“A Copa do Mundo não está à venda”, diz UEFA ao anunciar boicote à FIFA
"Nenhuma seleção nacional da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto estas propostas se mantiverem em vigor"
A UEFA, entidade que reúne 55 federações nacionais da Europa, anunciou nesta quinta-feira, 30, um boicote às competições da FIFA, contra a proposta de “transferir participações na Copa do Mundo e noutras competições da FIFA para investidores privados”.
“A UEFA e as suas 55 federações-membro mantêm-se unidas. Rejeitamos, de forma unânime e inequívoca, a proposta da FIFA de transferir participações na Copa do Mundo e noutras competições da FIFA para investidores privados”, disse a UEFA em comunicado.
Esse é mais um capítulo dos desentendimentos entre as duas entidades, que se trombam publicamente desde que a FIFA resolveu organizado o Mundial de Clubes do ano passado, enxergado como uma tentativa de competir com a Champions League, maior produto da UEFA.
Durante a Copa do Mundo deste ano, a entidade europeia fez uma dura reprimenda pública à FIFA por conta da suspensão da punição a um jogador americano a partir da interferência de Donald Trump.
“A Copa do Mundo não está à venda”
No comunicado publicado nesta quinta, a UEFA diz que “a Copa do Mundo não pode ser tratada como um produto de investimento”.
“É um dos maiores legados desportivos do futebol. Foi construído ao longo de várias gerações por jogadores, seleções nacionais e torcedores de todos os continentes. Nenhuma parte dela deve, jamais, ser entregue a investidores privados. A Copa do Mundo não está à venda”, diz a entidade.
Segundo a UEFA, “é simultaneamente irresponsável e indefensável que uma proposta de tal importância para o futebol tenha sido concebida em segredo e levada à beira da aprovação sem qualquer consulta significativa com aqueles a quem foi confiada a gestão do esporte”.
“Isto não é apenas uma falha profunda de liderança, mas uma renúncia ao dever da FIFA enquanto guardiã do futebol mundial”, critica a entidade europeia, acrescentando:
“As federações nacionais de todo o mundo enfrentam agora um ultimato: aceitar a apropriação irreversível das maiores competições de futebol ou arcar com as consequências. Não se trata de uma ‘decisão democrática’, mas sim de uma governação baseada na intimidação — um acto de coacção indigno de uma instituição a quem foi confiada a gestão do futebol mundial.”
“Muito além”
A UEFA diz ainda que sua oposição “vai muito além do processo”.
“No momento em que os investidores externos adquirem participações nas competições da FIFA, o futebol muda para sempre. O retorno comercial torna-se uma obrigação permanente. As expectativas dos investidores transformam-se numa pressão diária. A partir desse momento, todas as decisões relativas ao calendário internacional, aos formatos das competições e ao futuro do futebol deixam de ser orientadas pelo que melhor serve o desporto, passando a ser orientadas pelo que melhor serve os accionistas”, criticam os europeus.
Para eles, “este modelo não tem lugar no futebol mundial”.
“O futuro do futebol não pode ser ditado pelas expectativas daqueles cujo principal dever é maximizar o retorno financeiro. Nem os interesses das federações nacionais, das ligas, dos clubes, dos jogadores e dos torcedores podem ficar subordinados aos retornos dos investidores. O futebol não pode hipotecar o seu futuro em troca de ganhos financeiros”, diz a entidade na nota, que termina com um anúncio do boicote como ultimato:
“A posição da Europa é clara. Nunca conferiremos legitimidade a este modelo. Ninguém tem autoridade moral para vender aquilo que apenas detém como herança para a próxima geração.
Na sequência do debate de hoje, nenhuma seleção nacional da UEFA participará em qualquer competição da FIFA enquanto estas propostas se mantiverem em vigor, a menos que esta proposta tenha sido totalmente abandonada e tenham sido dadas garantias vinculativas de que a FIFA nunca mais abrirá a sua governação ou as suas competições à propriedade privada.
Que fique bem claro para todos: a UEFA e as suas federações nacionais irão opor-se a estes planos com determinação absoluta.
Há momentos em que as instituições são julgadas não pelo que estão dispostas a aceitar, mas pelo que se recusam a comprometer. Este é um desses momentos.
Há coisas que são simplesmente demasiado importantes para serem vendidas. A Copa do Mundo pertence ao futebol. E assim será sempre. E enquanto a Europa tiver uma palavra a dizer, nunca estará à venda.“
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