Vila de quatro séculos no litoral fluminense recebeu Darwin em 1832 e guarda um vulcão de 816 metros que intriga geólogos e emociona quem chega no topo
A vila reúne patrimônio histórico e paisagens naturais
Poucos lugares no Brasil podem dizer que hospedaram Charles Darwin, receberam Dom Pedro II e ainda convivem com um morro que parece vulcão, mas não é. Barra de São João, distrito de Casimiro de Abreu, no litoral norte do Rio de Janeiro, junta esses três fatos em uma vila de casarões coloniais tombados. O visitante que chega hoje pisa em um dos povoados mais antigos do estado, com traços que atravessaram quatro séculos praticamente intactos.
Como uma vila do século XVII virou parada obrigatória no litoral norte fluminense?
A origem de Barra de São João remonta a uma freguesia fundada ainda no século XVII, junto à foz do rio que dá nome ao lugar. Segundo a Prefeitura de Casimiro de Abreu, a antiga Freguesia de São João Batista de Barra de São João se desenvolveu como ponto de passagem entre as rotas comerciais do litoral norte fluminense, aproveitando a posição estratégica do estuário.
A primeira capela da região, dedicada à Sacra Família, foi erguida em 1748, e em 1761 a área passou a constituir uma freguesia formal. Epidemias frequentes obrigaram a mudança da sede para as margens do rio São João, onde uma nova igreja foi construída, dedicada a São João Batista. Em 1846, o arraial foi elevado à categoria de vila pela Lei Provincial nº 394, desmembrando-se de Macaé.

Por que Charles Darwin dormiu em Barra de São João em abril de 1832?
Em 8 de abril de 1832, com apenas 22 anos, o naturalista inglês Charles Darwin saiu do Rio de Janeiro a cavalo com uma comitiva de seis homens rumo ao norte fluminense. Segundo o Geoparque Costões e Lagunas, projeto ligado a instituições de pesquisa da região, a expedição durou 16 dias e passou por Maricá, Saquarema, Araruama, Cabo Frio, Barra de São João e Macaé, entre outras paradas.
O trajeto foi descrito no diário de bordo que depois se tornou o livro A Viagem do Beagle, publicado em 1839. De acordo com a Casa da Ciência da UFRJ, Darwin escreveu que iniciou uma expedição de 150 milhas, cerca de 241 km, rumo ao rio Macaé, elogiando a vegetação tropical como uma das visões mais impressionantes que já observou. A pequena vila entrou, sem saber, na rota de campo de um dos naturalistas mais importantes da história.

O morro de 816 metros é mesmo um vulcão extinto?
A resposta científica é não, mas a história por trás explica por que a lenda insiste. O Morro de São João, com 816 metros de altitude segundo marco do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ergue-se solitário sobre a planície costeira, com forma cônica que alimenta a imaginação popular. Do topo, o visitante avista Rio das Ostras, Cabo Frio e Búzios.
No Congresso Brasileiro de Geologia de 2006, pesquisadores contestaram a hipótese vulcânica. As rochas expostas indicam um maciço de sienitos nefelínicos, rochas alcalinas formadas pelo resfriamento lento de magma a cerca de 3 km de profundidade, entre 50 e 60 milhões de anos atrás. Houve vulcanismo na região no passado remoto, mas o vulcão original foi completamente eliminado pela erosão. O que se vê hoje é a raiz do sistema magmático, exposta pelo desgaste de milhões de anos, um bastidor geológico que normalmente permanece enterrado sob quilômetros de rocha.
O que a Igreja de São João Batista guarda no alto do promontório?
No pontal rochoso entre o mar e a foz do rio, a Igreja de São João Batista foi tombada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (INEPAC) em 16 de abril de 1979, após tombamento provisório concedido em dezembro de 1978. O templo se ergue a quatro metros do nível do mar, em posição privilegiada sobre um promontório, com origem em uma capela do século XVIII ampliada em 1846.
Ao lado da igreja fica o pequeno cemitério da extinta irmandade de São João Batista, e ao fundo, o cemitério da irmandade do Sumo Sacramento. É lá que estão os túmulos do poeta Casimiro de Abreu, autor de Meus Oito Anos e patrono da cadeira nº 6 da Academia Brasileira de Letras, e de seu pai José Joaquim Marques de Abreu. O poeta morreu aos 21 anos, em 1860, e foi enterrado ali, no mesmo distrito onde a família mantinha propriedades e um trapiche que exportava madeiras e produtos para a corte no Rio de Janeiro.
Quem quer conhecer praias e história em Barra de São João, vai curtir este vídeo do canal Amantes do Mundo – Com Rafael Faria, com mais de 8 mil visualizações:
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Uma vila que empilha camadas de história em cada esquina
Barra de São João não se apresenta como destino óbvio, e é justamente essa discrição que preserva o valor do lugar. Em poucos quilômetros, o visitante encontra a raiz de um antigo sistema magmático, o traçado exato por onde Darwin passou a cavalo, casarões coloniais que continuam de pé e a lápide do poeta que deu nome ao município.
Vulcão que não é vulcão, vila que abrigou naturalistas e imperadores, igreja tombada sobre uma pedra na foz do rio. Cada esquina guarda um fragmento de história que parece pequeno demais para caber em um distrito tão discreto, e é essa acumulação silenciosa que faz de Barra de São João um dos pontos mais surpreendentes do litoral fluminense.
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