Um sapo quase transparente esconde 89% das células vermelhas do sangue dentro do fígado enquanto dorme para ficar ainda mais invisível
O comportamento ajuda o animal a ficar ainda menos visível durante o descanso
Um pequeno sapo verde dorme na parte inferior de uma folha enquanto a luz atravessa partes de seu corpo. O sapo-de-vidro da espécie Hyalinobatrachium fleischmanni consegue retirar cerca de 89% das hemácias de sua circulação e concentrá-las no fígado durante o repouso. Pesquisadores demonstraram que essa mudança torna o animal de duas a três vezes mais transparente, ajudando a esconder sua silhueta entre as folhas das florestas tropicais.
Como o sapo-de-vidro consegue ficar quase transparente?
O animal reduz a presença de células vermelhas do sangue nos vasos que atravessam seus tecidos transparentes. As hemácias contêm hemoglobina, substância que absorve luz e torna o sangue mais visível.
Quando o sapo está ativo, essas células circulam normalmente e produzem um contraste maior com a vegetação. Durante o sono, grande parte delas deixa os vasos periféricos e se concentra no fígado.
A Universidade Duke explicou o mecanismo identificado pelos pesquisadores após a divulgação do estudo em dezembro de 2022.
O corpo do sapo não desaparece completamente. Seus ossos e órgãos continuam presentes, mas a redução da absorção de luz pelo sangue diminui a visibilidade dos tecidos.

Por que as hemácias ficam armazenadas no fígado?
O fígado funciona como o local onde o sapo concentra temporariamente as células retiradas da circulação. Essa redistribuição permite diminuir a quantidade de pigmento vermelho espalhada pelo corpo enquanto o animal permanece imóvel.
Quando o sapo desperta e volta a se movimentar, as hemácias retornam aos vasos sanguíneos. O corpo fica menos transparente e recupera a distribuição de células necessária às atividades físicas.
O processo acompanha o estado do animal. A transparência é maior durante o sono e diminui quando ele precisa se deslocar.
Os cientistas observaram etapas distintas desse comportamento:
Como os pesquisadores descobriram o que acontecia dentro do animal?
A equipe utilizou uma técnica de imagem chamada microscopia fotoacústica. O método permite localizar componentes do sangue por meio da resposta dos tecidos à luz.
O sistema emite pulsos de luz que são absorvidos pelas hemácias. Essa absorção produz sinais acústicos captados por sensores e convertidos em imagens.
O estudo publicado na revista Science combinou essas medições com fotografias calibradas da transparência dos animais em diferentes estados.
A técnica permitiu acompanhar a circulação sem precisar abrir o corpo dos sapos. Isso era especialmente importante porque o mecanismo só aparecia com clareza durante o repouso.
Por que essa transparência ajuda o sapo a escapar dos predadores?
A redução da silhueta facilita a camuflagem quando o sapo dorme sobre folhas. A espécie vive em regiões de floresta, onde os tons verdes e a luz que atravessa a vegetação ajudam a esconder pequenos animais.
Durante o dia, o sapo costuma repousar na parte inferior de folhas. A transparência permite que parte da coloração e da iluminação do ambiente apareça através de seu corpo.
Isso diminui o contraste que poderia chamar a atenção de predadores. A coloração verde do dorso também contribui para que o animal se misture à vegetação.
A camuflagem não torna o sapo impossível de encontrar. O estudo mostrou uma adaptação que reduz sua visibilidade, especialmente quando ele está imóvel.
Como o sangue pode ficar concentrado sem formar coágulos perigosos?
Os pesquisadores observaram que as hemácias se acumulam no fígado sem provocar uma coagulação maciça. Essa característica chamou atenção porque a concentração de células normalmente representa um desafio para a circulação sanguínea.
O mecanismo exato que impede a formação de coágulos ainda não foi esclarecido. A equipe investiga como as células permanecem armazenadas e conseguem voltar ao sangue.
A descoberta pode orientar pesquisas sobre coagulação e doenças circulatórias. Entretanto, o comportamento do sapo não constitui um tratamento desenvolvido para seres humanos.
Antes de qualquer aplicação médica, será necessário identificar os mecanismos envolvidos e avaliar se algum deles pode ser estudado com segurança em outros organismos.
Todos os sapos-de-vidro conseguem esconder o sangue dessa maneira?
O resultado de 89% foi medido na espécie Hyalinobatrachium fleischmanni. Ele não deve ser automaticamente aplicado a todos os animais conhecidos como sapos-de-vidro.
O grupo inclui espécies que possuem diferentes graus de transparência e características próprias de seus ambientes.
A investigação de Duke demonstrou como uma espécie consegue combinar tecidos transparentes com um controle ativo da circulação sanguínea.
Novos estudos poderão indicar se o mesmo mecanismo ocorre em outras espécies e como ele evoluiu nas florestas da América Central e do norte da América do Sul.
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