72 mil toneladas de diamantes nas paredes: a cidade construída dentro de uma cratera de 25 km aberta por um asteroide há 15 milhões de anos
A cratera de 25 km criada por um asteroide há 15 milhões de anos abriga uma cidade cercada por diamantes
Quem caminha pelas ruas de Nördlingen, na Baviera, vê uma cidade medieval como tantas outras na Alemanha. Muralhas intactas, casas de pedra, uma igreja gótica no centro.
O que ninguém percebe a olho nu é que as paredes brilham com milhões de microdiamantes e que toda a cidade foi erguida dentro de uma cratera de 25 km de diâmetro aberta por um asteroide há quase 15 milhões de anos.
O asteroide de 3 bilhões de toneladas que ninguém conhecia
Há cerca de 14,8 milhões de anos, um asteroide rochoso com aproximadamente 1,5 km de diâmetro atingiu o que hoje é o sul da Alemanha a uma velocidade estimada de 70 mil km/h. A explosão liberou energia equivalente a 1,8 milhão de bombas de Hiroshima e extinguiu toda forma de vida num raio de 100 km. O impacto escavou uma cratera de 500 metros de profundidade e 25 km de largura, hoje conhecida como Nördlinger Ries.
Durante séculos, os moradores acreditaram que a depressão era uma antiga cratera vulcânica. A verdade só apareceu em 1960, quando os geólogos americanos Eugene Shoemaker e Edward Chao visitaram a cidade e encontraram coesita, um mineral que só se forma sob a pressão extrema de impactos de meteoritos. A descoberta reescreveu a história geológica da região.

Como diamantes foram parar dentro das igrejas?
Quando o asteroide atingiu a superfície, a pressão de 60 gigapascais transformou depósitos subterrâneos de grafita em diamantes microscópicos. Ao mesmo tempo, rochas derretidas, vidro e fragmentos minerais se fundiram num tipo de rocha chamado suevito, palavra derivada do latim para “Suábia”, a região onde foi descrito pela primeira vez. Esse suevito ficou espalhado pela cratera inteira.
Na Idade Média, os construtores de Nördlingen usaram o suevito como material de construção, sem fazer ideia do que havia dentro dele. A Igreja de São Jorge, cuja torre de 90 metros chamada Daniel domina o centro da cidade, contém cerca de 5 mil quilates de diamantes embutidos nas pedras. Cada cristal tem no máximo 0,3 mm e nenhum valor comercial, mas o total estimado em toda a região chega a 72 mil toneladas, segundo a geóloga Gisela Pösges, vice-diretora do RiesKraterMuseum.
A cratera onde astronautas treinaram para pisar na Lua
A semelhança entre a cratera de Nördlingen e crateras lunares chamou a atenção da NASA. Em agosto de 1970, os astronautas Alan Shepard e Edgar Mitchell, da missão Apollo 14, treinaram na região para aprender a identificar rochas de impacto antes de ir à Lua. Eugene Cernan e Joe Engle, reservas da mesma missão, também participaram. O objetivo era reconhecer no solo lunar formações geológicas parecidas com as que existiam na cratera bávara.
Em agradecimento, a tripulação da Apollo 16 presenteou o museu local com uma amostra de rocha lunar. Até hoje, o fragmento está em exposição permanente no Museu da Cratera Ries, em Nördlingen, um dos poucos lugares fora dos Estados Unidos onde é possível ver uma pedra da Lua de perto.
A muralha que sobreviveu a três guerras
Nördlingen é uma das poucas cidades alemãs que mantêm a muralha medieval totalmente intacta. Construída no século XIV com pedras de suevito, ela circunda o centro histórico por completo. É possível percorrê-la a pé em pouco mais de uma hora, passando por torres de guarda que oferecem vista da cidade circular, consequência direta do formato da cratera.
A cidade resistiu a duas batalhas durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e atravessou a Guerra de Sucessão Espanhola no início do século XVIII. O isolamento econômico causado pelas guerras, ironicamente, preservou o centro histórico quase intocado. A mesma estagnação que impediu a modernização garantiu que as construções medievais, feitas de suevito recheado de diamantes, chegassem ao século XXI de pé.

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O que ver na cidade construída dentro de um meteoro?
Nördlingen tem cerca de 20 mil habitantes e cabe em uma caminhada de um dia. Quase tudo que vale a visita está conectado à cratera. Estes são os pontos que merecem atenção:
- RiesKraterMuseum: instalado num celeiro de 1503, exibe meteoritos, fósseis e uma amostra real de rocha lunar trazida pela Apollo 16. Endereço: Eugene-Shoemaker-Platz 1.
- Torre Daniel: os 90 metros da torre da Igreja de São Jorge oferecem vista da forma circular da cidade. Um vigia ainda grita a cada meia hora entre 22h e meia-noite, tradição de séculos.
- Muralha medieval: 2.632 metros de passarela contínua com 5 portões e 14 torres. Uma das únicas totalmente intactas na Alemanha.
- Geopark Ries: rede de trilhas e pedreiras ao redor da cratera, com exposições de suevito ao ar livre.
- Cenário de Willy Wonka: a cena final do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971) mostra Nördlingen vista de cima. A forma circular chamou a atenção da produção.
Quem sonha em conhecer a Alemanha, vai curtir esse vídeo especialmente selecionado do canal O Alemão, que conta com mais de 10 mil inscritos, onde Tiago mostra as belezas de Nördlingen, uma cidade medieval construída dentro de uma cratera de meteorito:
A cidade que brilha sem saber por quê
Nördlingen passou 15 milhões de anos sem saber que existia por causa de um asteroide. Mais cinco séculos sem saber que suas paredes continham diamantes. E ainda hoje, a maioria dos turistas fotografa a muralha e a torre Daniel sem desconfiar do que está embutido na pedra.
Se você gosta de histórias que misturam geologia, espaço e acaso, Nördlingen é o tipo de lugar que recompensa quem olha com atenção para as paredes em vez de só para as vitrines.
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