Um crânio de apenas 1,5 centímetro obrigou cientistas a rever a origem de lagartos e serpentes porque o animal não tinha estruturas consideradas básicas para o grupo
Tomografias microscópicas revelaram um réptil do Triássico com uma combinação anatômica inesperada na origem dos lepidossauros
Um fóssil minúsculo encontrado no sudoeste da Inglaterra alterou expectativas sobre os primeiros parentes de lagartos, serpentes e tuataras. Agriodontosaurus tinha um crânio de apenas cerca de 1,4 a 1,5 centímetro e viveu há mais de 241 milhões de anos. Tomografias de resolução microscópica revelaram uma combinação inesperada de características, mostrando que várias adaptações consideradas ancestrais dos lepidossauros provavelmente surgiram mais tarde e de maneira independente.
Por que Agriodontosaurus mudou a história dos lepidossauros?
Agriodontosaurus helsbypetrae veio da Formação Helsby Sandstone, perto de Sidmouth, em Devon. O depósito pertence ao Triássico Médio, entre aproximadamente 245 e 241 milhões de anos, tornando o animal atualmente o mais antigo membro confirmado de Lepidosauria, grupo que inclui lagartos, serpentes e rincocéfalos.
As análises também o colocaram entre os rincocéfalos, linhagem hoje representada apenas pelas tuataras da Nova Zelândia. Sua idade estabelece um novo limite mínimo para a origem do grupo e mostra que a separação das principais linhagens de lepidossauros já havia ocorrido relativamente cedo depois da extinção em massa do fim do Permiano.
Como um crânio tão pequeno pôde revelar tantos detalhes?
O esqueleto estava parcialmente preservado dentro da rocha, tornando impossível estudar diversos elementos apenas olhando sua superfície. Primeiro foram feitas tomografias convencionais; depois, os pesquisadores utilizaram fontes de raios X síncrotron capazes de gerar imagens muito mais detalhadas sem destruir o fóssil.
As reconstruções do crânio chegaram a uma resolução de aproximadamente 6 micrômetros por voxel. Isso permitiu visualizar dentes, ossos do palato e contatos entre estruturas cranianas praticamente invisíveis externamente. O comprimento reconstruído do crânio ficou em cerca de 14 milímetros.
- Crânio com aproximadamente 14 milímetros;
- Tomografias do crânio com resolução de 6 micrômetros;
- Fóssil com crânio e partes do esqueleto pós-craniano;
- Idade situada aproximadamente entre 245 e 241 milhões de anos.
Este vídeo do Museu de História Natural da Universidade de Michigan apresenta a tuatara, único representante vivo dos rincocéfalos:
O que Agriodontosaurus não tinha que surpreendeu os cientistas?
Os pesquisadores esperavam encontrar algumas características consideradas típicas da anatomia ancestral dos lepidossauros. Entre elas estavam dentes no teto da boca, mobilidade entre partes do crânio e uma abertura lateral resultante da ausência da barra temporal inferior.
Agriodontosaurus possuía apenas a última dessas condições de maneira clara. Não apresentava dentes no palato e seu crânio era essencialmente rígido, sem a cinese craniana característica de muitos lagartos e serpentes modernos. Isso indica que várias adaptações podem ter evoluído separadamente dentro das principais linhagens.
O que os dentes revelam sobre a alimentação desse pequeno réptil?
Apesar do tamanho reduzido, o animal tinha dentes anteriores proporcionalmente grandes, cônicos e pontiagudos. A mandíbula e os locais de fixação dos músculos indicam capacidade para produzir uma mordida relativamente forte, adequada para segurar presas resistentes.
Os autores interpretaram essa anatomia como adaptação para capturar grandes insetos e perfurar seus exoesqueletos. O Natural History Museum cita baratas, grilos e gafanhotos como exemplos plausíveis, embora a dieta não possa ser observada diretamente no fóssil.

O que os números mostram sobre Agriodontosaurus?
Além do crânio, o exemplar preserva vértebras cervicais e dorsais, partes das cinturas peitoral e pélvica, vértebras da região da cauda e segmentos dos membros. Esse conjunto foi importante porque os primeiros lepidossauros são geralmente conhecidos por fósseis muito fragmentários.
A nova espécie também antecede em vários milhões de anos outros fósseis seguros do grupo. O estudo considera que ela empurra a evidência direta da origem de Lepidosauria para o Anisiano superior, uma etapa do Triássico marcada pela rápida reorganização dos ecossistemas terrestres.
Por que esse fóssil muda a visão sobre a origem de lagartos e serpentes?
O animal não é ancestral direto conhecido de todos os lagartos e serpentes atuais. Sua importância está em ocupar uma posição muito antiga dentro da linhagem dos lepidossauros, permitindo inferir quais características provavelmente estavam presentes perto do início dessa história evolutiva.
O resultado mostra que a evolução não ocorreu simplesmente acumulando, uma após outra, as características observadas nos representantes modernos. Mobilidade craniana, dentição especializada e outras adaptações surgiram em diferentes momentos, transformando um fóssil de poucos centímetros em uma referência importante para reconstruir mais de 240 milhões de anos de evolução.
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