932 habitantes e mais vagas de emprego do que gente: a cidade paulista que cabe em um vagão de metrô
A pequena população cria uma rotina diferente da maioria dos municípios
Existe no interior de São Paulo um município tão pequeno que caberia inteiro em um vagão de metrô cheio na hora do rush. Borá, na região oeste paulista, foi por 12 anos consecutivos a cidade menos populosa do Brasil. Hoje ocupa o terceiro lugar do ranking, com pouco mais de 900 habitantes e uma peculiaridade que embaralha a economia local: são mais vagas de emprego do que moradores.
Como Borá virou o menor município do Brasil?
A história começa em 1910, quando a região do oeste paulista era conhecida pela presença abundante de uma abelha nativa chamada borá. O nome se firmou e o povoado foi elevado à condição de município em 1964, desmembrado de Paraguaçu Paulista, segundo o histórico oficial da Prefeitura Municipal de Borá. No primeiro levantamento populacional feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1970, Borá tinha 1.270 habitantes e ocupava a décima posição entre as cidades menos populosas do país.
A partir do Censo de 1991, com 751 habitantes, o município passou a ocupar o primeiro lugar do ranking. Manteve o título por mais de duas décadas. Só em 2013 perdeu o posto para Serra da Saudade, em Minas Gerais. Segundo dados do IBGE, Borá tem hoje 932 habitantes estimados em 2025 e 907 registrados no Censo Demográfico 2022.

Por que existem mais vagas de emprego do que habitantes?
A explicação está na economia rural. O território ocupa 118,95 km², com densidade demográfica de apenas 7,62 habitantes por km², e é dominado por lavouras de soja, milho, trigo, feijão, cana-de-açúcar e café, além da pecuária. Uma usina sucroalcooleira instalada nas redondezas completa o quadro.
De acordo com o IBGE, a cidade tem mais vagas de trabalho ativas do que habitantes registrados no cadastro municipal. A diferença é preenchida por trabalhadores que chegam diariamente de cidades vizinhas, principalmente Paraguaçu Paulista e Adamantina, para atuar nas lavouras e na indústria sucroalcooleira. O deslocamento em massa acontece antes do amanhecer e o município praticamente dobra de população durante o expediente.
Onde Borá se encaixa no cenário nacional?
Três cidades brasileiras têm hoje menos de mil habitantes. Serra da Saudade, em Minas Gerais, ocupa o primeiro lugar com 854 pessoas. Anhanguera, em Goiás, aparece em segundo com 928. Borá fecha o trio. Para efeito de comparação, a capital São Paulo concentra cerca de 7.500 habitantes por km². Em Borá, há mais espaço por morador do que em muitas fazendas da região.
Mesmo perdendo a primeira colocação, o município segue como o único de São Paulo abaixo dessa marca em uma lista de 645 cidades paulistas. A comparação com o cotidiano das capitais ganhou nova dimensão nos últimos anos, como já observado em levantamentos que descrevem a cidade cabendo inteira em um vagão de metrô lotado.
Como é o dia a dia de uma cidade tão pequena?
Todos se conhecem pelo nome. As eleições municipais reúnem alguns candidatos por cargo e cada voto pesa proporcionalmente mais do que em qualquer outra cidade do país. A escolarização de crianças de 6 a 14 anos chega a 100%, taxa máxima possível, segundo o IBGE. O município mantém uma escola pública que atende até o ensino fundamental, e os alunos do ensino médio são transportados diariamente para cidades vizinhas.
Os serviços seguem a lógica do lugar. Uma única unidade básica de saúde atende à população, e uma agência dos Correios dá conta de todas as correspondências. O comércio se concentra em alguns estabelecimentos ao redor da praça central, e o silêncio das ruas noturnas contrasta com a agitação madrugueira dos ônibus que transportam trabalhadores rurais.
Quem tem curiosidade sobre a vida em cidades minúsculas, vai curtir esse vídeo do canal Boa Sorte Viajante – Matheus Boa Sorte, com mais de 384 mil visualizações, que revela como é morar em Borá:
O que sobra depois do trabalho no campo?
A vida de Borá gira em torno de um único centro. A Praça da Matriz, com a igreja dedicada ao padroeiro, é ponto de encontro dos moradores no fim da tarde. As tradições interioranas se mantêm nas festas religiosas, nas rodas de conversa em frente às casas e no ritmo desacelerado que define o município. A cidade não vive de turismo, mas atrai visitantes curiosos de todo o país, atraídos pela raridade estatística.
O acesso é feito pela SP-284, a cerca de 500 km da capital paulista e a poucos quilômetros de Paraguaçu Paulista, a cidade-mãe. Não existe transporte público regular entre municípios vizinhos, então a maior parte dos deslocamentos acontece de carro particular ou nos veículos que transportam trabalhadores rurais.
A cidade que virou símbolo estatístico do interior
Borá é o retrato de uma faixa do Brasil que resiste ao adensamento urbano por vocação e escolha. O município que perdeu o título de menor do país continua carregando o apelido como identidade, e a rotina que parece minúscula em números atende a uma lógica econômica que envolve muito mais gente do que os habitantes registrados.
Na escala das grandes capitais, 932 pessoas passam despercebidas em uma manhã de segunda-feira; na escala do oeste paulista, essa mesma quantidade forma uma cidade inteira que continua funcionando, votando, plantando e recebendo trabalhadores todos os dias.
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