Essa cidade é a pioneira da imigração italiana no Brasil por lei federal, produz 80% do vinho do estado e ensina italiano nas escolas desde 2007
A cidade brasileira que é berço oficial da imigração italiana e líder em vinho
A 80 km de Vitória, encravada na serra capixaba, fica a cidade que o Brasil reconhece como o primeiro destino dos imigrantes italianos no país. Santa Teresa foi oficialmente declarada pioneira da imigração italiana pela Lei Federal 13.617/2018 e mantém viva a herança trentina e vêneta na arquitetura, na gastronomia e até no currículo escolar. A cidade concentra 80% da produção de vinhos do Espírito Santo, abriga o naturalista Augusto Ruschi e tem cerca de 90% da população descendente de italianos, segundo o Vice-Consulado Italiano.
A expedição de 1874 que mudou a história capixaba
A história começa em 3 de janeiro de 1874, quando o navio La Sofia partiu de Gênova com a expedição do italiano Pietro Tabacchi. Os imigrantes desembarcaram no Espírito Santo e foram direcionados ao Núcleo de Timbuhy, atual território de Santa Teresa, conforme registros do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES). A documentação no acervo público inclui um pedido de ressarcimento de 28 de outubro de 1874, assinado pelo colono Francesco Merlo, que serviu de base para o reconhecimento oficial.
O título de pioneira foi conferido pela Lei Federal 13.617, de 11 de janeiro de 2018, segundo a Prefeitura de Santa Teresa. Antes dele, em 2015, a Lei Estadual 10.378 já reconhecia o município como Capital Estadual da Imigração Italiana. A vila inicial, batizada como Nova Trento, virou município em 1891 e passou a se chamar Santa Teresa, em homenagem à imperatriz Teresa Cristina, esposa de Dom Pedro II.

Por que a herança italiana ainda se ouve nas ruas da serra
Cerca de 90% dos teresentes descendem de imigrantes vindos do norte da Itália, principalmente das regiões de Trento, Veneto e Lombardia, dado registrado pelo Vice-Consulado Italiano no Espírito Santo. Em algumas comunidades rurais, expressões dos dialetos trentino e vêneto ainda aparecem nas conversas entre vizinhos mais velhos. Desde 2007, o ensino da língua italiana faz parte do currículo regular das escolas públicas municipais.
O município mantém eventos para celebrar a tradição. O Festival Nostra Cultura, em outubro, reúne mais de 40 restaurantes com pratos típicos italianos, música ao vivo e oficinas. O Santa Teresa Gourmet, em maio, é considerado o maior festival gastronômico do Espírito Santo e completou 12 edições em 2026. Os Correios chegaram a lançar um selo comemorativo dos 150 anos da imigração italiana com Santa Teresa como cidade-protagonista.

O município que produz mais de 80% do vinho do Espírito Santo
A produção de vinhos é a outra herança italiana visível em Santa Teresa. Com cerca de 50 hectares cultivados, o município colhe mais de 700 toneladas de uva por ano, o equivalente a 80% da produção estadual, segundo o Portal Oficial. Anualmente, 10 vinícolas locais elaboram em média 80 mil litros de vinho.
As variedades cultivadas vão das tradicionais Niágara Rosada, Izabel e Bordo até as nobres Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Malbec e Alvarinho. A Vinícola Tabocas, no Vale do Tabocas, foi campeã do Wines of Brazil Awards 2020 com seu tinto Cabernet Sauvignon. As cantinas Mattiello, Romanha, Braun, Ziviani, Tomazelli e a Casa dos Espumantes também integram a rota do enoturismo capixaba, com degustações, hospedagem em casas centenárias e venda direta da produção artesanal.
O que fazer em Santa Teresa além de visitar as vinícolas
A serra capixaba combina natureza preservada, arquitetura colonial italiana e história científica. Estas são as paradas obrigatórias:
- Instituto Nacional da Mata Atlântica: antigo Museu Prof. Mello Leitão, fundado em 1949 por Augusto Ruschi. Reúne acervo de fauna, flora e o jardim de orquídeas mais completo do estado.
- Vinícola Tabocas: vencedora do Wines of Brazil Awards 2020 com o Cabernet Sauvignon. Recebe visitação no Vale do Tabocas com degustação programada.
- Cantina Mattiello: fundada em 1996, oferece tour por vinhedos, degustação de vinhos, licores e geleias, com café colonial servido em ambiente rústico italiano.
- Centro histórico: ruas estreitas com casarões coloniais italianos do final do século XIX, restaurantes típicos e o Santuário de Santa Teresa, padroeira local.
- Vale do Tabocas: rota de vinícolas com paisagens de parreiras a 700 metros de altitude, considerada o terroir mais privilegiado do Espírito Santo.
- Cachoeira do Trabiju: queda d’água em meio à Mata Atlântica preservada, com piscina natural e trilha leve.
A gastronomia mistura receitas italianas de duas gerações de nonas com ingredientes capixabas. Vale provar:
- Polenta com galinha caipira: receita trazida pelos imigrantes trentinos, servida com molho rústico de tomate e queijo curado.
- Capeletti em brodo: massa recheada em caldo de carne, prato típico das famílias vênetas que se instalaram na região.
- Vinho de jabuticaba: fermentado regional adotado pelos imigrantes italianos que faltava uva nos primeiros anos, hoje produzido em várias cantinas.
- Café colonial: tradição da serra capixaba, com pães caseiros, biscoitos, doces de tacho, geleias e queijos artesanais.
Quem planeja um roteiro completo de 3 dias em meio às montanhas capixabas, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Gastronomades, que conta com mais de 6 mil visualizações, onde os apresentadores mostram o que fazer, onde comer e onde se hospedar gastando pouco em Santa Teresa (ES):
Quando o clima ajuda a aproveitar a serra capixaba
Santa Teresa fica a cerca de 700 metros de altitude, o que rende um clima ameno o ano todo, com chuvas concentradas no verão. A janela ideal vai de abril a setembro:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a cidade onde a Itália desembarcou no Brasil
Santa Teresa é o tipo de destino que parece guardar dois séculos em algumas quadras. A primeira cidade italiana do Brasil pelo registro oficial reúne vinhos premiados, gastronomia trentina autêntica, ciência ambiental pioneira e a serra capixaba mais bem preservada.
Você precisa subir a serra, provar um vinho direto da cantina, conhecer o legado de Augusto Ruschi no INMA e caminhar pelo centro histórico para entender como uma vila do interior do Espírito Santo virou a porta de entrada da herança italiana no país.
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