Uma ilha de quase 49 mil metros quadrados sumiu sob o oceano e uma escultura agora marca o ponto onde havia terra
Desaparecida completamente até 2014, a ilha nas Ilhas Salomão ganhou uma escultura que acompanha as marés e preserva a memória do território perdido
A ilha de Kale, nas Ilhas Salomão, desapareceu após perder 48.890 metros quadrados de superfície entre 1947 e 2014. Doze anos depois, uma escultura instalada no local passou a marcar a paisagem desaparecida. A obra, inaugurada em 2026, acompanha o movimento das marés e representa os impactos da erosão costeira e da elevação do nível do mar.
Como a ilha de Kale desapareceu completamente sob as águas do Oceano Pacífico?
Localizada na província de Isabel, nas Ilhas Salomão, Kale era uma pequena ilha recifal coberta por vegetação, manguezais e praias arenosas. O território fazia parte da história de famílias locais, incluindo os antepassados da ativista climática Gladys Habu Bartlett, que mantinham moradias e áreas de cultivo naquele ambiente.
A transformação ocorreu gradualmente. Em 2009, Gladys encontrou uma ilha consideravelmente menor do que aquela preservada nas memórias familiares. Quando retornou em dezembro de 2014, a superfície havia desaparecido, restando troncos de árvores sobre a plataforma recifal. O local anteriormente ocupado por terra firme já podia ser atravessado de barco.
Por que uma escultura foi instalada exatamente onde a ilha de Kale existia?
O artista britânico Jason deCaires Taylor criou a instalação The Solomon Siren, inaugurada em 2026. A obra representa Gladys Habu Bartlett em tamanho natural, apoiando a cabeça contra uma árvore de aço inoxidável. Sua imagem simboliza as comunidades que perderam territórios e referências culturais devido às transformações costeiras.
Instalada na zona entre-marés, a escultura muda de aparência conforme o oceano sobe e desce. O projeto reúne cinco elementos simbólicos:
- A figura humana representa a ativista Gladys Habu Bartlett;
- A árvore metálica recorda a vegetação desaparecida;
- As marés modificam diariamente a parte visível da obra;
- Datas gravadas associam passado, presente e futuro;
- A base favorece a colonização por organismos marinhos.
O próprio artista disponibilizou um vídeo específico sobre The Solomon Siren, mostrando a instalação e sua relação com o desaparecimento de Kale.
Como a erosão e a elevação do nível do mar conseguem eliminar uma ilha inteira?
Ilhas recifais baixas são formadas principalmente pelo acúmulo de sedimentos, como areia e fragmentos de organismos marinhos. Ondas e correntes redistribuem continuamente esses materiais. Quando a retirada supera a reposição, praias recuam, a vegetação perde sustentação e o território pode diminuir progressivamente.
A elevação do nível do mar intensifica esse processo, mas não atua isoladamente. Nas Ilhas Salomão, a exposição às ondas constitui um fator decisivo. Regiões protegidas apresentam comportamentos diferentes das costas diretamente atingidas pela energia oceânica, demonstrando que a vulnerabilidade depende da combinação entre processos climáticos e características locais.
O que o estudo científico revelou sobre o desaparecimento da ilha de Kale?
Uma pesquisa liderada por Simon Albert, da Universidade de Queensland, analisou 33 ilhas das Ilhas Salomão utilizando fotografias aéreas, imagens de satélite e relatos históricos. O estudo publicado na revista Environmental Research Letters, em maio de 2016, documentou cinco ilhas que desapareceram completamente e outras seis com erosão severa.
Os pesquisadores compararam registros entre 1947 e 2014 e verificaram perdas significativamente maiores nas ilhas expostas a ondas intensas. O levantamento também identificou deslocamentos da posição dos sedimentos antes do desaparecimento. Portanto, os resultados apontam para uma interação entre elevação do nível do mar e ação das ondas, sem atribuir cada mudança exclusivamente ao aquecimento global.

Quantos metros quadrados a ilha de Kale perdeu até desaparecer completamente?
A redução foi expressiva. Em 1947, Kale possuía 48.890 metros quadrados de área vegetada. Em 2002, restavam apenas 12.572 metros quadrados. Nove anos depois, a superfície havia diminuído para 509 metros quadrados, até desaparecer completamente dos registros de 2014.
Esses números representam a evolução da área vegetada identificada nas imagens históricas, não a profundidade da água sobre a antiga ilha. A sequência documenta a transformação do território durante quase sete décadas.
| Ano | Área vegetada | Situação |
|---|---|---|
| 1947 | 48.890 m² | Área inicial |
| 1962 | 43.070 m² | Redução gradual |
| 2002 | 12.572 m² | Erosão avançada |
| 2011 | 509 m² | Área residual |
| 2014 | 0 m² | Perda completa |
O que o desaparecimento da ilha de Kale revela sobre o futuro das comunidades costeiras?
O caso mostra que a perda de pequenas ilhas pode representar muito mais do que uma alteração geográfica. Territórios desaparecidos carregam memórias familiares, práticas culturais e recursos naturais. Para comunidades insulares, a erosão pode exigir mudanças nas atividades econômicas, na ocupação costeira e nas estratégias de adaptação.
A escultura também foi projetada para receber algas, corais e outros organismos, além de oferecer apoio para aves marinhas. Entretanto, sua principal contribuição permanece simbólica: transformar uma mudança ambiental documentada cientificamente em uma referência física, lembrando que outras comunidades enfrentam riscos semelhantes.
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