Um jardim cheio de pequenos buracos virou pista e o animal acusado de destruir gramados pode estar ajudando o ecossistema australiano
Pesquisas mostram que as escavações desses marsupiais alteram o solo, dispersam fungos e revelam uma função ecológica escondida atrás da fama de praga
Pequenos buracos cônicos espalhados pelo gramado podem parecer apenas estrago de um animal noturno. Na Austrália, porém, eles frequentemente denunciam a passagem de bandicoots, marsupiais que procuram insetos, fungos e outros alimentos no solo. Uma pesquisa recente mostrou que esses animais foram tratados como pragas durante mais de 150 anos, enquanto estudos ecológicos revelam que suas escavações podem melhorar propriedades do solo e influenciar plantas, fungos e invertebrados.
Por que os bandicoots deixam tantos buracos nos jardins?
Bandicoots possuem focinho alongado e patas dianteiras adaptadas para escavar. Durante a noite, farejam o solo em busca de larvas de insetos, minhocas, fungos subterrâneos e material vegetal, deixando pequenas cavidades normalmente reconhecíveis pela forma cônica.
Em ambientes urbanos, esse comportamento pode ocorrer em gramados, canteiros e hortas. Para quem deseja uma superfície perfeitamente uniforme, os buracos parecem danos. Ecologicamente, porém, a mesma atividade corresponde à bioturbação: o animal desloca e mistura camadas do solo enquanto procura alimento.
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Como essas pequenas escavações podem modificar o solo?
Experimentos com quendas, Isoodon fusciventer, mostraram que as escavações alteram propriedades químicas e biológicas do solo. Os pesquisadores encontraram mudanças na disponibilidade de nutrientes e na atividade microbiana, além de efeitos que favoreceram o crescimento de mudas cultivadas experimentalmente.
Outros estudos com mamíferos escavadores australianos registraram redução da compactação, aumento da infiltração de água e movimentação considerável de terra. Um único indivíduo pode produzir centenas de pequenas escavações em períodos curtos, fazendo com que impactos discretos se acumulem na paisagem.
- Revolvimento das camadas superficiais;
- Entrada de água no solo;
- Mistura de matéria orgânica;
- Formação de pequenos locais para germinação;
- Busca e consumo de invertebrados.
Este vídeo mostra diretamente o bandicoot-marrom-do-sul e seu papel como escavador do ecossistema.
Por que os bandicoots foram tratados como pragas durante tanto tempo?
Uma análise histórica publicada em 2026 examinou mais de 3.000 reportagens de jornais de Nova Gales do Sul entre 1804 e 1954. Os pesquisadores encontraram um longo histórico de conflitos: animais eram acusados de arrancar milho, batatas e outras culturas, além de danificar jardins.
A perseguição chegou a envolver recompensas oficiais por animais mortos. Em 1906, apenas o conselho de proteção de Bathurst recebeu quase 19 mil escalpos de bandicoots. Essa pressão ocorreu simultaneamente à expansão agrícola, à perda de habitat e, posteriormente, aos impactos de predadores introduzidos como raposas e gatos.
O que a pesquisa recente mudou sobre essa antiga reputação?
O estudo publicado na Pacific Conservation Biology reconstruiu cerca de 150 anos de conflito entre pessoas e esses marsupiais. A conclusão não foi que todo problema atribuído aos animais era imaginário: eles realmente podem desenterrar plantações e modificar gramados. O ponto é que essa visão negativa passou a dominar sua relação com as pessoas.
Hoje, evidências ecológicas acrescentam outra dimensão. Animais escavadores são considerados engenheiros de ecossistema porque modificam fisicamente o ambiente e, dessa maneira, alteram recursos disponíveis para outros organismos. Portanto, o mesmo comportamento interpretado como “destruição” num jardim pode desempenhar funções importantes em áreas naturais.

O que acontece com sementes, fungos e pequenos animais depois das escavações?
Os buracos podem reter folhas, sementes e umidade, criando microambientes diferentes da superfície intacta. No sudoeste australiano, pesquisas com quendas também revelaram consumo de enorme diversidade de fungos, cujos esporos podem sobreviver à passagem pelo sistema digestivo e ser dispersos pelas fezes.
Isso não significa que cada buraco melhore automaticamente qualquer jardim. O efeito depende da espécie, do solo, da vegetação e da intensidade das escavações. Os benefícios documentados dizem respeito a processos ecológicos específicos, e não a uma garantia de que um gramado ornamental ficará visualmente melhor.
Por que proteger os bandicoots pode ajudar também os ambientes urbanos?
Jardins residenciais podem funcionar como pequenos refúgios, principalmente quando oferecem vegetação densa e conexão com áreas naturais. Estudos no sudoeste australiano encontraram quendas utilizando propriedades particulares, mostrando que cidades podem fazer parte da paisagem disponível para esses mamíferos.
A convivência não exige aceitar danos em qualquer parte do quintal. Barreiras físicas podem proteger hortas e áreas sensíveis, enquanto trechos de vegetação e cobertura vegetal oferecem abrigo. Reconhecer os pequenos buracos como sinal de atividade ecológica muda a discussão: o animal que perturba o gramado também pode estar trabalhando o solo.
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