Auditoria mensal: talvez o síndico não precise de mais confiança
Talvez o síndico precise de acompanhamento profissional
Existe uma cena bastante comum na sindicatura. O síndico passa o mês inteiro resolvendo problema de elevador, funcionário, vazamento, fornecedor, inadimplência, obra, cachorro, barulho, portaria e aquela mensagem de WhatsApp enviada às 23h47 como se fosse perfeitamente normal.
No meio disso tudo, também precisa administrar dinheiro que não é dele.
Às vezes são R$ 200 mil por mês. Em condomínios maiores, milhões de reais passam pela gestão ao longo do ano.
E nós realmente achamos razoável que uma única pessoa carregue essa responsabilidade nas costas e que a conferência mais profunda das contas aconteça meses depois?
Eu não acho.
Não porque desconfio do síndico. Justamente porque conheço a sindicatura.
Auditoria não deveria entrar quando o problema aparece
Existe uma visão antiga de que auditoria serve para descobrir fraude, pegar alguém fazendo coisa errada ou investigar uma gestão problemática.
Isso reduz demais o papel dela.
Auditoria mensal deveria funcionar como acompanhamento da gestão. O pagamento aconteceu? Existe documento? O contrato está sendo cumprido? As retenções estão corretas? A despesa foi aprovada? Houve alguma movimentação fora do padrão?
Não é uma caça às bruxas.
É alguém olhando o painel enquanto o carro ainda está andando.
Porque descobrir um problema em agosto que começou em janeiro não é controle. É arqueologia.
E existe uma pessoa que quase ninguém lembra de proteger: o síndico
Quando alguma coisa dá errado dentro de um condomínio, existe uma facilidade impressionante para esquecer quantas pessoas participaram das decisões.
O conselho opinou. A administradora processou. O fornecedor executou. Alguém aprovou. Alguém enviou o documento.
Mas quando surge o problema, adivinhe qual nome está na ata.
O do síndico.
É por isso que eu gosto de pensar na auditoria mensal independente quase como um airbag reputacional da sindicatura.
Ela não elimina erro. Não transforma ninguém em santo. Não substitui conselho, administradora ou responsabilidade do gestor.
Mas cria uma camada independente de controle enquanto ainda existe tempo para corrigir.
E isso vale ouro para quem vive de reputação.
“Mas parece que estão desconfiando de mim”
Talvez essa seja justamente a cultura que precisamos quebrar.
O bom síndico não deveria ter medo de ser auditado. Deveria querer ser auditado.
Imagine poder chegar a uma assembleia depois de um ano administrando milhões e não precisar simplesmente dizer: “Confiem em mim.”
Você pode dizer: “Não precisam confiar apenas em mim. Confiram.”
Isso muda completamente a conversa.
Transparência deixa de ser discurso bonito em apresentação de assembleia e vira processo.
Tem outro efeito que pouca gente comenta.
Quando todo mundo sabe que existe auditoria mensal independente, o ambiente muda.
A administradora sabe que alguém vai conferir. O fornecedor sabe que documentação importa. O conselho entende melhor seu papel. O síndico fica mais criterioso. Pequenos erros aparecem antes de virarem grandes problemas.
Não porque todo mundo seja desonesto.
Porque todo mundo é humano.
E organizações maduras não criam controles porque acreditam que todas as pessoas são ruins. Criam controles porque sabem que pessoas boas também erram.
Talvez este seja o próximo passo da sindicatura profissional
Durante anos discutimos profissionalização falando sobre cursos, certificações, tecnologia, aplicativos, compliance e governança.
Tudo importante.
Mas existe uma pergunta desconfortavelmente simples: se um síndico administra milhões de reais por ano, por que ainda consideramos sofisticado conferir essas contas mensalmente?
Talvez sofisticado seja justamente o contrário.
Talvez auditoria mensal devesse ser tão normal quanto seguro, manutenção preventiva ou prestação de contas.
Não para vigiar o síndico.
Para que ele não precise enfrentar sozinho, meses depois, aquilo que poderia ter sido identificado e corrigido hoje.
Quem administra patrimônio de terceiros já carrega responsabilidade suficiente.
Governança de verdade não coloca mais peso nas costas do síndico.
Divide esse peso com processos capazes de protegê-lo.
Por Rafael Bernardes, especialista em gestão condominial e fundador do Sindicolab
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