A Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura a 230 km de São Paulo: o vilarejo a 1.100 metros que abriga o primeiro forno japonês do Brasil e foi nomeado por lei
Vilarejo serrano paulista é referência em cerâmica de alta temperatura
A neblina sobe pela serra antes da manhã clarear e cobre a estrada de barro vermelho que sai de Cunha, no extremo leste do estado de São Paulo. A vila encravada entre a Serra do Mar e a Serra da Bocaina guarda dezenas de ateliês de cerâmica, fornos japoneses centenários em técnica e uma história que começa nos tempos dos índios tamoios. Em 2022, virou a única cidade brasileira a receber por lei o título de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura.
Por que Cunha virou referência mundial em cerâmica
A tradição começou muito antes da chegada dos portugueses. Os indígenas tamoios produziam peças utilitárias na região do Vale do Paraíba desde o século 16, e o ofício seguiu vivo nas mãos das paneleiras locais por gerações.
A virada veio em 1975. Um grupo formado pelo arquiteto português Alberto Cidraes, sua esposa Maria Estrela e os ceramistas japoneses Toshiyuki e Mieko Ukeseki se instalou no antigo matadouro da cidade e construiu o primeiro forno noborigama do Brasil. A técnica japonesa, em que as peças queimam a temperaturas próximas de 1.400°C dentro de câmaras escalonadas, transformou Cunha em destino de ceramistas paulistanos e estrangeiros nos anos seguintes.
Em 2 de junho de 2022, a credencial virou lei federal. Conforme a Câmara dos Deputados, a Lei 14.363/2022 conferiu ao município o título de Capital Nacional da Cerâmica de Alta Temperatura. Hoje, os ateliês são a principal atração turística da cidade.

Onde ver os ceramistas trabalhando e levar a peça pra casa
O roteiro pelos ateliês cabe em dois ou três dias, com paradas entre o centro e a estrada que leva a Paraty. Algumas casas marcam aberturas de fornada com data agendada, em que as peças saem ainda quentes do forno e o público assiste à abertura das câmaras.
- Ateliê Suenaga e Jardineiro: comandado por Kimiko Suenaga e Gilberto Jardineiro, é um dos mais tradicionais. Faz queimas no forno noborigama a cada dois meses, com abertura de fornada para o público.
- Antigo Matadouro: berço da cerâmica de alta temperatura no Brasil, onde Cidraes e os Ukeseki ergueram o primeiro forno em 1975.
- Casa do Artesão: ponto oficial mantido pela Secretaria de Turismo, com peças de vários ateliês reunidas em um só endereço.
- Cerâmica Cassinha: loja-ateliê familiar no centro com oficinas práticas, onde o visitante modela a própria peça.
- Cunha Cerâmica: associação que reúne ceramistas da cidade e funciona desde 1988 como espaço artístico.
O cardápio sai de cuias e pratos a esculturas autorais vendidas para galerias do Brasil e do exterior. O barro vem da região, a queima leva horas e cada peça carrega marcas de fogo impossíveis de reproduzir industrialmente.

O que mais ver na estância climática entre duas serras
Conforme a Prefeitura de Cunha, a cidade é uma das doze estâncias climáticas do estado, com altitude média de 1.100 metros e clima ameno o ano inteiro. O território é grande para padrões paulistas: 1.407 km² entre planaltos e serras.
Os principais pontos turísticos saem dos ateliês:
- Pedra da Macela: ponto culminante a 1.840 metros, na divisa com o Rio de Janeiro. Em dias claros, a vista alcança Paraty, Angra dos Reis, Ilha Grande e a Serra da Mantiqueira.
- Lavandário: campo de lavandas com vista para a serra, parada certa para o pôr do sol entre cores roxas.
- Parque Estadual da Serra do Mar: trilhas em Mata Atlântica preservada, com acesso a quedas como a Cachoeira do Pimenta e a Cachoeira do Desterro.
- Estrada Cunha-Paraty (SP-171): caminho de 50 km entre serras com paradas em alambiques, queijarias e cafés especiais da Mantiqueira paulista.
Quem planeja montar um roteiro completo de o que fazer na Serra do Mar, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal Vamos Fugir Blog, que conta com mais de 150 mil visualizações, onde Lígia e Ulisses mostram os melhores passeios, restaurantes e onde ficar em Cunha SP:
O calendário ajuda a planejar a visita conforme a estação:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
Como chegar à serra dos ceramistas
Cunha fica a cerca de 230 km de São Paulo. O acesso é pela Rodovia Presidente Dutra até Guaratinguetá, depois pela Rodovia Paulo Virgínio (SP-171). O trajeto leva pouco mais de três horas em condições normais, com últimos quilômetros em serra fechada e neblina frequente.
Quem vem do Rio de Janeiro chega pela mesma SP-171 a partir de Paraty, em trecho de cerca de 50 km com pavimentação concluída há poucos anos. A subida da serra recompensa cada curva com mirantes naturais para o litoral norte fluminense.
Por que Cunha entra no roteiro de quem ama arte
Poucos lugares no Brasil reúnem na mesma rua dezenas de ateliês de cerâmica, clima de montanha o ano inteiro e uma serra que conecta São Paulo ao litoral fluminense em paisagem ininterrupta. Cunha entrega o que parecia impossível em três horas da capital paulista: ar puro, queima de forno japonês e mirantes com vista para o mar.
Você precisa subir a serra até Cunha em uma manhã de neblina, assistir à abertura de uma fornada e levar pra casa uma peça que ninguém mais terá igual.
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