A cidade gaúcha na fronteira com o Uruguai fica no mesmo paralelo do Chile e da África do Sul, e é por isso que o vinho dela ganhou selo do INPI e o azeite virou rota oficial
O clima de fronteira favoreceu vinhedos e olivais na região
Existe uma faixa do planeta entre os paralelos 29 e 32 de latitude sul onde nascem alguns dos vinhos mais respeitados do mundo. Ela passa pelo Chile, pela Argentina, pela África do Sul, pela Nova Zelândia, pela Austrália e pelo extremo sul do Brasil. Bem no meio dela, colada na fronteira com o Uruguai, está Bagé, a Rainha da Fronteira, cidade de invernos com geada, campos abertos e uma tradição pecuária de mais de um século que, nas últimas duas décadas, ganhou parreirais e olivais.
Por que o pampa entrou no mapa mundial do vinho
Em 2020, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) reconheceu a Indicação de Procedência (IP) Campanha Gaúcha para vinhos finos e espumantes. Bagé é um dos municípios contemplados.
Os dados vêm do registro da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que coordenou o projeto científico por trás do selo:
- Área delimitada: 44.365 km², abrangendo 14 municípios da Campanha Gaúcha.
- Origem das uvas: 100% devem ser produzidas dentro da área delimitada.
- Castas autorizadas: 36 cultivares, todas da espécie Vitis vinifera.
- Vinhos varietais: no mínimo 85% da variedade indicada no rótulo.
- Condução: os vinhedos são cultivados em espaldeiras, com limite de produtividade.
O que sustenta essa qualidade é o clima. Inverno rigoroso, alta luminosidade, grande amplitude térmica e pouca chuva no período de maturação da uva. Os mesmos elementos que fazem a fama de Mendoza e do Valle Central chileno.

A oliveira que encontrou casa na metade sul
O Rio Grande do Sul é o maior produtor de azeite de oliva do país. Segundo a Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), a produção se concentra na metade sul do estado, e Bagé aparece na lista dos principais municípios produtores, ao lado de Encruzilhada do Sul, Canguçu e Pinheiro Machado.
O diferencial técnico está na colheita. Os olivicultores gaúchos colhem a azeitona ainda verde, o que deixa o azeite mais picante e realça as características de cada variedade. O intervalo curto entre a colheita e o esmagamento impede que o fruto oxide. Variedades como Arbequina, Arbosana, Koroneiki e Picual dominam os pomares.
Em 29 de agosto de 2019, o governo estadual sancionou a Lei nº 15.309, que instituiu a Rota das Oliveiras para estimular o olivoturismo. Bagé integra o roteiro.

A feira rural que atravessou duas guerras mundiais
Antes do vinho e do azeite, veio o gado. Em 20 de setembro de 1904, 95 associados ruralistas fundaram a Associação Rural de Bagé, cujos primeiros estatutos foram redigidos pelo diplomata Joaquim Francisco de Assis Brasil.
A entidade promove a Expofeira de Bagé, realizada no Parque de Exposições Visconde de Ribeiro Magalhães, uma área de 32 hectares com sede em estética art déco. Desde a abertura, as exposições rurais só deixaram de acontecer durante as duas grandes guerras mundiais. A Rainha da Fronteira também sediou o nascimento de entidades como a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (ARCO) e a Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC).
O que ver entre o centro histórico e o cânion
O casario dos estancieiros conta a história do período áureo da pecuária. Fora da cidade, o pampa abre em formações rochosas.
- Catedral de São Sebastião: fica na Praça da Matriz e foi palco do episódio conhecido como Sítio de Bagé, em 1893, durante a Revolução Federalista.
- Museu Dom Diogo de Souza: fundado em 1956, guarda fardamentos e armas de espanhóis e portugueses do século XVIII, além de duas fototecas com quinze mil imagens históricas.
- Palacete Pedro Osório: erguido no início do século XX em estilo neoclássico, com mármore, vitrais e ferro fundido.
- Rincão do Inferno: formação rochosa às margens do rio Camaquã, a cerca de 90 km do centro, com trilha, banho de rio e possibilidade de acampar.
- Parque do Gaúcho: espaço de lazer que sedia rodeios, festivais de dança tradicional e exposições de artesanato.
- Vinícolas e olivais: propriedades da região abrem visitação com degustação mediante agendamento.
Quem busca desvendar vinícolas, olivícolas e belas paisagens no sul do Rio Grande do Sul, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Viver + o Mundo, que conta com mais de 43 mil visualizações, onde o apresentador mostra uma imersão na produção de vinhos finos e azeites artesanais em Bagé:
Quando visitar a Rainha da Fronteira?
O clima subtropical marca as quatro estações com clareza. O inverno é rigoroso, com geadas e mínimas próximas de zero, e é justamente o frio que a uva e a oliveira exigem.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
De Porto Alegre, são pouco mais de 300 km. A cidade tem aeroporto próprio, o Comandante Gustavo Kraemer. A fronteira uruguaia em Aceguá fica a menos de 60 km, cerca de 40 minutos de carro.
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Prove o pampa na taça e no prato
Poucos lugares do Brasil reúnem a feira rural que resistiu a duas guerras, um selo federal de vinho e um roteiro estadual de azeite dentro do mesmo município. Bagé conseguiu os três sem abrir mão do chimarrão e do fogo de chão.
Você precisa conhecer a Rainha da Fronteira, sentir a geada da manhã e entender por que o pampa entrou no paralelo dos grandes vinhos do mundo.
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