Colonos japoneses transformaram um cerrado a 1.100 metros de altitude na cidade mineira que dita o preço do alho no Brasil
O clima de altitude ajudou a transformar a produção local
Meio século atrás, o cerrado do Alto Paranaíba era considerado terra de solo ácido e pouco futuro agrícola. Hoje, São Gotardo, no oeste de Minas Gerais, colhe cenoura praticamente o ano inteiro, lidera a produção nacional de alho e teve seus hortifrutis reconhecidos com selo de origem pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). A virada tem data, nome e um grupo de famílias que veio de longe para plantar em terreno que ninguém queria.
Como um programa dos anos 1970 mudou a agricultura do Alto Paranaíba?
Ele trouxe gente treinada para um solo que precisava ser corrigido antes de produzir. A horticultura local começou há cerca de cinco décadas com descendentes de japoneses vindos do Paraná e de São Paulo, atraídos pelo Programa de Assentamento Dirigido do Alto Paranaíba (Padap), cujas áreas ainda hoje formam o núcleo da região produtora, conforme o Conselho da Região de São Gotardo.
O programa oferecia estradas, energia, crédito e assistência técnica em troca de ocupação produtiva, e apostava em uma vantagem que só o relevo dava: chapadas planas, boas para máquinas, a 1.100 metros de altitude. Nessa faixa, as noites frias favorecem raízes doces e firmes, o mesmo princípio que explica boas batatas em terras altas europeias. Deu certo a ponto de a região virar referência de irrigação e de rotação de culturas no país.

Por que o preço do alho no país olha para essa cidade?
Porque a oferta se concentra ali em volume suficiente para mexer no atacado. Conforme o DataSebrae, a Região de São Gotardo é a maior produtora de alho do Brasil, com média aproximada de 45 mil toneladas por ano, resultado que faz atacadistas e centrais de abastecimento de várias capitais acompanharem a colheita local antes de fechar preço.
Não é uma cidade grande decidindo isso: o município tem população menor que a de muitos bairros de Belo Horizonte, e ainda assim pesa mais na formação do preço do alho do que estados inteiros. A colheita se concentra no inverno seco, quando o bulbo cura melhor no campo, e move uma cadeia de transporte, seleção e embalagem que ocupa a cidade nos meses frios.
O que o selo de origem reconheceu na região?
Reconheceu um território, não uma marca. O INPI concedeu à Região de São Gotardo a Indicação Geográfica (IG), na modalidade Indicação de Procedência, para cenoura, alho, batata e abacate, beneficiando cerca de 400 produtores, informa a Agência Sebrae de Notícias.
A área demarcada reúne seis municípios: Campos Altos, Ibiá, Rio Paranaíba, Matutina, Tiros e a própria São Gotardo, somando cerca de 50 mil hectares de zona produtiva demarcada. Na prática, o selo funciona como um sobrenome geográfico no caixote: garante de onde veio, como veio e sob quais critérios foi cultivado.
Existe mesmo cenoura colhida o ano inteiro?
Existe, e é o que separa a cidade das demais regiões produtoras. De acordo com a Agência Minas, o município é referência nacional em hortaliças e concentra cerca de 4 mil hectares de cenoura, algo em torno de 16% da área plantada com a hortaliça no país, abastecendo de São Paulo e Rio de Janeiro até Manaus e o Nordeste.
O calendário funciona em duas pernas: o plantio de inverno, mais produtivo, e o de verão, que exige cultivares resistentes ao calor e à chuva. Levantamento da Agência Brasil, com base na Embrapa Hortaliças, aponta São Gotardo como o primeiro dos principais centros produtores brasileiros, à frente de Cristalina, em Goiás, e Barbacena, também mineira. Esse rodízio contínuo é o que mantém o preço da cenoura menos instável nas gôndolas ao longo do ano.
O que a cidade oferece a quem chega de fora?
A agenda gira em torno da lavoura, e o maior evento do calendário nasceu de uma raiz. Confira abaixo os pontos que costumam guiar uma visita:
- Festa Nacional da Cenoura (Fenacen): realizada desde 1997 no Parque de Exposições, com rodeio, cavalgada e shows, segundo o Portal Minas Gerais.
- Igreja de São Sebastião: templo com escadaria que ocupa a praça central e organiza o traçado do centro antigo.
- Prédio Amarelo: casarão histórico que abriga a casa de cultura do município.
- Serra da Mata da Corda: planalto que cerca a cidade e explica a altitude e o clima ameno da região.
- Cafés de altitude: a mesma faixa de 1.100 m que favorece a hortaliça produz cafés arábica do Cerrado Mineiro, cultivados nas fazendas do entorno.
Vale lembrar que a cidade divide com outras do interior mineiro a lógica de crescer pelo campo e investir no urbano, movimento parecido com o de outros municípios que superam capitais em qualidade de vida.
Quem quer entender como é São Gotardo vai curtir este vídeo do canal Naeco, com mais de 10 mil visualizações, que percorre a cidade e mostra o desenvolvimento dessa região de Minas Gerais.
Como o clima de São Gotardo se comporta ao longo do ano?
A altitude segura o calor e a estação seca é longa: em São Gotardo, julho registra média de apenas 7 mm de chuva, volume que cabe em uma tarde de verão na mesma cidade. Veja abaixo o comportamento médio ao longo do ano:
Temperaturas e médias de chuva aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
Vale conhecer a cidade que abastece a mesa do país
São Gotardo fica a cerca de 295 km de Belo Horizonte, com acesso por rodovia, e mostra de perto algo que raramente se vê em roteiro turístico: o ponto exato onde o abastecimento nacional de hortaliças é decidido, entre pivôs de irrigação e galpões de seleção. Informações sobre serviços e agenda municipal estão no site da Prefeitura de São Gotardo.
Você precisa subir até o Alto Paranaíba em julho, ver a poeira dourada da colheita e entender por que uma cidade pequena consegue mandar no preço do que vai parar na sua cozinha.
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