Aberta com picareta e um único trator: uma das estradas mais perigosas do Brasil tem o maior corte de rocha do Brasil com 90 metros e expõe o Aquífero Guarani em paredões de 160 milhões de anos
Estrada perigosa com paredões de 160 milhões de anos e recorde de escavação
Entre as cidades de Urubici e Grão-Pará, no sul de Santa Catarina, uma garganta de 90 metros de profundidade rasga ao meio um paredão de rocha na Serra do Corvo Branco datado em cerca de 160 milhões de anos. A travessia faz parte da rodovia SC-370 e guarda o maior corte em arenito do país, aberto a picareta, força braçal e um único trator de esteira, em uma obra que se arrastou por décadas até virar uma das paisagens mais marcantes da Serra Catarinense.
A obra que levou décadas para nascer da rocha
A construção começou ainda nos anos 1950, com mutirões de moradores armados de picaretas. Conforme registros históricos reunidos pela Prefeitura de Urubici, a passagem entre o litoral e o planalto era uma demanda antiga, aguardada há mais de 50 anos pelas comunidades da região.
A parte de baixo da serra ficou pronta em 1959, e o trecho de Urubici avançou nos anos 1960. Apenas em 1973 uma empreiteira finalmente abriu, com um trator de esteira, a fenda que se tornaria o cartão-postal da estrada. A inauguração oficial da rodovia, batizada de Rodovia Pedro Kuhnen, aconteceu em 19 de fevereiro de 1980, criando a primeira ligação rodoviária entre a Serra Catarinense e o litoral sul.
São 57 km de extensão e cerca de 805 metros de desnível entre os dois municípios. No trecho de Grão-Pará, o traçado guarda curvas de até 180 graus, em pontos tão estreitos que caminhões e ônibus precisam manobrar três vezes para conseguir passar.

Por que a fenda revela o Aquífero Guarani?
Porque o corte expõe diretamente a rocha sedimentar que forma um dos maiores reservatórios de água doce do mundo. Em expedição registrada pela Secretaria de Estado do Desenvolvimento Econômico Sustentável de Santa Catarina, o paredão da serra deixa visível o arenito Botucatu, rocha porosa que armazena a água subterrânea do Aquífero Guarani.
Quem desce a serra observa um detalhe curioso: o paredão do lado esquerdo permanece úmido o tempo todo, enquanto o direito é seco. A explicação está na inclinação leste-oeste das camadas de arenito, que conduz a água por dentro da rocha. Pelo cálculo do órgão estadual, o aquífero ocupa cerca de 1,2 milhão de km² sob quatro países da América do Sul e tem espessura média estimada entre 200 e 800 metros.
Há ainda uma faixa estreita de basalto escuro rasgando o arenito de baixo para cima. É o dique vulcânico que faz parte da Formação Serra Geral, resultado do resfriamento da lava que cobriu a região no tempo em que a América do Sul ainda estava grudada na África, no supercontinente Pangeia.

O nome veio de uma ave que não é corvo
O apelido nasceu de um engano dos moradores antigos. Segundo o Portal Municipal de Turismo de Grão-Pará, a ave que dá nome à serra é, na verdade, o urubu-rei, espécie de plumagem clara com detalhes coloridos que costumava nidificar nos paredões da região.
Como a ave era desconhecida pelos primeiros habitantes, recebeu o apelido de corvo branco. O nome pegou, batizou a serra e virou identidade turística. O urubu-rei, porém, ficou cada vez mais raro de se observar por causa da degradação do habitat e da baixa reprodutividade da espécie, e hoje aparece entre os animais protegidos pelo Parque Nacional de São Joaquim, que abrange parte da região.
O que visitar na Serra do Corvo Branco?
O corte vertical é a atração principal da estrada, mas a região reúne outros mirantes e formações dentro de uma das paisagens mais altas do Sul do Brasil. Entre os principais pontos do roteiro, destacam-se:
- Fenda da Serra do Corvo Branco: passagem entre paredões verticais de 90 metros, a 1.470 metros de altitude, considerada o maior corte em rocha arenítica do país.
- Parque Altos da Serra do Corvo Branco: a 1.380 metros, conta com mirantes panorâmicos, plataformas suspensas de vidro, trilhas leves e cafeteria com vista para o Vale do Rio Canoas e o Cânion Espraiado, conforme o site oficial do parque.
- Morro da Igreja: um dos pontos habitados mais altos do Sul, com 1.822 metros, dentro do Parque Nacional de São Joaquim e com vista para a formação Pedra Furada.
- Cânion Espraiado: paredões em meio aos campos de altitude próximos a Urubici, com mirantes naturais sobre o vale.
- Gruta Nossa Senhora de Lourdes: santuário no caminho da serra, a cerca de 10 km do centro de Urubici, em meio à mata.
Quem é apaixonado por road trips e paisagens de tirar o fôlego, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rock and Road SC, que conta com mais de 17 mil visualizações, onde os Apresentadores mostram um corredor verde espetacular aos pés da Serra do Corvo Branco e as Pirâmides Sagradas em Grão Pará, Santa Catarina:
Qual a melhor época para conhecer a Serra do Corvo Branco?
O inverno é o período mais procurado, quando as geadas, a neblina e a chance real de neve transformam a serra catarinense em um cenário raro no Brasil. A altitude faz a região manter temperaturas amenas mesmo no verão, e cada estação oferece uma face diferente do destino:
Temperaturas aproximadas para a região de Urubici com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
A cidade-base mais usada é Urubici, a cerca de 270 km de Florianópolis pela BR-282 e SC-370. Do centro da cidade serrana, a fenda fica a 27 km por estrada parcialmente asfaltada. Atualmente, a SC-370 está em obras pelo programa Estrada Boa, do Governo de Santa Catarina, com investimento estimado em R$ 60 milhões. O tráfego entre Urubici e Grão-Pará segue interditado, mas o acesso ao corte permanece liberado pelo lado de Urubici, em sistema Pare e Siga.
A garganta que reúne 160 milhões de anos em poucos metros
A Serra do Corvo Branco condensa, em menos de um quilômetro de paredão, um deserto pré-histórico, a quebra de continentes e a maior reserva subterrânea de água doce da América do Sul.
Você precisa atravessar a fenda e sentir o vento entre os paredões para entender por que essa estrada catarinense, aberta com picareta e um trator solitário, virou um dos lugares mais marcantes do Sul do Brasil.
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