A “Veneza Brasileira” que proibiu carros com lei: erguida sobre palafitas onde a população se move apenas de bicicleta e triciclo
Ruas suspensas sobre o rio e mobilidade sem carros
Em Afuá, no Arquipélago do Marajó, o motor do barco desliga no trapiche e, a partir dali, só restam os pedais. A cidade paraense de cerca de 38 mil habitantes não tem uma única rua de asfalto: todas são passarelas de madeira elevadas sobre a várzea, e nenhum carro, moto ou ônibus pode circular por elas.
Por que uma cidade inteira baniu veículos motorizados
Afuá foi construída em área de várzea permanentemente alagada, na foz do Rio Amazonas, a cerca de 84 km de Macapá. As passarelas de madeira, erguidas a 1,20 metro acima do nível dos rios, simplesmente não suportam o peso de automóveis. Motocicletas chegaram a circular nos anos 1990, mas a deterioração das estruturas levou a prefeitura a proibir qualquer veículo motorizado no perímetro urbano. A Lei Municipal nº 495/2022 reforçou a proibição, estendendo a restrição também às passarelas da zona rural.
O resultado é uma cidade sem semáforos, sem buzinas e sem placas de trânsito. Cerca de 75% dos deslocamentos urbanos acontecem de bicicleta, triciclo ou a pé. Até os serviços públicos se adaptaram: a Polícia Militar faz rondas com um efetivo de 25 policiais ciclistas, e os Bombeiros atendem emergências em bicilâncias, versões adaptadas da bicicleta com maca e suporte para oxigênio.

O inventor que transformou duas bicicletas em patrimônio cultural
Em 1995, Raimundo do Socorro Souza, conhecido como Sarito, queria passear com os filhos, mas a garupa de uma bicicleta não cabia toda a família. A solução foi unir duas bicicletas com uma estrutura de metal, criando um veículo de quatro rodas movido a pedal. Nascia o bicitáxi, hoje patrimônio cultural do município, conforme reportagem da National Geographic Brasil.
Os moradores chamam os bicitáxis de “carros”. Metalúrgicos locais montam cada veículo sob encomenda, e os proprietários personalizam com grafites, nomes de super-heróis e luzes de LED. Segundo Sarito, um bicitáxi equipado com som automotivo e iluminação pode custar até R$ 15 mil. A corrida custa entre R$ 5 e R$ 10, dependendo da distância. O município também contou com a participação no debate da COP 30, em 2025, quando escolas locais discutiram os desafios de uma cidade construída sobre palafitas diante das mudanças climáticas, segundo a Prefeitura de Afuá.

Açaí quente com farinha e peixe no café da manhã
A gastronomia de Afuá gira em torno de dois ingredientes: o camarão de água doce e o açaí. Diferente do restante do Brasil, onde o açaí é servido gelado com granola, na Veneza Marajoara o creme da fruta chega à mesa quente, acompanhado de farinha de tapioca, peixe frito ou camarão.
O fruto é colhido nas palmeiras da floresta de várzea ao redor da cidade e batido no mesmo dia. Vendedores de açaí pedalam pelas passarelas entregando o produto de bicicleta, e o preço varia conforme o estoque do dia. Mujica de camarão, tacacá e maniçoba completam a mesa típica da ilha.
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Quatro dias de festa que lotam a ilha em julho
Todo mês de julho, Afuá realiza o Festival do Camarão, que em 2025 chegou à 41ª edição. Durante quatro dias, a ilha recebe milhares de visitantes para shows regionais e nacionais, além de farta gastronomia amazônica. A programação inclui atrações que refletem a identidade local:
- Biciata: desfile em que donos de bicitáxis ornamentam seus veículos com temas que vão de lendas amazônicas a referências pop. As categorias premiam bicicletas, triciclos e bicitáxis.
- Batalha Camaroeira: competição de performances e ritmos típicos que reúne grupos culturais da região.
- Concurso de Rainha do Festival e Mister Camarão: tradição que celebra a beleza e a identidade dos moradores.
- Festival Kids: programação infantil na Praça Micaela Ferreira, com brincadeiras e oficinas durante os quatro dias.
Quem busca conhecer um destino único na Amazônia, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Rolê Família, que conta com mais de 240 mil visualizações, onde o apresentador mostra a incrível cidade de Afuá, no Pará, conhecida como a Veneza marajoara por ser toda construída sobre palafitas e onde carros são proibidos, dando lugar às famosas bicicletas e bicitáxis:
Como chegar à Veneza Marajoara
Afuá é uma ilha sem estradas de acesso terrestre. A rota mais comum parte de Macapá em lanchas rápidas, com travessia de aproximadamente 2h30, dependendo da maré. De Belém, a distância é de cerca de 300 km, com opção de táxi aéreo em aviões de pequeno porte. A cidade conta com um pequeno aeroporto cuja pista, fora dos horários de pouso, vira área de caminhada e corrida para os moradores.
A Prefeitura de Afuá disponibiliza informações sobre hospedagem e transporte em seu portal. O Festival do Camarão, em julho, é a época de maior movimento, e as vagas em hotéis e pousadas costumam esgotar com antecedência.
Pedale pela cidade que dispensou o asfalto
Afuá é o tipo de lugar que redefine o que significa cidade. Passarelas de madeira no lugar de avenidas, bicitáxis enfeitados no lugar de táxis, açaí servido quente na porta de casa no lugar de fast food. Tudo isso cercado por rios, floresta de várzea e o silêncio que só existe onde motores não entram.
Você precisa pegar o barco em Macapá e deixar o motor para trás, porque Afuá se conhece no ritmo das pedaladas e no tempo da maré.
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