A cidade do sertão que expulsou Lampião e elegeu a primeira eleitora da América Latina
Expulsou Lampião e elegeu a primeira mulher da América Latina
No oeste do Rio Grande do Norte, entre salinas e poços de petróleo, uma cidade do semiárido guarda quatro feitos que mudaram a história do Brasil. Mossoró libertou seus escravizados antes da Lei Áurea, resistiu ao cangaço a tiros e foi onde uma professora votou pela primeira vez em toda a região.
Por que o município ganhou o apelido de Terra da Resistência?
O apelido nasceu em 13 de junho de 1927, quando moradores armados expulsaram o bando de Lampião a tiros, num combate que durou cerca de uma hora. Foi a primeira grande derrota do cangaceiro mais temido do Nordeste, e a única ocasião em que uma cidade do interior nordestino o repeliu sem ajuda federal.
O prefeito da época, Rodolfo Fernandes, organizou trincheiras em pontos altos da cidade. A principal ficava no campanário da Igreja de São Vicente, erguida em 1915 por retirantes da seca. As marcas de bala ainda estão lá, visíveis na torre, e o templo virou ponto obrigatório de visita.
O confronto rendeu a morte de dois cangaceiros do bando, incluindo Colchete, e a captura de Jararaca, conforme registra a Prefeitura de Mossoró em seu acervo histórico. O episódio é reencenado todo mês de junho no espetáculo Chuva de Bala no País de Mossoró, com cerca de 70 atores em cena.

Uma professora desafiou a Justiça e virou a primeira eleitora do continente
Em 25 de novembro de 1927, a professora Celina Guimarães Viana entrou com requerimento para se alistar como eleitora. O juiz interino Israel Ferreira Nunes aprovou o pedido no mesmo dia, e o nome dela foi incluído na lista geral de votantes do estado.
O alistamento foi possível graças à Lei nº 660, sancionada em outubro daquele ano no Rio Grande do Norte, que retirou a expressão “do sexo masculino” das normas eleitorais. Em 5 de abril de 1928, Celina votou. O Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte (TRE-RN) registra que ela se tornou a primeira eleitora não só do país, mas de toda a América do Sul. O voto feminino só seria oficializado em todo o Brasil quatro anos depois, em 24 de fevereiro de 1932.
Liberdade cinco anos antes da Lei Áurea e o Motim das Mulheres
Em 30 de setembro de 1883, a então vila aboliu a escravidão por iniciativa própria. Foi a primeira cidade potiguar a fazer isso, e os movimentos abolicionistas locais já vinham articulados desde o ano anterior, com a fundação da Sociedade Libertadora Mossoroense em janeiro de 1883. A data é o maior feriado cívico mossoroense até hoje.
Oito anos antes, em 30 de agosto de 1875, a cidade já havia escrito outro capítulo de coragem. Ana Rodrigues Braga, conhecida como Ana Floriano, liderou cerca de 300 mulheres em protesto contra a obrigatoriedade do alistamento militar decretada durante o reinado de Dom Pedro II. Munidas de panelas e colheres de pau, elas marcharam até a antiga Matriz de Santa Luzia, rasgaram os editais de convocação e seguiram até a casa do escrivão para destruir o livro de alistamento.
Os dois feitos integram os quatro atos libertários celebrados anualmente pelo espetáculo Auto da Liberdade, encenado em setembro na Estação das Artes Elizeu Ventania. A montagem já chegou a constar no Guinness Book como maior espetáculo brasileiro em palco ao ar livre, com mais de mil pessoas em cena em algumas edições.

Sol, sal, petróleo e o São João que rivaliza com Campina Grande
O município é o maior produtor de sal marinho do Brasil e figura entre os maiores produtores de petróleo em terra do país, segundo a prefeitura. O primeiro jorro comercial em terra firme aconteceu em 1979, num poço perfurado para abastecer as piscinas do antigo Hotel Termas. O episódio deu origem ao apelido oficial: Terra do Sol, do Sal e do Petróleo.
A fruticultura irrigada completa o tripé econômico, com produção de melão e melancia que abastece mercados nos Estados Unidos e na Europa através da feira Expofruit. O semiárido recebe ainda estudantes de outros estados atraídos pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) e pela Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA), com cursos de engenharia, agronomia e petróleo.
A festa que coroa o calendário é o Mossoró Cidade Junina (MCJ), considerado um dos três maiores festejos juninos do país ao lado dos arraiais de Campina Grande, na Paraíba, e Caruaru, em Pernambuco. A diferença é que aqui tudo acontece a céu aberto, no Corredor Cultural Antônio Gonzaga Chimbinho. Na edição de 2025, o bloco de abertura Pingo da Mei Dia reuniu cerca de 250 mil pessoas em um único dia, segundo o balanço da administração local.
Quem se interessa pela rica história e cultura potiguar, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal DEVA NO AR, que conta com mais de 76 mil visualizações, onde Deva e João mostram os pontos turísticos e a história de resistência de Mossoró, Rio Grande do Norte:
Vale a pena conhecer a Capital do Oeste
A cidade reúne quatro feitos históricos que poucas localidades do mundo podem reivindicar juntos, sol o ano todo e uma das maiores festas juninas do país. Tudo isso a 281 km de Natal e cerca de 245 km de Fortaleza, posição privilegiada para quem vai ou vem do litoral nordestino. Conforme dados do Climatempo, o segundo semestre é o mais seco e ideal para visitar as salinas do litoral próximo.
Você precisa subir ao campanário da Igreja de São Vicente, ver as marcas de bala de perto e entender por que esse pedaço do semiárido potiguar virou símbolo nacional de coragem.
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