R$ 40 bilhões movimentados por ano: a cidade gaúcha que virou porta do Mercosul e ainda batizou o nativismo brasileiro
O comércio internacional transformou a cidade em ponto estratégico para o país
Poucas cidades brasileiras vivem entre três países, três moedas e três sotaques ao mesmo tempo. Uruguaiana, na fronteira oeste do Rio Grande do Sul, cresceu de povoado militar a maior porto seco em movimentação financeira do país, e ainda inventou o festival que fundou o movimento nativista gaúcho. Aqui, o samba desfila em março, o chimarrão passa pela mesa antes do café e as placas trocam de idioma sem aviso.
Como Uruguaiana virou o principal porto seco em valor movimentado do país?
A resposta começa na BR-290, junto à Ponte Internacional Getúlio Vargas–Agustín Pedro Justo, que conecta Uruguaiana a Paso de los Libres, na Argentina. É por ali que passa o comércio rodoviário entre os principais sócios do Mercosul. Segundo a Receita Federal, o terminal alfandegado da cidade concentra a maior parcela da corrente de comércio Brasil–Argentina no modal rodoviário.
Os números explicam por que a fronteira nunca dorme. Em 2023, o porto seco movimentou US$ 8,67 bilhões em mercadorias, sendo que 72% vieram do comércio com a Argentina, com 268 mil caminhões cruzando a ponte no ano. Em 2024, o terminal ultrapassou a marca de R$ 40 bilhões em comércio exterior, consolidando Uruguaiana como o maior porto seco do Brasil em valor financeiro movimentado.

Por que Uruguaiana é chamada de berço do nativismo gaúcho?
Em 1971, um grupo reunido no CTG Sinuelo do Pago criou um festival dedicado exclusivamente a composições autorais sobre a vida no campo. Nasceu ali a Califórnia da Canção Nativa, marco fundador do movimento nativista no Rio Grande do Sul. O nome pega emprestado o brilho da Califórnia norte-americana e o cola no pampa: uma província que aposta em canção autoral para se firmar culturalmente.
O prêmio máximo é a Calhandra de Ouro, entregue após uma triagem que já reuniu mais de 500 músicas inscritas por edição. A partir dela, floresceram outros festivais nativistas na região, como a Coxilha Nativista de Cruz Alta em 1981 e o Musicanto Sul-Americano de Santa Rosa em 1983. Uruguaiana segue anfitriã oficial das finais, hoje realizadas no Parque Dom Pedro II, na Concha Acústica César Passarinho.

Por que o carnaval da cidade acontece em março?
O Carnaval Fora de Época de Uruguaiana começou por decisão judicial. Em 2005, uma ação envolvendo a escola Os Rouxinóis impediu os ensaios na data tradicional e empurrou os desfiles para março daquele ano. O que era exceção virou identidade: as escolas passaram a preferir o novo calendário, com mais tempo de preparação, e a cidade adotou a data como marca.
Conforme a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul (Setur-RS), a estrutura recente reuniu cerca de 12 mil pessoas na área interna e 30 mil no entorno da Avenida Presidente Vargas, com aproximadamente 10 mil participantes desfilando por oito agremiações. Um estudo acadêmico citado pela pasta aponta o desfile como o terceiro maior do Brasil em porte, atrás apenas dos carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo.
O que ver e comer em Uruguaiana além dos free shops?
A cidade foi a primeira do Brasil a implantar free shops em ambiente terrestre, segundo o portal oficial de Turismo do Rio Grande do Sul, mas o roteiro passa longe de se resumir a compras. Ao longo do dia, é o pampa que estrutura o passeio, com estâncias, cavalgadas e paradas para chimarrão.
- Praça Barão do Rio Branco: coração da cidade, considerada uma das mais bonitas da Fronteira Oeste, com coreto e árvores centenárias.
- Catedral Sant’Ana: paróquia com raízes em 1861 e fachada neogótica, marco religioso do centro histórico.
- Igreja do Carmo: erguida em 1928 pelos Carmelitas Descalços, em estilo gótico, com vista para a Ponte Internacional.
- Ponte Internacional: conecta Uruguaiana a Paso de los Libres e virou símbolo da cidade.
- Estâncias do Pampa: cavalgadas, provas de gado e refeições típicas em fazendas centenárias na área rural.
- Rio Uruguai: pesca esportiva, passeios de barco e a Praia do Cais no verão.
Na mesa, o churrasco de fogo de chão divide espaço com influências argentinas e uruguaias. Aparecem o arroz carreteiro, o puchero na estação fria e sobremesas de doce de leite encomendadas do outro lado da ponte.
Quem quer descobrir a principal porta brasileira do Mercosul, vai curtir esse vídeo do canal Celemar de Avila, com mais de 31 mil visualizações, que mostra Uruguaiana por terra e pelo alto:
Como é o clima na fronteira oeste ao longo do ano?
Uruguaiana tem verões quentes e invernos frios, com forte amplitude térmica típica do pampa. As chuvas se distribuem ao longo do ano, com meses mais chuvosos concentrados entre o fim do outono e o início da primavera.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar a Uruguaiana?
A cidade fica a 643 km de Porto Alegre, com acesso principal pela BR-290. O Aeroporto Rubem Berta recebe voos regionais e há conexão rodoviária direta a Passo de los Libres, na Argentina, pela ponte internacional. Quem chega por terra costuma combinar a viagem com paradas em outros marcos da Serra Gaúcha, como a cidade batizada por tropeiros sob uma caneleira e reconhecida entre as 7 Maravilhas do Brasil.
Conheça a cidade onde três países se cruzam
Uruguaiana concentra em uma só paisagem o Brasil que exporta, o Brasil que canta a própria terra e o Brasil que aprendeu a conviver com dois vizinhos. É porto, é festival, é fronteira e também é hospitalidade em quatro idiomas.
Você precisa atravessar a ponte e sentir por si o momento em que o mapa muda de cor sem tirar os pés do pampa.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)