A única cidade brasileira com o título de Capital Nacional do Agroturismo por lei federal, com mais de 70 fazendas abertas a visitantes
A tradição dos imigrantes aparece na comida e nas festas locais
Turismo rural no Brasil quase sempre significa uma pousada isolada no meio do mato. Venda Nova do Imigrante, na região serrana do Espírito Santo, fez o contrário: transformou dezenas de propriedades de agricultura familiar em roteiro coletivo, com queijo, café e embutido produzidos na frente de quem visita, e virou referência nacional por conta disso.
Como um município de 25 mil habitantes inventou o turismo no campo?
Abrindo a porteira das próprias casas. O município nasceu da imigração italiana e só se emancipou de Conceição do Castelo no fim dos anos 1980, com economia inteiramente apoiada na agricultura familiar e no café, presente na maioria absoluta das propriedades rurais.
Sem grandes hotéis nem atrativos monumentais, as famílias começaram a vender diretamente ao visitante o que já produziam. Hoje são mais de 70 propriedades envolvidas com o setor, mobilizando cerca de 1.500 pessoas entre doces, geleias, biscoitos, licores, vinhos, cafés especiais, flores, cachaças e embutidos. O município tem entre 630 e 1.550 metros de altitude, o que garante clima ameno em qualquer época, e fica às margens da BR-262, a rodovia que liga a capital capixaba ao interior, detalhe que explica por que um lugar sem praia consegue atrair visitante de fim de semana.

O que garantiu o título nacional por lei?
Um reconhecimento que veio em etapas e terminou no Congresso. A Associação Brasileira de Turismo Rural apontou a cidade como capital do agroturismo em 2005, e o Ministério do Turismo repetiu o gesto no ano seguinte, mas o selo só virou lei quase duas décadas depois.
Segundo o Senado Federal, a Lei 14.636 nasceu do Projeto de Lei 1.847/2021, do deputado Evair Vieira de Melo, foi aprovada com relatório favorável do senador Magno Malta em 20 de junho de 2023 e sancionada em 25 de julho do mesmo ano. Conforme o Ministério da Agricultura e Pecuária, a cidade é reconhecida nacionalmente como pioneira em desenvolver turismo no campo a partir da agricultura familiar. É o tipo de reconhecimento que costuma acompanhar municípios do interior que superam capitais em qualidade de vida.

Por que o socol tem selo próprio do governo federal?
Porque a receita só existe daquele jeito ali. O socol é um lombo suíno curado por meses, herança dos imigrantes vindos do Vêneto, no nordeste italiano, e virou o produto mais reconhecível da cozinha local. A cura acontece sem cozimento, apenas com sal, tempero e o tempo agindo dentro de porões arejados pelo clima de altitude, condição que a serra capixaba oferece de graça.
De acordo com a lista oficial de Indicações Geográficas registradas, o embutido recebeu do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) o registro na espécie Indicação de Procedência, com concessão publicada em 12 de junho de 2018, a pedido da Associação dos Produtores de Socol de Venda Nova do Imigrante. Na prática, o nome da cidade passou a funcionar como garantia de origem, do mesmo jeito que acontece com queijos e vinhos europeus.

O que comer e o que ver entre as montanhas capixabas?
O calendário local é praticamente uma sequência de festas de comida, espalhadas pelas comunidades rurais ao longo do ano. Confira abaixo o que organiza a visita:
- Festa da Polenta: criada em 1978 pelo padre Cleto Caliman, acontece em outubro e tem como marca o tombo da polenta, despejada de um tacho gigante para a plateia.
- Centro de Eventos Padre Cleto Caliman: o Polentão, como é chamado pelos moradores, concentra a festa de outubro e boa parte da agenda cultural do município.
- Festa do Socol: realizada na comunidade rural de Alto Bananeiras, celebra o embutido que deu à cidade o registro de origem.
- Festa do Café: acontece em São Roque e reúne os produtores de cafés especiais das encostas da serra.
- Distrito Turístico de Pindobas: sede da RuralturES, feira estadual de turismo rural, e ponto de partida para trilhas e propriedades abertas.
- Exposição Nacional de Orquídeas: evento de organização local que reúne colecionadores de todo o país, com concursos e comercialização de espécies.
Quem quer conhecer o agroturismo do Espírito Santo, vai curtir esse vídeo do canal TVE Espírito Santo, com mais de 110 mil inscritos, sobre Venda Nova do Imigrante:
Como é o clima na serra do Espírito Santo?
A altitude segura o calor típico do litoral capixaba e cria um inverno seco de verdade, com médias mensais de chuva que caem para poucos milímetros entre junho e agosto. Veja abaixo o que esperar de cada estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a cidade onde a fazenda virou o roteiro turístico
Venda Nova do Imigrante mostra que um destino pode se construir sem praia, sem monumento e sem grandes obras. Bastaram famílias italianas dispostas a receber estranhos na cozinha, um embutido com selo de origem e um tacho de polenta virado no meio da rua todo mês de outubro.
Você precisa subir a serra capixaba e passar um fim de semana comendo direto da propriedade de quem produz.
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