The Line: a cidade de um único prédio espelhado com 170 km de extensão, sem carros e que promete abrigar 9 milhões de pessoas
A cidade de um único prédio espelhado com 170 km de extensão que promete abrigar 9 milhões de pessoas sem carros
Dois muros de vidro espelhado com 500 metros de altura, 170 km de extensão e zero carros. The Line, peça central do megacomplexo NEOM na Arábia Saudita, prometia abrigar 9 milhões de pessoas no deserto de Tabuk. Em 2026, as obras estão suspensas.
Uma ideia de 1882 que ganhou escala de ficção científica
O conceito de cidade linear não nasceu no deserto saudita. Em 1882, o urbanista espanhol Arturo Soria y Mata propôs a Ciudad Lineal, uma faixa urbana organizada ao longo de um bulevar com bondes em Madri. A ideia foi parcialmente construída, mas acabou engolida pela expansão da capital espanhola. Nos anos 1950, o arquiteto francês Yona Friedman imaginou uma “cidade espacial” vertical e modular, que nunca saiu do papel.
The Line retoma esses conceitos e os multiplica a uma escala sem precedentes. O projeto prevê duas estruturas paralelas de 170 km de comprimento, 200 metros de largura e 500 metros de altura, revestidas inteiramente de vidro espelhado. A densidade planejada chegaria a 265 mil habitantes por km², segundo estudo publicado na revista npj Urban Sustainability. Para comparação, Manila, considerada uma das cidades mais densas do planeta, registra cerca de 42 mil habitantes por km².

Como funcionaria a vida em três dimensões?
A proposta oficial do projeto é radical. Moradores teriam todos os serviços essenciais a no máximo cinco minutos de caminhada, distribuídos em andares verticais. A estrutura seria dividida em três camadas: a superfície destinada a pedestres, um nível subterrâneo para infraestrutura e serviços e um terceiro, mais profundo, reservado ao transporte de alta velocidade. Um trem rápido percorreria os 170 km de ponta a ponta em cerca de 20 minutos, segundo o site oficial da NEOM.
O conceito recebeu o nome de “urbanismo de gravidade zero”, que empilha residências, comércio e transporte verticalmente. A fachada de vidro espelhado permitiria entrada de luz natural em diferentes ângulos. Energia 100% renovável, fazendas verticais e sistemas avançados de reciclagem de água completariam o modelo de autossuficiência.
Desafios de engenharia que nenhum projeto enfrentou antes
A engenharia por trás de The Line não tem paralelo na história da construção civil. A primeira fase, de 2,4 km, previa 40 núcleos estruturais de 500 metros de altura, interligados por cerca de 2 milhões de toneladas de treliças de aço, segundo engenheiros do projeto reportados pelo Parametric Architecture. A fachada espelhada exigiria 2,1 milhões de metros quadrados de vidro apenas nessa etapa inicial.
Especialistas apontam problemas estruturais graves. Uma fachada contínua de 500 metros de altura gera cargas enormes de vento, expansão térmica e risco sísmico. O terreno varia entre rocha montanhosa, deserto aberto e planícies costeiras salinas, o que demanda fundações diferentes a cada trecho. Pesquisadores do Complexity Science Hub de Viena calcularam que a distância média entre dois moradores de uma cidade linear seria de 57 km, contra apenas 2,9 km em uma cidade circular de mesma área. Apenas 1,2% da população estaria a uma distância caminhável de qualquer morador.

De US$ 500 bilhões a US$ 8,8 trilhões: o que aconteceu com o orçamento?
O custo original de NEOM como um todo era estimado em US$ 500 bilhões. Documentos internos obtidos pelo Wall Street Journal em 2025 revelaram que a projeção atualizada para completar The Line chegava a US$ 8,8 trilhões, mais de 25 vezes o orçamento anual saudita. A primeira fase, sozinha, custaria US$ 370 bilhões e não ficaria pronta antes de 2035. O cenário completo só seria alcançado em 2080, segundo o mesmo relatório.
Em setembro de 2025, o fundo soberano saudita Public Investment Fund (PIF) suspendeu as obras por tempo indeterminado. A força de trabalho já havia sido reduzida em 35% desde abril daquele ano. O PIF registrou uma baixa contábil de US$ 8 bilhões em projetos ligados à NEOM. O preço do petróleo, que ficou abaixo dos US$ 90 necessários para equilibrar o orçamento saudita, agravou a crise financeira do empreendimento.
O que sobrou no canteiro de obras em 2026?
Até o início de 2026, cerca de 6 mil estacas de fundação foram cravadas ao longo de 2 km do deserto de Tabuk. Nenhuma superestrutura foi erguida. A meta original de 1,5 milhão de residentes até 2030 caiu para menos de 300 mil. A extensão da primeira fase encolheu de 170 km para 2,4 km, e o prazo de conclusão total foi empurrado para 2045, no cenário mais otimista.
Uma auditoria interna vazada para o Wall Street Journal encontrou “evidências de manipulação deliberada” nos relatórios de gestão do projeto. Arquitetos renomados, como Norman Foster e Francine Houben, abandonaram a empreitada por questões de direitos humanos e meio ambiente. Membros da tribo local Howeitat foram removidos à força e três deles condenados à morte por resistir à desocupação.
Quem tem curiosidade sobre megaprojetos de engenharia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal O Canal da Engenharia, que conta com mais de 69 mil visualizações, onde é analisado o status real das obras de The Line, a cidade linear futurista na Arábia Saudita:
Leia também: 240 km sem mover o volante: a rodovia reta mais longa do mundo corta o maior deserto de areia da Terra
Vale a pena acompanhar a cidade que desafia a gravidade
The Line pode nunca alcançar seus 170 km de extensão, mas já provocou um debate global sobre o futuro das cidades. A tensão entre ambição visionária e realidade financeira transformou o projeto saudita no maior teste de urbanismo do século XXI.
Mesmo que a linha no deserto fique menor do que o sonho original, vale acompanhar cada capítulo dessa história, porque poucos projetos na história da engenharia ousaram tanto.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)