mBridge como base para um sistema de pagamentos do BRICS, o chamado “BRICS Bridge”, que permitiria a países sancionados driblar restrições financeiras.
A saída do BIS foi interpretada como uma resposta à pressão dos Estados Unidos. Pesquisa da Unicamp publicada em 2025 aponta que o mBridge está no centro de uma disputa geopolítica real: de um lado, países que querem alternativas ao sistema financeiro americano; do outro, Washington, que vê a plataforma como uma ameaça ao alcance das suas sanções.
O que isso significa para quem não é especialista em finanças?
Pense assim: hoje, quando um exportador chinês vende algo para um comprador nos Emirados, o pagamento quase sempre passa pelo sistema bancário americano em algum ponto, mesmo que os dois países não tenham nada a ver com os EUA. O mBridge cria um atalho direto que elimina esse intermediário.
Para países que estão sob sanções dos Estados Unidos, isso significa uma saída possível para o isolamento financeiro. Para empresas comuns que fazem comércio entre os países do projeto, significa pagamentos mais rápidos e baratos. O impacto ainda é pequeno em escala global, mas a direção é clara: pela primeira vez existe uma infraestrutura real funcionando fora do caminho que passa pelo dólar.
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