Um navio romano afundado há 2.200 anos ainda guardava piche, cera de abelha e pólen que entregaram onde seu casco provavelmente foi reparado
Resíduos preservados no casco revelaram diferentes revestimentos e pistas sobre sucessivas manutenções realizadas durante viagens pelo Adriático
No fundo do Adriático, perto da ilha croata de Ilovik, um naufrágio da República Romana preservou algo muito mais delicado que madeira e ânforas. O navio romano Ilovik-Paržine 1 ainda conservava revestimentos orgânicos usados para proteger o casco, e dez amostras revelaram piche de coníferas, cera de abelha e grãos de pólen capazes de registrar diferentes momentos de manutenção durante sua vida útil.
Como o navio romano foi preservado por mais de dois milênios?
Ilovik-Paržine 1 naufragou aproximadamente em meados do século II a.C., na baía de Paržine, junto à ilha de Ilovik, na atual Croácia. A embarcação transportava madeira e ânforas e permaneceu submersa em condições que ajudaram a conservar partes de sua estrutura e dos materiais aplicados ao casco.
A madeira encharcada pode sobreviver por longos períodos quando fica em ambiente pobre em oxigênio, porque a atividade de organismos decompositores diminui. Nesse caso, também sobreviveram finas camadas de revestimento, permitindo investigar não apenas como o navio foi construído, mas como foi mantido durante suas viagens.
Como piche e cera protegiam o casco contra o mar?
Os pesquisadores analisaram dez amostras usando técnicas moleculares capazes de identificar compostos orgânicos degradados. Todas continham substâncias originadas de coníferas submetidas a aquecimento intenso, compatíveis com resinas aquecidas ou alcatrão vegetal usado como piche impermeabilizante.
Uma amostra, denominada PA101, apresentou ainda ésteres característicos de cera de abelha. Misturar cera ao piche aumenta a flexibilidade, melhora a repelência à água e reduz a viscosidade quando aquecido, facilitando a aplicação sobre a madeira.
- Dez amostras de revestimento foram analisadas;
- Todas continham produtos derivados de coníferas aquecidas;
- Uma amostra apresentou piche misturado com cera de abelha;
- Diferentes composições indicam mais de uma fase de aplicação.
Este vídeo da PBS acompanha arqueólogos investigando um navio romano encontrado no litoral da Croácia:
Como o pólen revelou reparos feitos no navio romano?
O piche possui uma propriedade particularmente útil para os arqueólogos: quando está pegajoso, pode capturar grãos microscópicos de pólen presentes no ambiente. Depois que o material endurece, esses grãos podem permanecer presos por milhares de anos como uma pequena amostra da vegetação existente no lugar da aplicação.
As amostras de Ilovik-Paržine 1 continham combinações diferentes de pólen. Algumas refletiam ambientes mediterrâneos com pinheiros, azinheiras, oliveiras e aveleiras, enquanto outras incluíam vegetação associada a áreas costeiras, fluviais ou montanhosas. A distribuição sugere vários lotes de revestimento e sucessivas intervenções no casco.
É possível saber exatamente em quais portos o navio foi reparado?
Não. O pólen pode restringir ambientes e regiões plausíveis, mas raramente identifica sozinho um porto específico. Ele pode ter entrado no piche durante a produção do material, num estaleiro durante sua aplicação ou até em uma área frequentada pela embarcação, exigindo cautela ao transformar associação botânica em localização geográfica.
O estudo publicado na Frontiers in Materials aponta afinidades com diferentes ambientes do Adriático e do Mediterrâneo. Uma das hipóteses discutidas relaciona parte do revestimento à região de Brundisium, atual Brindisi, mas os autores tratam essas reconstruções como probabilísticas.

O que os números mostram sobre o navio romano?
A análise estatística das amostras indicou algo em torno de quatro ou cinco conjuntos diferentes de revestimento. A parte central e a popa apresentavam materiais semelhantes, enquanto três áreas próximas à proa mostravam assinaturas distintas, compatíveis com aplicações realizadas em momentos diferentes.
Esse padrão fornece uma evidência rara de manutenção naval antiga. Embora seja lógico imaginar que navios submetidos a longas viagens recebessem reparos periódicos, demonstrar arqueologicamente cada nova aplicação é difícil porque os materiais orgânicos normalmente desaparecem.
Por que esse naufrágio é importante para entender a navegação romana?
Revestimentos impermeabilizantes eram essenciais para reduzir a entrada de água e proteger cascos de madeira contra organismos marinhos. O estudo mostra que essas camadas também funcionam como arquivos químicos e ambientais, preservando informações que peças estruturais ou cargas transportadas dificilmente registrariam.
Ilovik-Paržine 1 oferece assim uma visão pouco comum da rotina de manutenção de uma embarcação antiga. Em vez de revelar somente onde o navio terminou sua viagem, o piche, a cera e o pólen permitem reconstruir parte do que aconteceu enquanto ele ainda navegava pelo Adriático.
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