De um lado da avenida é Brasil, do outro é Uruguai: duas cidades de 2 países diferentes com o mesmo nome
A fronteira faz parte da rotina de moradores dos dois lados da avenida
Fronteiras costumam se anunciar com guarita, carimbo e fila. No Chuí, no extremo sul do Rio Grande do Sul, ela é um canteiro de grama no meio de uma avenida. De um lado, o Brasil, do outro, o Uruguai, e entre os dois, apenas o asfalto que os moradores atravessam várias vezes por dia sem mostrar documento.
O Chuí não é uma cidade dividida ao meio
São dois municípios distintos, com prefeituras, leis e moedas próprias. O Chuí é brasileiro; Chuy, com ípsilon, é uruguaio e pertence ao departamento de Rocha. O que engana quem chega é a ausência de qualquer marca física entre eles: nenhum muro, nenhuma cancela, nenhum posto de imigração no meio da rua.
A confusão tem fundamento prático. Para quem vive ali, o tecido urbano é um só: o mercado fica de um lado, a farmácia do outro, e a linha internacional passa entre as duas calçadas. A separação existe no mapa e na burocracia, não na paisagem.

Por que esse é o único trecho sem ponte ou posto de controle?
Porque a divisa entre os dois países se apoia quase sempre em acidentes geográficos. A linha que separa Brasil e Uruguai percorre cerca de 1.069 km, do oeste gaúcho até a foz do Arroio Chuí, no Oceano Atlântico, e se apoia em rios, arroios e na Lagoa Mirim ao longo de quase toda a extensão.
No trecho urbano do Chuí, não existe rio para atravessar. A fronteira precisou ser desenhada sobre terra seca, no meio de uma área já ocupada, e coube a uma avenida cumprir esse papel. É o único ponto de toda a linha em que nenhuma barreira natural se coloca entre as duas nações.
Por que a avenida tem dois nomes ao mesmo tempo?
Cada país batizou sua faixa com o nome do vizinho. Do lado brasileiro, a via se chama Avenida Uruguai. Do lado uruguaio, Avenida Brasil. O conjunto atende por Avenida Internacional, e a cortesia diplomática rendeu a foto mais repetida da cidade: um pé em cada país, sem passaporte na mão.
A duplicidade não para na placa. Os free shops se concentram no lado uruguaio, aproveitando o regime aduaneiro especial, e vendem perfumes, bebidas e eletrônicos com pagamento aceito em real, peso ou dólar no mesmo caixa. Segundo a Receita Federal, o viajante brasileiro tem cota adicional de isenção de US$ 500 a cada 30 dias em lojas francas terrestres. Na direção contrária, uruguaios cruzam o canteiro atrás de comida, higiene e roupa mais baratas nos supermercados brasileiros.

O que o Censo revelou sobre a religião no Chuí?
Que a cidade lidera o país em pessoas sem religião. Conforme os resultados preliminares da amostra do Censo Demográfico 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 37,8% dos moradores com 10 anos ou mais se declararam sem religião, contra uma média nacional de 9,3%.
O número impressiona menos pelo tamanho do que pela persistência: o Chuí já ocupava o primeiro lugar nacional no Censo de 2010 e repetiu a posição doze anos depois. A categoria, vale dizer, não significa ateísmo automático. O IBGE agrupa ali desde quem se declara ateu ou agnóstico até quem acredita em algo sem seguir religião organizada.
Quem quer chegar ao ponto mais ao sul do Brasil, vai curtir este vídeo do canal Livres, Leves & Soltos, que mostra a viagem até o Chuí, na fronteira com o Uruguai:
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O que explica uma cidade tão secular no meio do Sul católico?
A hipótese mais discutida é a vizinhança. O Uruguai separou Estado e Igreja ainda no início do século XX e é hoje o país mais secular da América Latina, com feriados civis onde outros países mantêm datas religiosas. Essa cultura atravessa o canteiro central todo dia, no mesmo fluxo que leva compras e conversas de um lado para o outro.
O contraste regional reforça a estranheza do dado. A Região Sul é justamente a que registra a menor proporção de pessoas sem religião entre as cinco grandes regiões brasileiras. O Chuí, portanto, não é um exagero da tendência gaúcha: é uma exceção dentro dela, puxada por uma fronteira que fica a poucos metros de qualquer casa.
Uma linha que separa países e nenhuma outra coisa
O Chuí entrou no imaginário nacional como ponto final de uma frase de escola, o extremo de um país que vai do Oiapoque até ali. Quem chega descobre que o lugar é menos um marco e mais uma zona de mistura, onde português, espanhol e árabe dividem calçada e onde a nacionalidade muda a cada doze metros de asfalto.
Talvez seja isso o mais interessante em uma fronteira sem rio nem muro: ela obriga a admitir que a linha é uma convenção. Ela existe no mapa, organiza impostos e moedas, define de que lado alguém vota. E não impede absolutamente nada de atravessar.
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