Um dente de 25 mil anos guardou uma rotina química: vestígios apontam consumo repetido de noz-de-betel por caçador-coletor
Sulcos característicos e doença dentária progressiva situam esse hábito humano até 25 mil anos atrás, em Sulawesi.

O que você vai ver
- Onde e quando viveu o indivíduo cujos dentes foram analisados.
- O que é a noz-de-betel e por que ela é consumida até hoje.
- Que marcas nos dentes indicam esse consumo repetido.
- Por que pesquisadores também encontraram um segundo caso, mais recente.
- Por que esse achado é considerado a evidência mais antiga de uso habitual de droga.
Um dente de até 25 mil anos guardou uma rotina química registrada em sua própria estrutura, e vestígios encontrados nele apontam para o consumo repetido de noz-de-betel por um caçador-coletor que viveu no que hoje é a Indonésia.
Onde e quando viveu o indivíduo cujos dentes foram analisados?
O indivíduo cujos dentes foram analisados viveu entre 16 mil e 25 mil anos atrás numa caverna na ilha de Sulawesi, na atual Indonésia, restos que permaneceram preservados ao longo de todo esse período dentro do ambiente relativamente estável oferecido pela própria caverna.
Segundo o Smithsonian Magazine, o sexo desse indivíduo permanece desconhecido, mas a preservação de seus dentes ao longo de dezenas de milênios permitiu aos pesquisadores identificar marcas químicas e físicas associadas a um hábito de consumo específico, mantido de forma consistente ao longo de sua vida.

O que é a noz-de-betel e por que ela é consumida até hoje?
A noz-de-betel é a semente da palmeira-de-areca, item conhecido por suas propriedades que alteram a percepção e ainda consumido atualmente em diversas regiões da Ásia e do Pacífico, prática cultural de longa data associada a efeitos estimulantes e a certo grau de dormência na boca de quem a mastiga.
Esse consumo contemporâneo da noz-de-betel em várias culturas asiáticas contemporâneas reforça o interesse científico em rastrear há quanto tempo esse hábito específico acompanha populações humanas, questão que o novo achado ajuda a situar muito mais cedo do que registros anteriores permitiam supor.
Que marcas nos dentes indicam esse consumo repetido?
Os pesquisadores identificaram sulcos característicos formados nos dentes do indivíduo, marcas físicas compatíveis com o hábito repetido de sugar e mastigar a noz-de-betel ao longo de um período prolongado, além de sinais de doença dentária progressivamente mais grave associada a esse consumo contínuo.
Essa combinação entre desgaste físico específico e deterioração dentária progressiva funciona como assinatura relativamente confiável de um hábito mantido por muito tempo, distinguindo esse tipo de consumo repetido de um contato ocasional ou isolado com a planta, que dificilmente deixaria vestígios tão consistentes na estrutura dentária.
Por que pesquisadores também encontraram um segundo caso, mais recente?
Além do indivíduo mais antigo, pesquisadores encontraram, em outro sítio, dentes de um segundo indivíduo que viveu entre 6,3 mil e 7,6 mil anos atrás, apresentando evidências semelhantes de consumo habitual da noz-de-betel e sinais equivalentes de doença dentária associada a essa prática repetida.
Esse segundo registro, separado do primeiro por milênios de diferença, reforça que o hábito de consumir noz-de-betel não foi um evento isolado, mas uma prática que se manteve, de alguma forma, presente entre diferentes populações da região por um intervalo de tempo extremamente longo.

Por que esse achado é considerado a evidência mais antiga de uso habitual de droga?
Pesquisadores consideram esse achado a evidência mais antiga já documentada de uso habitual de uma substância com propriedades psicoativas, já que a combinação de sulcos característicos e doença dentária associada permite datar esse comportamento especificamente a um indivíduo que viveu há até 25 mil anos.
Esse recuo tão expressivo na linha do tempo de consumo humano de substâncias que alteram a percepção reposiciona a compreensão científica sobre há quanto tempo populações de caçadores-coletores já incorporavam esse tipo de hábito em sua rotina, muito antes do desenvolvimento da agricultura ou de sociedades mais complexas.
- Um indivíduo que viveu entre 16 mil e 25 mil anos atrás, numa caverna em Sulawesi, apresentava sinais de consumo habitual de noz-de-betel.
- A noz-de-betel, semente da palmeira-de-areca, ainda é consumida hoje em partes da Ásia e do Pacífico.
- Sulcos característicos e doença dentária progressiva funcionam como evidência desse hábito repetido.
- Um segundo indivíduo, de 6,3 mil a 7,6 mil anos atrás, apresentou marcas semelhantes em outro sítio arqueológico.
Vestígios de peregrinação e prática religiosa mantidos ao longo de quase nove séculos também aparecem no relato sobre Lalibela e suas onze igrejas esculpidas na rocha etíope.
Mais detalhes sobre essa descoberta estão disponíveis no site oficial do Smithsonian Magazine.
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