A cidade a 40 km do Rio de Janeiro que dava para sentir antes de ver, deu a vida a sete municípios e guarda um vulcão que nunca existiu
A divisão do território ajudou a criar várias cidades da região
Cidade grande costuma perder o cheiro antes de perder o nome. Nas décadas de 1930 e 1940, dava para saber que se estava chegando a Nova Iguaçu pela florada dos laranjais que cobriam os morros. A cidade era o maior exportador de laranja do país e ganhou o apelido de Cidade Perfume. Hoje, a agropecuária responde por 0,1% do que ela produz.
Por que Nova Iguaçu era chamada de Cidade Perfume?
Por causa das laranjeiras em flor. A partir de 1920, os pomares tomaram conta da Estrada de Madureira, de Cabuçu e de Marapicu, formando o primeiro grande núcleo citrícola do país. O impulso veio de Nilo Peçanha, que na presidência do estado apostou na fruticultura para reerguer uma economia fluminense em crise após o café. Segundo a Prefeitura de Nova Iguaçu, o plantio de laranjas virou a principal atividade do município no século XX.
Os números dão a dimensão do reinado. Das 1.236.453 caixas de laranja exportadas pelo estado do Rio em 1931, 687.900 saíram de Nova Iguaçu, mais da metade da produção fluminense em um único município. Em 1933, ergueu-se ali um packing house, o galpão de beneficiamento e embalagem que colocou a fruta nos padrões do mercado internacional. A laranja seguia de navio para a Argentina e os Estados Unidos.

O que acabou com o reino da laranja?
Uma guerra do outro lado do oceano. A partir de 1939, a Segunda Guerra Mundial interrompeu o transporte marítimo, e uma cidade que exportava quase toda a colheita ficou sem para quem vender. A superprodução virou crise em poucos anos.
O que veio depois redesenhou o mapa. Sem a laranja, as terras dos antigos pomares foram loteadas justamente quando a Baixada Fluminense recebia uma explosão demográfica. A população saltou de cerca de 51 mil habitantes no início da década de 1930 para algo em torno de 300 mil em meados dos anos 1940. Os laranjais viraram bairros, e o cheiro sumiu junto com a lavoura.
Como uma cidade dá origem a sete outras?
Perdendo pedaços do próprio corpo, um a um, por meio século. Nova Iguaçu chegou a ter 1.489 km² até 1943 e é chamada de Cidade Mãe da Baixada porque dela nasceram sete municípios inteiros. Hoje o território é de cerca de 521 km², pouco mais de um terço do original.
A conta ficou estranha no meio do caminho. Mesmo desmembrada, a cidade atingiu 1,7 milhão de habitantes em 1989 e chegou a figurar entre as maiores do Brasil, antes de perder mais três distritos na década seguinte.
- Duque de Caxias: emancipado em 1943, hoje uma das maiores economias do estado.
- Nilópolis e São João de Meriti: ambos em 1947, na esteira do colapso citrícola.
- Belford Roxo e Queimados: em 1990, levando junto o polo industrial iguaçuano.
- Japeri: em 1991.
- Mesquita: em 1999, a caçula da Baixada, com apenas 35 km².
Existe mesmo um vulcão na Baixada Fluminense?
Existiu atividade vulcânica, mas não o vulcão que a lenda promete. Em 1980, os geólogos Victor Carvalho Klein e André Calixto Vieira propuseram que o Maciço do Mendanha guardava um vulcão extinto com cone e cratera preservados. A hipótese ganhou a imprensa em 2004, virou exposição em shopping e atração turística.
A ciência foi na direção oposta. A partir de 2006, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e de outras instituições mostraram que a rocha principal do maciço é o sienito, formado por resfriamento de magma a quilômetros de profundidade, o que é incompatível com um cone vulcânico preservado. O que se vê ali é uma intrusão subvulcânica erodida, ou seja, o encanamento profundo por onde o magma subia, hoje exposto porque tudo que estava por cima foi embora. Não é menos impressionante: é a raiz de um vulcão, e não sua superfície.

Um parque que o Brasil inteiro procura no Google
O Parque Natural Municipal de Nova Iguaçu ficou em segundo lugar entre os parques municipais mais pesquisados na internet em todo o país em 2024, com 56.100 buscas, conforme a Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente. Só o Parque Natural Municipal Estoril, em São Bernardo do Campo, ficou à frente. Na lista geral de unidades de conservação, ele aparece em 10º lugar nacional.
O que o visitante encontra explica a procura. São 1.100 hectares de Mata Atlântica preservada, cerca de 8 km de trilhas sinalizadas e 11 áreas liberadas para banho entre a Pedra da Contenda e a Serra do Vulcão. Há rampa de voo livre, rapel na Cachoeira Véu da Noiva e as ruínas da sede da Fazenda Dona Eugênia, do século XIX. A entrada é gratuita, de terça a domingo, das 8h às 16h, mediante documento com foto.
Quem procura natureza e história em Nova Iguaçu, vai curtir este vídeo do canal DaiTurismo – Daiane Rocha, que mostra cachoeiras e atrações de Tinguá:
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A floresta que abastece a Baixada
A Reserva Biológica do Tinguá protege 24.812 hectares de Mata Atlântica, a maior parte dentro de Nova Iguaçu, segundo o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Criada pelo Decreto Federal 97.780, de 1989, integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica desde 1992.
Por ser reserva biológica, a categoria mais restritiva do sistema brasileiro, não há visitação turística: o acesso é para pesquisa e educação ambiental, com agendamento. A contrapartida é invisível e diária. As nascentes ali dentro abastecem boa parte da Baixada Fluminense, e a estação de tratamento do Rio D’Ouro, construída em 1880 para servir à corte imperial, ainda funciona.
O que sobrou quando o perfume acabou
Nova Iguaçu perdeu a lavoura que a batizou, sete municípios que a formavam e um vulcão que nunca teve. Ainda assim, é a maior cidade da Baixada em extensão, guarda um dos maiores remanescentes contínuos de Mata Atlântica do estado e tem um parque que o país inteiro procura na internet.
Talvez seja essa a lição de uma cidade que já foi sentida antes de ser vista: o que define um lugar raramente é aquilo que ele exporta, e quase sempre é aquilo que ele não conseguiu perder.
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