A cidade mais depressiva do mundo parece pós-apocalíptica, mas ainda abriga pessoas presas ao frio e ao abandono
A antiga cidade mineradora expõe o abandono de moradores que vivem entre prédios rachados, frio extremo e imóveis sem valor.
Imagine acordar em um prédio rachado, com o chão a 5°C, vizinhos que foram embora há anos e uma fila de reassentamento que levaria quase 300 anos para chegar até você. Esse é o cotidiano de quem ainda vive em Vorkutá, uma cidade no extremo norte da Rússia que muitos consideram a mais desolada do planeta.
Uma cidade construída no fim do mundo
Vorkutá fica além do Círculo Polar Ártico, em uma região onde o inverno dura meses, as temperaturas chegam a menos de 40°C e a neve acumulada ao longo do inverno fica preta pela poeira de carvão que permeia o ar. A cidade foi erguida no meio da tundra durante a era soviética com um único objetivo: extrair carvão para a indústria metalúrgica.
No auge, o plano era atingir uma população de 300 mil pessoas. Prisioneiros do Gulag, engenheiros, militares e trabalhadores comuns foram trazidos para construir e habitar cerca de 15 aldeias mineiras ao redor da cidade principal. Por décadas, havia escolas, cinemas, Palacios da Cultura e uma vida comunitária intensa no meio da neve.

O que sobrou depois que as minas fecharam
Com o colapso soviético e o fechamento progressivo das minas, a lógica que sustentava tudo desapareceu. Sem trabalho e sem perspectiva, a população foi embora em massa. O que ficou são prédios de cinco andares com janelas quebradas, telhados cedendo e ruas praticamente vazias. Em algumas entradas de edifícios, moradores escrevem à mão no portão: “aqui vive gente”, para sinalizar que o prédio não está completamente abandonado.
A aldeia chamada Soviética, que já foi considerada uma das melhores da região, hoje teria apenas um morador. O antigo Palácio da Cultura, que reunia a comunidade para festas de Ano Novo e sessões de cinema, está destruído, com o palco intacto e ninguém para usá-lo.
Viver no frio dentro de casa também
Quando um apartamento vizinho é abandonado, saqueadores entram e retiram tudo: pisos, molduras, baterias de aquecimento. As janelas ficam abertas para o vento ártico, e o frio invade os apartamentos ainda habitados ao lado. Uma moradora relatou que o quarto da filha fica inabitável porque a parede congela. A temperatura do chão chegou a ser medida em 5°C. A família usa meias de lã e botas dentro de casa. Veja o que a deterioração dos prédios causa na prática:
- Canos que estouram e congelam, tomando escadas inteiras com gelo
- Radiadores que continuam aquecendo apartamentos vazios com janelas abertas, desperdiçando energia em plena tundra
- Estruturas com fendas visíveis remendadas com tábuas e espuma, sem solução definitiva
- Moradores realocados de emergência para outros apartamentos no mesmo prédio comprometido
Confira o vídeo compartilhado pelo canal do YouTube Adilson está aqui mostrando a cidade mais deprimida do mundo:
Apartamentos que não valem nada e ainda custam caro
Quem quer ir embora enfrenta uma armadilha cruel. Os apartamentos não têm valor de mercado. Há moradores que tentam doar o imóvel com móveis incluídos e não encontram um único interessado. Mesmo assim, enquanto o apartamento estiver no nome do proprietário, as taxas de moradia continuam sendo cobradas todo mês.
Cerca de 14 mil pessoas estão na fila do programa de reassentamento do governo, que emite apenas 50 a 100 certificados por ano. Um morador calculou que, pela posição em que se encontra na fila, teria de esperar quase 300 anos para ser atendido. O programa que deveria ter encerrado em 2020 foi prorrogado até 2025, mas o ritmo não mudou.
Vorkutá é um espelho do que acontece quando o Estado abandona as pessoas
A região foi construída para servir ao carvão, e não às pessoas. Isso fica claro até nos monumentos: em Vorgachor, uma das aldeias ainda habitadas, o memorial local homenageia o carvão em si, e não os mineiros, geólogos ou trabalhadores que dedicaram décadas de vida à região. Enquanto o recurso teve valor, as pessoas foram trazidas. Quando o recurso perdeu importância, foram esquecidas no lugar mais frio do mundo.
Vorkutá não é apenas uma curiosidade geográfica ou um cenário de filme pós-apocalíptico. Ela é um aviso. Uma prova concreta do que acontece quando cidades são construídas para servir a uma lógica econômica sem garantir às pessoas o direito de ir embora quando essa lógica acaba. Os que ficaram não escolheram o abandono. Estão presos nele.
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