Construída em 34 anos e reconhecida como uma das 7 Maravilhas do Brasil: cidade que tropeiros batizaram sob uma caneleira na Serra Gaúcha
O passado ajudou a criar uma cidade que preserva sua identidade até hoje
Poucas construções religiosas do Brasil demoraram tanto para ficar de pé. Em Canela, na Serra Gaúcha, uma catedral neogótica de 65 metros levou 34 anos para ser concluída e foi erguida ao redor da antiga igreja matriz, que só depois foi demolida por dentro. O templo hoje batiza a cidade que nasceu à sombra de uma árvore de canela-preta.
Por que o nome da cidade veio de uma árvore de tropeiros?
No fim do século XIX, a rota que descia da serra em direção ao litoral passava por uma canela-preta, a Ocotea catharinensis, usada como ponto de referência por quem tocava gado, queijo e couro rumo a São Leopoldo e Porto Alegre. A parada era tão frequente que a árvore acabou nomeando o povoado, e a primeira praça surgiu justamente ao redor dela.
O núcleo urbano começou a ganhar contorno em 1903, com a chegada do Coronel João Ferreira Corrêa da Silva, numa região já ocupada por fazendeiros de Cima da Serra e por descendentes de imigrantes alemães e italianos ligados às primeiras serrarias. Segundo a Prefeitura Municipal de Canela, o brasão oficial da cidade traz até hoje uma caneleira em campo de ouro e a Cascata do Caracol em campo de prata, síntese da árvore que deu origem ao nome e da paisagem que virou marca registrada.

Como uma catedral foi construída por cima da igreja antiga?
A curiosidade mais desconcertante da Catedral de Pedra está na ordem inversa da obra. A antiga Igreja Matriz de Nossa Senhora de Lourdes, inaugurada em 1937, continuou de pé durante boa parte do início da construção do novo templo. Em 1964, os pedreiros começaram a levantar as paredes da nova catedral em volta da igrejinha original, e apenas depois é que a estrutura antiga foi demolida por dentro.
A solução manteve o culto ativo enquanto o novo templo tomava forma. Conforme o site oficial da Catedral de Pedra, a ideia partiu em 1927 do cônego João Marchesi, que sonhou com uma igreja monumental dedicada à padroeira da cidade. A pedra fundamental foi lançada em 1953, com projeto do arquiteto Bernardo Sartori, em estilo neogótico inglês revestido de basalto extraído das pedreiras locais. A obra completa só terminou em 1987, somando 34 anos de canteiro.

O que tornou o Carrilhão da Independência silencioso por 20 anos?
Na torre principal, os 12 sinos de bronze do chamado Carrilhão da Independência foram fabricados pela fundição Giácomo Crespi, na Itália, e instalados em 1972. Cada peça recebeu o nome de uma figura ligada à história brasileira, entre elas Dom Pedro I, Tiradentes e José Bonifácio, um detalhe que explica o batismo do conjunto.
Por um problema no sistema de acionamento, os sinos ficaram cerca de duas décadas sem tocar e só voltaram a soar em 2005, segundo registros do Blog Canela RS. Para chegar perto deles, o visitante precisa subir 154 degraus até o mirante, onde um pequeno museu reúne peças de arte sacra e conta a trajetória da obra. Do alto, a cidade aparece encaixada entre araucárias, e o basalto cinza-claro da fachada ganha outra escala.

Quem idealizou a catedral está sepultado dentro dela
O cônego João Marchesi, que imaginou o templo nos anos 1920, não viveu para vê-lo pronto em 1987. Como reconhecimento ao seu papel, foi sepultado dentro da própria igreja que idealizou, um dos pontos que os guias apontam a quem visita o interior. A escolha aproxima a história da obra da história do homem que a sonhou.
Décadas depois, a construção passou a acumular também reconhecimentos turísticos. Em 2010, uma votação popular elegeu a Catedral de Pedra uma das Sete Maravilhas do Brasil, título que ajudou a consolidar sua imagem de cartão-postal da Serra Gaúcha. Desde então, um espetáculo de luzes colore a fachada de basalto entre 20h30 e 21h30, quase todas as noites.
Quem quer conhecer a famosa Catedral de Pedra por dentro, vai curtir este vídeo do canal Conexão 466, que mostra a Torre dos Sinos e a vista de Canela, na Serra Gaúcha:
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Uma catedral que carrega o tempo em cada pedra
Canela cresceu à sombra de uma árvore, formou-se ao redor de uma praça e ganhou o mundo por causa de uma igreja que levou mais de três décadas para ficar pronta. A Catedral de Pedra guarda, em cada bloco de basalto, o traço de gerações de pedreiros que passaram a vida trabalhando em um só canteiro.
O que impressiona, quando se olha para a torre de 65 metros, não é apenas a altura, mas a paciência acumulada por trás dela: uma cidade inteira decidiu construir uma casa nova sem derrubar a antiga, e escolheu esperar o tempo que fosse preciso.
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