A única cidade do Brasil colonizada por dez nações: a Suíça Brasileira que virou Capital Nacional da Moda Íntima por lei federal e produz 114 milhões de peças por ano a 846 m de altitude
Diferentes povos deixaram marcas na arquitetura, na cultura e nos costumes
Poucas cidades brasileiras nasceram de um decreto assinado por um rei antes mesmo de existirem moradores no lugar. Na serra fluminense, a 136 km do Rio de Janeiro, Nova Friburgo foi erguida para receber famílias suíças em 1818, acabou reunindo gente de dez nacionalidades diferentes e transformou uma crise industrial em um dos maiores centros de confecção do país.
Por que a Serra Fluminense recebeu colonos de dez nacionalidades?
Tudo começou com uma decisão de Dom João VI, interessado em ocupar o interior do país com europeus não portugueses. Conforme a Prefeitura de Nova Friburgo, o decreto de 1818 autorizou o agente do Cantão de Friburgo, na Suíça, a instalar uma colônia de cem famílias na Fazenda do Morro Queimado, e a sede recebeu o nome da região de origem dos colonos.
A composição da população mudou rápido. Em 1824, chegaram 343 alemães protestantes, liderados pelo pastor Frederico Sauerbronn, o que fez a cidade abrigar a primeira comunidade luterana do Brasil e a primeira igreja luterana da América Latina. Depois vieram italianos, sírios, japoneses, espanhóis, húngaros, austríacos e libaneses, somados aos portugueses e africanos que já estavam na região do café. Segundo a mesma fonte municipal, esse conjunto fez do município o único do país colonizado por dez nações.

O que a lei federal mudou para a capital da lingerie
Deu status oficial a um apelido que circulava havia décadas. De acordo com a Câmara dos Deputados, a Lei 14.883/2024 conferiu ao município o título de Capital Nacional da Moda Íntima, encerrando uma tramitação iniciada em 2020.
Os números por trás do título explicam o peso do setor. Conforme o Senado Federal, dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) apontam produção de cerca de 114 milhões de peças por ano, e o Sindicato da Indústria do Vestuário (Sindvest) contabiliza aproximadamente 20 mil postos de trabalho ligados ao segmento. O detalhe mais curioso está na origem: segundo a Prefeitura de Nova Friburgo, o setor nasceu da falência das grandes fábricas têxteis na década de 1980, quando trabalhadores demitidos abriram as próprias confecções de moda íntima. Hoje a cidade sedia a Fevest, uma das maiores feiras do gênero na América Latina.

Quanto a produção rural pesa fora das confecções?
Pesa a ponto de render outros títulos estaduais. A Prefeitura de Nova Friburgo registra o município como maior produtor de morango, couve-flor e flores de corte do estado do Rio de Janeiro, resultado de uma agricultura iniciada pelos próprios imigrantes nas encostas frias da serra.
O clima de montanha também explica um produto inesperado no cardápio fluminense. A cidade é a maior produtora de truta do estado, com produção mensal que chega a três toneladas, já que o peixe, parente do salmão, se adapta bem à água fria das cabeceiras. A tradição virou calendário: em novembro, restaurantes locais realizam o Festival da Truta, no mesmo espírito dos festivais de inverno que enchem a serra entre julho e agosto.

Onde estão as trilhas, cachoeiras e prédios históricos da Suíça Brasileira?
Os atrativos se dividem entre o centro tombado e os distritos rurais, alguns a mais de 30 km da área urbana. Confira abaixo os principais pontos para conhecer na cidade:
- Parque Estadual dos Três Picos: maior unidade de conservação de proteção integral do estado, referência em montanhismo, com escarpas e o Pico da Caledônia entre suas formações, segundo a Prefeitura de Nova Friburgo.
- Lumiar e São Pedro da Serra: distritos rurais conhecidos pelas cachoeiras e pelos rios de água cristalina, com pousadas e restaurantes espalhados pelas estradas de terra.
- Catedral de São João Batista: construção de 1869 na Praça Dermeval Barbosa Moreira, notável por ficar ligeiramente inclinada.
- Praça Getúlio Vargas: espaço central que marca o centro geodésico do estado do Rio de Janeiro.
- Queijaria Escola: herança direta do convênio firmado com a Suíça, no distrito de Conquista, ligada à tradição de laticínios da serra.
- Teleférico: trajeto sobre o centro que entrega vista aberta do vale onde a colônia foi instalada.
Como é o clima de Nova Friburgo ao longo do ano?
A cidade fica a 846 m de altitude e tem clima tropical de altitude, com as quatro estações bem marcadas, segundo a Prefeitura. O verão é quente e muito chuvoso, e o inverno traz madrugadas frias com ar seco. Veja abaixo o comportamento médio do clima ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas. Em janeiro, a média histórica de chuva em Nova Friburgo passa de 330 mm, enquanto em agosto fica perto de 55 mm, conforme o Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de subir a serra.
A combinação de altitude e clima ameno é a mesma que explica o apelo de outros vilarejos europeus encravados na serra fluminense, todos a poucas horas da capital.
A serra onde dez povos construíram uma cidade
Nova Friburgo reúne uma história de colonização que não se repete em nenhum outro município brasileiro, uma indústria que renasceu do próprio colapso e uma agricultura de altitude que abastece o estado inteiro de morango, flores e truta. Tudo isso a pouco mais de duas horas do Rio de Janeiro, em um vale cercado pelas montanhas mais altas da Serra do Mar.
Vale subir a serra, percorrer as cachoeiras de Lumiar e entender por que essa cidade carrega dez sotaques diferentes na mesma praça.
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