A cidade onde faz 50°C e a vida acontece inteira debaixo da terra
O lugar onde o calor extremo levou uma cidade inteira a viver sob a superfície
Chaminés brotam do chão vermelho e placas alertam sobre buracos sem marcação. Na superfície, quase nada se move. Toda a vida de Coober Pedy acontece metros abaixo do deserto, onde casas, igrejas, hotéis e até uma livraria foram escavados na rocha.
A cidade fica no norte da Austrália do Sul, a 846 km de Adelaide, e carrega no próprio nome a sua história: kupa-piti, em língua aborígene, significa algo como “buraco do homem branco”.
Por que uma cidade inteira decidiu viver no subsolo?
O clima responde rápido. Coober Pedy registra médias de 36,7°C no verão e já alcançou 48,3°C em dezembro de 2019, segundo dados compilados pela Wikipedia. A precipitação anual não passa de 144 mm, uma das menores da Austrália. A vegetação é quase inexistente e a umidade raramente supera 20%.
Soldados que voltaram das trincheiras da Primeira Guerra Mundial trouxeram a ideia de morar em túneis. Usando ferramentas de mineração, escavaram os primeiros dugouts, residências subterrâneas talhadas em arenito. Abaixo de quatro metros de profundidade, a temperatura se mantém entre 23°C e 25°C o ano inteiro, conforme registra o NASA Earth Observatory. Sem ar-condicionado e sem aquecedor, os dugouts oferecem conforto térmico natural que construções na superfície não conseguem igualar.

A capital mundial da opala nasceu por acaso
Em fevereiro de 1915, Willie Hutchison, um garoto de 14 anos que acompanhava o pai numa prospecção de ouro, tropeçou em pedaços de opala espalhados pelo chão. A descoberta transformou o deserto em campo de mineração. De acordo com a Encyclopaedia Britannica, Coober Pedy fornece a maior parte da opala de qualidade gema do planeta. A Austrália responde por cerca de 95% da produção mundial de opala comercial, e a maior fatia sai dos 70 campos ao redor da cidade.
Até 1999, mais de 250 mil entradas de minas já haviam sido abertas na região. Leis locais limitam cada concessão a um lote de cerca de 15 m², o que manteve a mineração artesanal e impediu a chegada de grandes corporações. Qualquer pessoa com uma picareta e alguma sorte ainda pode enriquecer da noite para o dia. Moradores já encontraram opalas ao escavar cômodos novos dentro de casa.

Igrejas na rocha e um hotel que achou opala ao ampliar quartos
A vida subterrânea vai muito além de residências. Coober Pedy abriga igrejas escavadas na pedra, como a Igreja Ortodoxa Sérvia de Santo Elias, com santos entalhados diretamente no arenito. Há também a Igreja Católica de São Pedro e São Paulo, salões de sinuca, uma livraria e galerias de arte, tudo no subsolo. A página oficial de turismo da South Australia descreve a cidade como um labirinto de residências, lojas e hotéis debaixo da terra.
Cerca de metade da população vive em dugouts, segundo o District Council of Coober Pedy. A comunidade reúne mais de 45 nacionalidades, herança dos imigrantes do sul e leste europeu que chegaram após a Segunda Guerra para tentar a sorte nas minas. Essa diversidade se reflete até nos nomes das ruas e igrejas da cidade.

O campo de golfe sem grama que tem acordo com St Andrews
Num lugar onde a árvore mais alta já foi uma escultura de metal, grama é artigo de ficção. O Coober Pedy Opal Fields Golf Club, fundado em 1976, oferece 18 buracos sobre solo de pedra e poeira. Os fairways são brancos, cobertos de arenito, e os greens são pretos, feitos de pó de pedreira misturado com óleo usado. Cada jogador carrega um pedaço de grama sintética de 15 cm para apoiar a bola antes de cada tacada.
O campo é jogado principalmente à noite, com bolas luminosas, para fugir do calor diurno. Uma placa irônica na entrada pede que os golfistas “não pisem na grama”. O detalhe mais surpreendente, porém, é diplomático: segundo a Golf Digest, o clube é o único no mundo com direitos recíprocos no St Andrews Links, o berço do golfe na Escócia. O acordo nasceu em 2003, depois que o presidente do clube enviou opalas e o registro de uma mina ao diretor escocês.
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Cenário de Mad Max e outros filmes que parecem ficção científica
A paisagem lunar de Coober Pedy atraiu Hollywood décadas antes de virar destino turístico. Em 1985, Mel Gibson e Tina Turner filmaram Mad Max Beyond Thunderdome nos arredores da cidade, usando as formações rochosas conhecidas como The Breakaways e a planície chamada Moon Plain. A Ausfilm lista ainda Pitch Black, Priscilla, a Rainha do Deserto e Mortal Kombat (2021) entre as produções que usaram a região como locação.
Moon Plain fica a 18 km do centro e exibe um solo cinza coberto de conchas fossilizadas e rachaduras que lembram a superfície de outro planeta. Os Breakaways, 32 km ao norte, são colinas coloridas que mudam de tom conforme o sol se move. A combinação de deserto extremo, mineração centenária e vida subterrânea transforma Coober Pedy num cenário que dispensa efeitos especiais.
Quem tem curiosidade sobre lugares exóticos no mundo, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Let’s Go, que conta com mais de 430 mil visualizações, onde o apresentador mostra a vida em Coober Pedy, a cidade subterrânea da Austrália:
Vale cruzar o deserto para conhecer o subsolo australiano
Coober Pedy é o tipo de lugar que desafia o que se espera de uma cidade. Onde falta água, sobra inventividade. Onde o calor expulsa da superfície, a rocha acolhe com temperatura de primavera eterna. O campo de golfe sem grama, as igrejas escavadas e os 250 mil buracos de mineração contam a história de uma comunidade que transformou o deserto mais hostil da Austrália em lar.
Se você procura um destino que não se parece com nenhum outro no planeta, Coober Pedy merece entrar no topo da lista.
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