A primeira cidade fundada por imigrantes italianos no Brasil produz 80% do vinho capixaba, mantém 40% do território em Mata Atlântica e criou o museu do naturalista que estudou os beija-flores
A herança italiana continua presente na gastronomia e na produção de vinho
Cidade pequena raramente entra ao mesmo tempo na história da imigração e na da ciência brasileira. Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo, conseguiu as duas coisas: nasceu da primeira leva organizada de famílias italianas que desembarcou no país e, décadas depois, viu nascer ali o pesquisador que se tornaria referência mundial no estudo de colibris e orquídeas.
Como a colonização italiana começou nas montanhas capixabas?
Começou com um navio à vela e uma expedição particular. Conforme a Prefeitura de Santa Teresa, o La Sofia partiu do porto de Gênova em 3 de janeiro de 1874, na chamada Expedição Tabacchi, considerada pelo sociólogo italiano Renzo M. Grosselli o primeiro caso de partida em massa de imigrantes do norte da Itália rumo ao Brasil.
A fundação oficial, porém, veio no ano seguinte. Segundo a Secretaria de Turismo do Espírito Santo, cerca de 60 famílias italianas receberam lotes de terra na região de Timbuí em 26 de junho de 1875, marco fundador da cidade e da colonização italiana organizada no país. O povoado prosperou rápido com café, cereais, videiras e criação do bicho-da-seda, e foi elevado a município em 1891.

Quem foi o cientista que deu à cidade o apelido de terra dos colibris
Augusto Ruschi nasceu ali em 1915, filho de descendentes de imigrantes italianos, e virou o nome mais conhecido da ecologia brasileira. De acordo com o Governo do Estado do Espírito Santo, ele fundou em 1949 o Museu de Biologia Professor Mello Leitão, homenagem ao zoólogo Cândido Firmino de Mello Leitão, inaugurando o primeiro espaço institucional do estado dedicado aos estudos biológicos.
O trabalho dele explica a fama da cidade entre observadores de aves. Segundo a Secretaria de Turismo do Espírito Santo, o município recebeu o título de Capital Estadual dos Colibris e a biodiversidade local permite observar dezenas de espécies em habitat natural, o que atrai pesquisadores e fotógrafos de várias partes do país. O museu mantém coleções científicas, jardins e viveiros voltados à preservação da Mata Atlântica.

Por que a serra capixaba concentra a produção de vinho do estado?
Pela combinação de altitude, clima ameno e uma tradição trazida pelos colonos. Conforme a Prefeitura de Santa Teresa, o município é o maior produtor de uva e vinho do Espírito Santo, com cerca de 80% da produção estadual.
A vitivinicultura convive com uma cobertura vegetal incomum para um território colonizado há 150 anos: aproximadamente 40% da área municipal ainda é Mata Atlântica preservada, segundo a Secretaria de Turismo estadual. A mesma administração local acumulou outro título por lei estadual, o de Capital Estadual do Jazz e do Blues, que sustenta um festival próprio no calendário. É o mesmo tipo de herança europeia mantida em outras cidades serranas formadas por imigrantes, cada uma com o próprio sotaque.
O que visitar na terra dos beija-flores?
A cidade fica a cerca de 80 km de Vitória, com acesso por rodovias estaduais e trajeto de aproximadamente uma hora e meia de carro. Confira abaixo os principais atrativos listados pela Secretaria de Turismo do Espírito Santo:
- Museu de Biologia Professor Mello Leitão: coleções científicas, jardins e viveiros no centro da cidade, criados por Ruschi.
- Casa Virgílio Lambert: uma das primeiras moradias erguidas pelos imigrantes, hoje espaço de memória.
- Rua do Lazer: trecho do centro cercado de casarões preservados, com restaurantes de comida italiana.
- Circuito Caravaggio: roteiro rural que reúne vinícolas, cantinas, laticínios e mirantes no vale de mesmo nome.
- Estação Biológica Santa Lúcia: área de pesquisa em plena Mata Atlântica, ligada à trajetória do naturalista.
- Rampa de Voo Livre Amauri Fernandes: ponto de decolagem com vista aberta para o vale do Caravaggio.
Quem quer conhecer a herança italiana da serra capixaba vai curtir este vídeo do canal GVT Channel, com mais de 134 mil visualizações, que mostra lugares para visitar em Santa Teresa.
Como é o clima de Santa Teresa ao longo do ano?
A altitude da serra segura o calor do litoral capixaba e mantém temperaturas amenas o ano inteiro. A diferença entre as estações aparece principalmente no volume de chuva. Veja abaixo o comportamento médio do clima ao longo do ano:
Temperaturas aproximadas. A média histórica de chuva vai de cerca de 35 mm em junho a 171 mm em março, conforme o Climatempo. As condições variam de um ano para outro por influência de fenômenos como El Niño e La Niña, então vale checar a previsão atualizada antes de viajar.
A serra capixaba onde ciência e imigração dividem o mesmo endereço
Santa Teresa guarda o marco inicial da colonização italiana organizada no Brasil, a maior produção de vinho do Espírito Santo e um museu científico que nasceu do trabalho de um morador obcecado por beija-flores. Quase metade do município continua coberta pela mata que ele passou a vida defendendo.
Vale subir a serra em um fim de semana, percorrer as vinícolas do Circuito Caravaggio e reservar uma manhã para ver os colibris de perto.
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