Fenômeno natural desafia a gravidade: o vilarejo que te leva às nascentes de águas cristalinas onde é impossível o corpo humano afundar
30 nascentes onde ninguém afunda: o fenômeno das águas cristalinas que desafiam a gravidade no cerrado tocantinense
No leste do Tocantins, a cerca de 300 km de Palmas, piscinas naturais de águas cristalinas empurram qualquer corpo para a superfície. Os fervedouros do Jalapão são nascentes subterrâneas onde a pressão da água torna fisicamente impossível afundar, num fenômeno que a ciência chama de ressurgência e que já soma cerca de 30 ocorrências catalogadas na região de Mateiros.
O que a ciência explica sobre a flutuação involuntária?
O fenômeno nasce no Aquífero Urucuia, um dos maiores reservatórios de água subterrânea do país. A água percorre camadas de arenito por milhares de anos até encontrar pontos na superfície onde a pressão supera o peso da areia. Ao romper o solo, a nascente jorra com força constante e cria uma mistura de areia ultrafina e líquido que sustenta o corpo humano sem esforço.
O professor Luís Flexa, do Instituto Federal do Tocantins (IFTO), explica que a água vem do lençol freático e, ao encontrar obstáculos na topografia, é forçada a subir com pressão contínua. A sensação para o visitante lembra um colchão líquido: a areia se move sob os pés, pequenas bolhas sobem à superfície e o corpo simplesmente não desce, mesmo que se tente mergulhar.

Cada fervedouro tem personalidade própria
Os cerca de 30 fervedouros catalogados variam em tamanho, profundidade e intensidade de pressão. Alguns cabem três pessoas por vez, outros recebem até dez. A cor da água muda de azul-turquesa a verde-esmeralda conforme a incidência de luz e a composição do fundo arenoso. A temperatura média gira em torno de 30 °C.
O Fervedouro Bela Vista, que ganhou notoriedade ao aparecer na novela O Outro Lado do Paraíso em 2017, tem 15 metros de diâmetro e 35 metros de profundidade. O Fervedouro do Ceiça é conhecido pela ressurgência mais intensa, que garante flutuação máxima. O Fervedouro Encontro das Águas, próximo à confluência dos rios Formiga e Sono, concentra a pressão em uma única nascente, o que levanta a areia até a superfície. Todos ficam em propriedades privadas com acesso controlado. Protetor solar e repelente são proibidos para preservar o ecossistema.

O deserto que esconde um oceano subterrâneo
O Jalapão carrega o apelido de “deserto das águas”. A paisagem de dunas alaranjadas e vegetação rasteira esconde uma riqueza hídrica alimentada pelo Aquífero Urucuia. A região ocupa cerca de 34 mil km² de cerrado distribuídos entre Mateiros, São Félix do Tocantins, Ponte Alta do Tocantins e Novo Acordo. A densidade populacional não passa de 0,8 habitante por km².
O Parque Estadual do Jalapão (PEJ), criado em 2001 pela Lei Estadual nº 1.203 e gerido pelo Instituto Natureza do Tocantins (Naturatins), protege mais de 158 mil hectares concentrados em Mateiros. Junto com a APA do Jalapão (461 mil hectares) e a Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins, forma a maior área contínua de cerrado em alto grau de conservação do Brasil.
Quem deseja explorar um dos destinos mais impressionantes do Brasil, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 680 mil visualizações, onde os apresentadores mostram um guia completo pelo Jalapão:
Capim que brilha como ouro e só pode ser colhido dois meses por ano
O Jalapão também abriga o capim-dourado, uma sempre-viva da família das eriocauláceas cujas hastes ganham brilho metálico ao secar. A comunidade quilombola da Mumbuca, a 35 km de Mateiros, foi a primeira a desenvolver o artesanato com a fibra, costurada com seda de buriti. Em 2024, Mateiros recebeu por lei federal o título de Capital Nacional do Capim Dourado.
A colheita é permitida apenas entre 20 de setembro e 20 de novembro, quando as sementes já amadureceram. O Naturatins regulamenta a extração para garantir a reprodução da planta. Em setembro, a comunidade celebra a Festa da Colheita com música, dança e rodas de conversa.
Quando visitar e como chegar ao coração do cerrado?
A melhor época vai de maio a setembro, quando as estradas de terra ficam firmes, o céu permanece aberto e os fervedouros atingem transparência máxima. No período chuvoso (outubro a abril), as cachoeiras ganham volume, mas os acessos ficam difíceis e as águas podem turvar:
Temperaturas aproximadas. O acesso exige veículo 4×4 em qualquer época do ano.
A partir de Palmas, o percurso pelo sul segue pela TO-050 até Porto Nacional (60 km de asfalto), depois pela TO-255 até Ponte Alta do Tocantins (135 km de asfalto) e mais 165 km de terra até Mateiros. O roteiro mais comum dura de 4 a 6 dias e costuma ser operado por agências com transporte, guia e hospedagem inclusos. Em 2023, os atrativos do parque receberam quase 54 mil visitantes, segundo o Naturatins.
Um lugar onde a física se rende à natureza
O Jalapão é o tipo de destino que reformula a ideia do que o cerrado pode oferecer. Dunas de 40 metros, cachoeiras verde-esmeralda, artesanato com brilho de ouro e nascentes onde o corpo humano simplesmente não consegue descer convivem num território quase vazio de gente e cheio de surpresas.
Se você quer sentir o que é flutuar sem esforço numa água cristalina cercada de buritis, o Jalapão precisa entrar no seu roteiro antes que as estradas melhorem demais e o segredo se espalhe de vez.
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