A cidade fluminense que deu nome a uma idade geológica e guarda o tatu mais antigo do mundo a 45 km do Rio de Janeiro
Os fósseis revelam animais que viveram há milhões de anos
Existem lugares no Brasil cujo nome virou unidade de medida do tempo geológico. Itaboraí, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, é um deles: os fósseis encontrados em uma antiga mina de calcário do município foram tão decisivos para entender o que aconteceu depois da extinção dos dinossauros que os cientistas batizaram uma era inteira em sua homenagem.
Como uma mina de calcário virou o berço dos mamíferos brasileiros?
Por acaso, e por causa de um engano geológico. Em 1928, o engenheiro Carlos Euler foi chamado para analisar o que se supunha ser caulim na Fazenda São José e concluiu que aquilo era calcário, matéria-prima do cimento. A exploração começou ali e durou mais de cinco décadas.
Quando a mineração parou, em 1984, restou uma cava de 70 metros de profundidade que a chuva e os veios subterrâneos foram enchendo até formar um lago. Segundo a Prefeitura de Itaboraí, a área foi declarada de utilidade pública em 1990 e virou o Parque Paleontológico de São José em 1995, hoje reconhecido pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleobiológicos (SIGEP) como sítio de valor patrimonial.

Por que uma idade geológica leva o nome de Itaboraí?
Porque os fósseis de mamíferos daqui viraram referência para datar rochas em todo o continente. Conforme o levantamento da SIGEP, uma das Idades-Mamífero Terrestre Sul-Americanas foi proposta com o nome de Itaboraiense, em homenagem à bacia, e corresponde a um intervalo de cerca de 50 milhões de anos atrás.
O motivo é a raridade do material. A Bacia de São José de Itaboraí guarda o registro brasileiro mais antigo de fauna e flora continentais posteriores ao fim do Cretáceo, quando os dinossauros desapareceram e os mamíferos começaram a ocupar o espaço deixado. Quando paleontólogos de outros países encontram animais parecidos, é o nome desta cidade fluminense que aparece na tabela de referência.
Quais fósseis já saíram do fundo dessa cava?
Bichos que só existem em livro. O mais citado é o Riostegotherium yanei, considerado o tatu mais antigo já descrito pela ciência, ao lado do Diogenornis fragilis, parente distante das emas atuais. Os fósseis não vieram todos de uma única camada: boa parte apareceu no preenchimento de fendas e canais abertos no calcário, misturados e desarticulados, o que exigiu décadas de trabalho de laboratório para separar espécie por espécie.
A lista continua com o Paleopsilopterus itaboraiensis, ave carnívora corredora da família das chamadas aves do terror, e o Carodnia vierai, xenungulado de aproximadamente 55 milhões de anos cujos ossos foram levados ao Laboratório de Macrofósseis da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). De acordo com a Prefeitura de Itaboraí, o parque também revelou fósseis bem mais recentes, de preguiça gigante e mastodonte, com cerca de 20 mil anos. As visitas precisam ser agendadas e acompanhadas por guia, justamente para preservar rochas que ainda podem esconder material.
O que mais visitar no município?
A cidade combina patrimônio colonial, sambaquis e um complexo industrial de escala nacional. O GasLub Itaboraí, herdeiro do antigo Comperj e tocado pela Petrobras, ocupa uma área tão grande que as ruínas do convento franciscano do município ficaram dentro do terreno da estatal, o que atrasou por anos a abertura do conjunto à visitação. É a mesma escala de megaprojetos brasileiros de bilhões de reais. Confira abaixo o que vale entrar no roteiro:
- Igreja de São João Batista: capela erguida em 1684 deu origem ao núcleo urbano e foi reconstruída entre 1725 e 1742, com torre única e assentos de granito.
- Ruínas do Convento de São Boaventura: iniciado em 1660 e tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), foi a quinta construção franciscana do Brasil.
- Capela de Santo Antônio: em Porto das Caixas, a versão primitiva data de 1622 e a atual, de 1822, com parte da fachada original preservada.
- Sambaquis de Sambaetiba: montes de conchas deixados por populações antigas, entre os registros arqueológicos mais expressivos da região.
- Mangue de Itambi: área de manguezal às margens da Baía de Guanabara, apontada pela prefeitura entre os atrativos naturais do circuito local.
Quem tem curiosidade sobre a história de milhões de anos de Itaboraí, vai curtir esse vídeo do canal PINTURA AUTOMOTIVA Super Dicas, com mais de 339 mil inscritos, sobre o parque paleontológico da cidade:
Como é o clima de Itaboraí ao longo do ano?
A cidade fica em baixada litorânea, com calor alto no verão e uma estação seca marcada no inverno, quando a chuva média mensal despenca. Veja abaixo o que esperar de cada período:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Conheça a cidade que batizou um capítulo da história da vida
Itaboraí não aparece nos roteiros de fim de semana do Rio, e mesmo assim guarda um dos endereços mais importantes da paleontologia brasileira. Um buraco aberto pela indústria do cimento acabou revelando o que restou dos primeiros mamíferos a herdar o planeta depois dos dinossauros, e deu à cidade um lugar permanente nas tabelas geológicas do mundo inteiro.
Você precisa agendar uma visita guiada ao parque paleontológico e ficar de frente para um lago que já foi o fundo de uma floresta de 55 milhões de anos.
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