Um macaco pode imaginar? O caso que está mudando o que sabemos sobre a mente animal
Um experimento com o bonobo Kanzi, de 43 anos, questionou até que ponto grandes símios compartilham capacidades cognitivas
Um experimento com o bonobo Kanzi, de 43 anos, questionou até que ponto grandes símios compartilham capacidades cognitivas antes vistas como exclusivas dos humanos.
Pesquisadores observaram que ele participou de situações de faz de conta, como uma brincadeira de chá, lidando com “suco” e “uvas” imaginários de forma consistente.
O que o estudo com Kanzi revela sobre imaginação em primatas?
O estudo da Johns Hopkins University investigou se um bonobo enculturado seria capaz de acompanhar mentalmente um objeto que só existia no plano imaginário.
Para isso, criaram situações inspiradas em brincadeiras infantis, sem comida real, apenas gestos sugerindo “suco” e “uvas”. No primeiro teste, pesquisador e bonobo sentavam frente a frente com dois copos vazios e uma jarra vazia.
O pesquisador fingia servir “suco” e depois “esvaziar” um dos copos; ao ser perguntado “Onde está o suco?”, Kanzi apontava para o copo coerente com a história, mesmo quando as posições eram trocadas.

Como foi demonstrada a diferença entre faz de conta e realidade?
Para descartar a ideia de que o animal acreditava em um suco invisível, os cientistas compararam um copo com bebida real e outro associado ao suco imaginário. Quando questionado sobre qual preferia, Kanzi quase sempre escolheu o copo com suco real.
Isso indica que ele distingue contexto de faz de conta de situações concretas, mantendo ao mesmo tempo a coerência com o enredo inventado. Tal dissociação entre realidade e ficção é vista como pilar da imaginação e do jogo simbólico em crianças humanas.
A capacidade de faz de conta em símios é semelhante à humana?
Outro conjunto de testes usou “uvas” imaginárias. Um pesquisador simulava pegar uma uva de um recipiente vazio, colocá-la em um de dois potes e depois fingia esvaziar um deles; ao ser perguntado “Onde está a uva?”, Kanzi geralmente apontava para o pote correto.
Relatos de campo já registravam comportamentos similares em chimpanzés, como fêmeas jovens carregando gravetos como “filhotes”. O diferencial deste estudo foi medir sistematicamente essa competência em ambiente controlado, com tarefas repetidas e verbalmente estruturadas.
Quais são as implicações científicas e éticas dessa imaginação?
Se um bonobo consegue conceber e acompanhar objetos inexistentes, essa habilidade pode se relacionar a funções mais complexas, como imaginar futuros simples ou representar o que outro indivíduo sabe.
Isso sugere raízes evolutivas compartilhadas entre humanos, chimpanzés e bonobos. Do ponto de vista ético, uma vida mental mais rica reforça debates sobre cativeiro, pesquisa e conservação.
Centros especializados em bonobos, como o que abriga Kanzi, ganham relevância ao buscar bem-estar, estímulos cognitivos e respeito às necessidades sociais da espécie.

Como a imaginação em símios pode ser investigada no futuro?
Os autores pretendem testar outros bonobos, chimpanzés e até espécies distintas, para saber se Kanzi é um caso isolado ou parte de um padrão mais amplo. Para organizar essas pesquisas, equipes seguem etapas metodológicas que buscam rigor e comparabilidade entre estudos.
- Desenvolver tarefas de faz de conta compreensíveis sem linguagem complexa.
- Controlar rigorosamente a presença de comida ou brinquedos reais.
- Repetir experimentos com vários indivíduos e instituições.
- Comparar animais enculturados com aqueles pouco expostos a humanos.
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