Chancela da UNESCO e paredões de até 700 metros: a cidade de 6 mil moradores que guarda os maiores cânions da América do Sul
Os paredões criam algumas das paisagens mais impressionantes da região
Existe um ponto no Rio Grande do Sul onde o planalto simplesmente acaba. Os campos de altitude seguem ondulados por quilômetros e, de repente, o chão desaparece em fendas de centenas de metros abertas na borda da Serra Geral. É nesse lugar que fica Cambará do Sul, cidade de pouco mais de 6 mil habitantes que virou base para visitar dois parques nacionais e um território reconhecido internacionalmente por seu patrimônio geológico.
O que a UNESCO reconheceu nos cânions do sul do Brasil?
O reconhecimento veio em abril de 2022, quando o Geoparque Caminhos dos Cânions do Sul passou a integrar a Rede Global de Geoparques. O território soma 2.830,8 km² e reúne sete municípios, três gaúchos e quatro catarinenses, num arranjo raro de gestão compartilhada entre dois estados.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), a paisagem nasceu de erupções vulcânicas ocorridas há cerca de 150 milhões de anos, durante a separação dos grandes continentes e a formação do Oceano Atlântico. O magma criou uma das maiores províncias de basalto do planeta, e a água levou o resto do tempo esculpindo os desfiladeiros. O subsolo guarda outra raridade: as paleotocas, túneis escavados por animais gigantes da megafauna extinta há mais de 10 mil anos.

Por que o Itaimbezinho é o cânion mais conhecido do país?
Porque está dentro de um dos parques nacionais mais antigos do Brasil e pode ser visto sem grande esforço físico. O Parque Nacional de Aparados da Serra foi criado em 17 de dezembro de 1959 pelo Decreto nº 47.446 e é administrado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), que também cuida do vizinho Parque Nacional da Serra Geral.
Conforme o guia do visitante do ICMBio, o desfiladeiro chega a 700 metros de profundidade, com paredões verticais e uma fenda estreita coberta pelo verde da Mata Atlântica. A comparação ajuda a dimensionar: é como empilhar duas vezes o prédio mais alto do Brasil e ainda sobrar espaço. As trilhas de borda somam cerca de 7,5 km de percursos leves, acessíveis inclusive a crianças e pessoas com mobilidade reduzida.

O que fazer além dos dois cânions mais famosos?
O município reúne quedas d’água, mirantes e passeios a cavalo que aproveitam as antigas rotas dos tropeiros. Confira abaixo os principais atrativos da região:
- Cânion Fortaleza: a 23 km do centro, tem 7,5 km de extensão, 2 mil metros de largura e mirantes a 1.240 metros de altitude, segundo a Secretaria de Turismo do Rio Grande do Sul.
- Trilha do Vértice: percurso curto de 1,5 km, boa parte pavimentado, com vista da Cachoeira Véu de Noiva e da Cachoeira das Andorinhas.
- Trilha do Rio do Boi: caminhada por dentro do Itaimbezinho, com travessias de rio e condutor credenciado obrigatório, acessada por Praia Grande, em Santa Catarina.
- Cavalgada nos Cânions: sai da zona rural a 25 km do centro e percorre áreas acima de 1.150 metros, passando pelas bordas dos cânions Pinheirinho e Cambajuva.
- Museu Irmã Tarcila Afonso: acervo municipal dedicado à história local e à cultura dos Campos de Cima da Serra.
- Queijo serrano: produzido em propriedades rurais da região segundo tradição passada entre gerações, é a lembrança gastronômica mais típica da serra.
Quem ama cânions vai curtir este vídeo do canal Num Pulo, com mais de 336 mil visualizações, onde Daniel e Paula exploram as paisagens de Cambará do Sul.
Como é o clima de Cambará do Sul ao longo do ano?
A cidade está a mais de mil metros de altitude e tem um dos climas mais frios do Brasil, com chuva bem distribuída em todos os meses e média anual em torno de 15°C. Nas madrugadas de inverno, a geada cobre os campos, e a neve aparece de tempos em tempos: em agosto de 2025, a Agência Brasil registrou flocos no município com os termômetros perto de 2°C. Quem gosta desse tipo de clima também costuma se interessar pela Pequena Finlândia do Brasil, vilarejo com Natal o ano inteiro e cachoeiras geladas na serra fluminense. Veja abaixo como cada estação se comporta na cidade:
Médias aproximadas com base no Climatempo. As condições variam de um ano para outro por causa de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale conferir a previsão atualizada antes de viajar.
Conheça a terra dos cânions no alto da serra gaúcha
Poucos destinos brasileiros oferecem uma paisagem de escala continental com estrutura de cidade pequena e acolhedora. A menos de 200 km de Porto Alegre, a chancela internacional confirma o que qualquer visitante percebe no primeiro mirante: aquilo não é apenas bonito, é um registro geológico de importância mundial.
Você precisa subir até Cambará do Sul e chegar à borda do Itaimbezinho logo cedo, antes de a neblina cobrir o abismo e guardar a vista só para quem madrugou.
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