A cidade brasileira onde uma avenida divide dois países e o canteiro central separa o real do peso uruguaio
Avenida que separa Brasil e Uruguai com moedas diferentes a cada lado da via
Nascida do limite imposto pelo Tratado de Limites de 1851 entre Brasil e Uruguai, Chuí cresceu como o único ponto urbano de toda a fronteira sul onde basta atravessar a rua para mudar de país. A cidade fica no extremo meridional do Rio Grande do Sul e guarda uma rotina rara, com quatro idiomas, duas moedas e um canteiro central no lugar de qualquer cancela.
Uma rua, dois países e nomes invertidos no mesmo asfalto
A linha de fronteira entre Brasil e Uruguai tem 1.069 km de extensão, segundo o verbete enciclopédico consolidado a partir de tratados oficiais. O trecho urbano do Chuí é o único pedaço dessa linha sem rio, ponte ou posto de imigração entre os dois países.
A separação acontece no canteiro central da chamada Avenida Internacional. Do lado brasileiro, a via se chama Avenida Uruguai. Do lado uruguaio, a mesma avenida atende pelo nome de Avenida Brasil. Cada país batiza o trecho com o nome do vizinho, num gesto que virou marca registrada da cidade.

Por que a cidade só virou município em 1995?
O Chuí foi vila do município de Santa Vitória do Palmar até meados dos anos 1990. A emancipação política aconteceu apenas em 1995, conforme registros da Prefeitura Municipal de Chuí, que estabelece o dia 22 de outubro como aniversário oficial.
A história do povoamento, porém, é bem mais antiga. A área dos chamados Campos Neutrais Chuí-Taim só foi incorporada ao território brasileiro com o tratado de limites celebrado em 12 de outubro de 1851. Até ali, espanhóis e portugueses disputavam ponto a ponto a região, que ficou décadas em situação confusa antes de virar fronteira definitiva.
O extremo sul que fica fora da cidade
O Chuí é apontado como o município mais meridional do Brasil, com latitude 33°41′28″S, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mas o título guarda uma sutileza geográfica.
O ponto mais ao sul do território nacional não fica na sede urbana, e sim no Arroio Chuí, pequeno curso d’água de cerca de 22 km que deságua no Atlântico. Segundo registros geográficos consolidados, o extremo real está numa curva do arroio a aproximadamente 2,7 km antes da foz, no município vizinho de Santa Vitória do Palmar. A foz do arroio também marca o extremo oeste do litoral brasileiro e os extremos norte e leste do litoral uruguaio ao mesmo tempo.

A cidade mais secularizada do país
O Censo Demográfico de 2010 trouxe um dado raro sobre o Chuí. Conforme análise publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), 54,2% da população se declarou sem religião naquele ano, contra 22,4% de católicos e 7,5% de evangélicos.
O número fez do município a cidade mais secularizada do Brasil. A explicação proposta no estudo do IHU envolve a vizinhança com o Uruguai, país que separou formalmente Igreja e Estado em 1916 e mantém a maior taxa de pessoas sem filiação religiosa da América Latina. Em pouco mais de duas décadas, o grupo sem religião saltou de 38,5% para mais da metade da população local.
Como uma colônia palestina dominou o comércio
A diversidade cultural do Chuí não vem apenas da divisa. Desde o final dos anos 1950 e começo dos anos 1960, famílias palestinas começaram a se instalar na fronteira, atraídas pela diferença cambial entre os dois países antes do Mercosul. O estudo de Denise Jardim, publicado pela SciELO, documenta como essas famílias se inseriram no pequeno comércio de fronteira.
A presença ganhou tamanho expressivo. Pesquisas acadêmicas estimam que, em meados dos anos 1990, cerca de 18% dos estabelecimentos comerciais do município pertenciam a famílias árabes. O centro abriga mesquita, escola e jornal bilíngue, e o cotidiano mistura português, espanhol, portunhol e árabe na mesma calçada. O Chuí ficou conhecido como a cidade brasileira com maior concentração de estrangeiros segundo o Censo de 2010.
Quem planeja conhecer o extremo sul do país, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Juntos Nessa Viagem, que conta com mais de 17 mil visualizações, onde os apresentadores mostram a fronteira do Brasil com o Uruguai no Chuí:
Quanto custa atravessar a rua e comprar como turista
O comércio de free shops fica concentrado no lado uruguaio da avenida. As lojas funcionam sob regime aduaneiro especial, e os brasileiros têm direito a uma cota individual definida pela Receita Federal.
O limite oficial é de US$ 500 por pessoa a cada 30 dias em fronteira terrestre, vinculado ao CPF. A regra vale também para Foz do Iguaçu, Uruguaiana, Tabatinga e demais pontos secos. Há limites adicionais para bebidas (12 litros), cigarros (10 maços) e charutos (25 unidades). Os pagamentos podem ser feitos em três moedas na mesma loja:
- Real brasileiro: aceito em praticamente todas as lojas da avenida, com câmbio do dia.
- Peso uruguaio: moeda oficial do lado de lá, usada nos comércios locais e supermercados.
- Dólar americano: referência de preço nas etiquetas dos free shops.
Quanto Chuí é pequeno em números
Mesmo com a vida fronteiriça intensa, o Chuí é uma cidade pequena em todos os recortes. O último Censo, divulgado pelo IBGE em 2022, traz a fotografia mais recente do município.
- População: 6.262 habitantes no Censo 2022, com estimativa de 6.409 pessoas para 2025.
- Área territorial: 202,387 km², com densidade de 30,94 habitantes por km².
- Distâncias: 525 km até Porto Alegre, 347 km até Montevidéu e 2.552 km até Brasília, conforme a Câmara Municipal de Chuí.
- IDHM: 0,706 na medição de 2010, dentro da faixa de qualidade de vida considerada alta pelo IBGE.
Atravesse a rua e conheça o Brasil que termina aqui
O Chuí prova que uma fronteira pode ser ponto de encontro, e não linha de separação. Numa única avenida convivem duas moedas, quatro idiomas, mesquita e supermercado, e a sensação de estar em dois países ao mesmo tempo sem mostrar passaporte.
Você precisa caminhar pela Avenida Internacional e sentir como é viver no lugar onde o Brasil termina e começa outro país do outro lado do canteiro.
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