Aumenta pressão por novas eleições na Venezuela
Pesquisa indica que quase metade da população prioriza novo pleito presidencial diante da crise gerada pelos abalos sísmicos
Os dois terremotos que atingiram a Venezuela na última semana de junho, destruindo parte da infraestrutura do país e deixando milhares de mortos e feridos abriram uma crise de confiança no governo interino de Delcy Rodríguez.
Segundo levantamento da AtlasIntel realizado para a Bloomberg News entre os dias 26 e 30 de junho, 45,7% dos venezuelanos consideram mais urgente eleger um novo presidente do que reconstruir as áreas destruídas, opção defendida por 32,6% dos entrevistados. A desaprovação a Delcy subiu para 63,3% no mês, avanço de quase cinco pontos em relação a maio.
Rejeição à resposta oficial
De acordo com a pesquisa, cerca de dois terços dos participantes reprovaram a atuação do governo diante da tragédia, e 52,4% classificaram a reação oficial como “muito ruim”.
O balanço divulgado pelas autoridades nesta sexta-feira contabilizou 2.645 mortos e 12.666 feridos, enquanto um levantamento paralelo, conduzido por grupos ligados à oposição, aponta mais de 38 mil pessoas ainda desaparecidas.
Nos dias seguintes ao desastre, cresceram nas redes sociais registros de moradores cobrando agilidade das autoridades.
Um dos episódios mais compartilhados envolveu voluntários confrontando militares em uma região sob forte presença de tropas: “Esse uniforme existe para defender o país. Não estamos em guerra, estamos enfrentando uma emergência”, disse um homem aos soldados, segundo imagens que circularam amplamente.
Diante da repercussão negativa, Delcy Rodríguez concedeu entrevista coletiva a jornalistas estrangeiros na noite de quinta-feira e atribuiu as críticas a uma articulação política: “A primeira narrativa criada em laboratórios midiáticos foi: ‘desçam todos para La Guaira’, para provocar o caos, impedir as operações de busca e resgate. Nós sabemos quem são e de onde partiram essas principais narrativas”, afirmou a presidente interina.
Ela também classificou parte da imprensa de “miseráveis” ao justificar a militarização imediata da região afetada: “A primeira decisão daquele dia foi militarizar o estado de La Guaira, porque não podíamos permitir que laboratórios midiáticos inviabilizassem as operações de busca e resgate”, declarou.
Durante visita a um bairro atingido de Caracas na semana passada, Delcy Rodríguez foi cercada por moradores que a acusaram de abandono e gritaram repetidamente por sua saída do cargo.
Um levantamento da linha do tempo transmitido pela emissora estatal Venezolana de Televisión, porém, mostrou que a mandatária só se manifestou publicamente cerca de 90 minutos após os dois abalos, com a mobilização de forças de segurança e equipes médicas ocorrendo somente depois desse pronunciamento.
Crise de confiança se aprofunda
O cenário atual amenta o desgaste que já vinha se acumulando desde a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em janeiro. Segundo dados do Observatório Venezuelano de Conflitos Sociais, o país registrou 1.926 protestos contra o governo nos três primeiros meses de 2026, mais que o dobro dos 788 contabilizados no mesmo intervalo de 2025.
A pesquisa da AtlasIntel também revela que a população atribui papel mais relevante, na resposta à emergência, a médicos, bombeiros, empresas privadas, organizações não governamentais, grupos religiosos e à líder opositora María Corina Machado do que às próprias instituições estatais.
Em nota divulgada na quarta-feira, 1º, a equipe de Machado afirmou: “As instituições do Estado não estiveram à altura do desafio. Em lugares demais, os cidadãos tiveram de enfrentar sozinhos as dificuldades desta emergência”.
Machado, impedida pelas autoridades de retornar ao país e atualmente no Panamá, segue como a política mais bem avaliada entre os venezuelanos, com 53% de imagem positiva — recuo de dois pontos frente ao levantamento anterior.
A pesquisa da AtlasIntel ouviu 2.581 adultos em todo o território venezuelano, com margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos.
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