Um mapa do fundo do Mediterrâneo mostrou que antigos portos eram muito maiores do que as muralhas e cais que ainda aparecem em terra
Levantamentos subaquáticos revelam áreas de ancoragem esquecidas e mostram que centros comerciais mediterrâneos ocupavam espaços maiores do que se imaginava
Uma pesquisa publicada em agosto de 2026 revelou que portos antigos do Mediterrâneo ocupavam áreas operacionais maiores do que indicam seus cais e muralhas preservados. Levantamentos de arqueologia subaquática identificaram zonas de ancoragem e estruturas escondidas por sedimentos ou submersas, ampliando a compreensão sobre o comércio marítimo da Antiguidade.
Por que os portos antigos do Mediterrâneo eram maiores do que pareciam?
Durante séculos, arqueólogos reconstruíram portos mediterrâneos principalmente a partir de estruturas visíveis, como quebra-mares, muralhas, docas e cais. Esses elementos indicam onde embarcações atracavam, mas não representam necessariamente toda a área utilizada para receber navios, movimentar mercadorias e organizar atividades comerciais.
Muitos barcos permaneciam ancorados fora das estruturas construídas, utilizando águas protegidas naturalmente. Outros ocupavam enseadas próximas, onde passageiros e mercadorias podiam ser transportados em embarcações menores. Essas áreas frequentemente desapareceram das reconstruções tradicionais porque não deixaram construções monumentais facilmente identificáveis.
O que os novos mapas revelaram sobre os portos antigos?
Pesquisadores encontraram evidências de que a capacidade portuária de Cesareia, em Israel, ultrapassava consideravelmente sua bacia construída na época de Herodes. Em Port-Vendres, na França, a distribuição de naufrágios indicou uma zona de ancoragem movimentada fora dos limites tradicionalmente atribuídos ao porto.
Em Terracina, na Itália, os levantamentos mostraram que o acúmulo progressivo de sedimentos transformou áreas utilizadas para ancoragem. Essas descobertas demonstram que os portos não eram espaços fixos: suas dimensões operacionais variavam conforme profundidade, condições costeiras, circulação marítima e necessidades comerciais.
- Cesareia possuía áreas de ancoragem além da bacia construída;
- Port-Vendres apresentou evidências de atividade marítima externa;
- Terracina sofreu modificações provocadas pelo acúmulo de sedimentos;
- Levantamentos geofísicos identificaram estruturas e anomalias submersas;
- A capacidade portuária dependia também das águas utilizadas para ancoragem.
O vídeo disponibilizado pelo projeto Roman Ports apresenta uma reconstrução da possível perda de uma embarcação romana em Port-Vendres, um dos locais investigados pela pesquisa.
Como mudanças no nível do mar esconderam partes dos portos antigos?
O litoral mediterrâneo passou por transformações provocadas por sedimentação, erosão, movimentos tectônicos e variações relativas do nível do mar. Uma estrutura construída junto à água pode atualmente estar submersa, enterrada ou distante da costa. Por isso, a posição moderna das ruínas nem sempre corresponde à configuração existente na Antiguidade.
Além disso, a profundidade determina quais embarcações conseguem utilizar uma área portuária. Navios comerciais maiores precisam de águas suficientemente profundas para navegar e ancorar. Reconstruir antigas profundidades permite estimar a capacidade operacional desses centros, considerando características das embarcações utilizadas em diferentes períodos históricos.
Como os pesquisadores investigaram a extensão dessas instalações marítimas?
O estudo foi conduzido por Emmanuel Nantet, da Universidade de Haifa, Matthieu Giaime, da Universidade Paul-Valéry Montpellier, e Michael Lazar, também da Universidade de Haifa. Publicado em 28 de agosto de 2026 na revista Antiquity, o estudo científico original apresentou resultados do projeto internacional SHIPs, desenvolvido entre 2023 e 2028.
A equipe combinou levantamentos terrestres e subaquáticos, utilizando sonar de varredura lateral, equipamentos capazes de investigar sedimentos e magnetômetros. Também examinou fotografias antigas, mapas históricos e documentos cadastrais. A integração dessas informações permitiu localizar vestígios e reconstruir áreas utilizadas por embarcações.

Quais diferenças apareceram entre os portos mediterrâneos investigados?
Em Cesareia, grande parte do sistema portuário permanece submersa, exigindo levantamentos específicos para reconhecer sua extensão. Em Port-Vendres, vestígios de embarcações ajudam a identificar zonas de ancoragem externas. Já Terracina apresenta sedimentos acumulados que modificaram a configuração original de suas águas navegáveis.
O projeto também investigou Tiberíades, no mar da Galileia, um ambiente lacustre utilizado para comparar diferentes condições de preservação. Escavações realizadas em 2025 identificaram estruturas portuárias bizantinas e evidências de utilização prolongada de construções de concreto antigo, ampliando a cronologia conhecida dessas instalações.
| Localidade | País | Principal resultado |
|---|---|---|
| Cesareia | Israel | Capacidade além da bacia construída |
| Port-Vendres | França | Ancoragens externas identificadas por naufrágios |
| Terracina | Itália | Transformações causadas por sedimentação |
| Tiberíades | Israel | Estruturas utilizadas até o período bizantino |
Por que os portos antigos podem mudar a história do comércio mediterrâneo?
As descobertas indicam que estimativas tradicionais podem subestimar a quantidade de embarcações atendidas por determinados centros comerciais. Áreas externas de ancoragem permitiam ampliar as operações sem construir necessariamente grandes estruturas. Isso modifica a interpretação sobre circulação de mercadorias, capacidade logística e importância econômica das cidades costeiras.
Os resultados também ajudam a proteger o patrimônio arqueológico submerso, frequentemente ameaçado por obras portuárias e alterações costeiras. Entretanto, identificar uma área de ancoragem não permite calcular automaticamente quantos navios a utilizaram. Novos levantamentos e escavações serão necessários para determinar a capacidade efetiva dessas instalações em diferentes épocas.
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