Um anfíbio blindado de 237 milhões de anos pode ter feito algo que nenhum outro parente conhecido conseguia fazer naquela época
Fósseis encontrados na China revelaram um anfíbio blindado que pode ter vivido exclusivamente no mar, desafiando conceitos sobre a evolução desses animais
Um Gerrothorax maritimus, anfíbio pré-histórico de aproximadamente 74 centímetros, pode ter sido o primeiro representante conhecido de sua linhagem a viver inteiramente no mar. Dois esqueletos encontrados na China, datados de 237 milhões de anos, revelaram um corpo achatado, protegido por placas ósseas e adaptado à respiração por brânquias. A descoberta desafia a ideia de que os anfíbios nunca conseguiram superar completamente as dificuldades impostas pela água salgada.
Como o Gerrothorax maritimus foi descoberto em rochas antigas da China?
Os fósseis foram encontrados na província de Guizhou, no sudoeste chinês, em depósitos formados durante o Triássico Superior. Naquela época, a região estava coberta por um ambiente marinho onde também viviam peixes e grandes répteis, incluindo ictiossauros.
Os pesquisadores identificaram dois esqueletos quase completos, com ossos ainda conectados. Essa preservação chamou atenção porque carcaças transportadas por longas distâncias frequentemente perdem partes menores antes do soterramento. A presença de dedos articulados sugeriu que os animais morreram próximos do local onde viviam.
Por que o Gerrothorax maritimus poderia sobreviver permanentemente no mar?
A maioria dos anfíbios possui pele permeável, importante para trocas de água e gases. Entretanto, essa característica dificulta a sobrevivência em ambientes marinhos, pois a diferença de concentração de sais favorece a perda de água corporal.
O animal chinês apresentava adaptações que poderiam superar essa limitação:
- Placas ósseas protegiam grande parte do corpo;
- A cobertura corporal poderia reduzir trocas de água pela pele;
- Brânquias permitiriam respirar no ambiente aquático;
- O sistema digestivo poderia absorver água ingerida;
- A eliminação de sais poderia depender de adaptações branquiais.

Como a armadura do Gerrothorax maritimus teria ajudado na adaptação marinha?
A proteção óssea provavelmente surgiu antes da ocupação do oceano, em ancestrais que habitavam ambientes de água doce. Originalmente, essa armadura poderia funcionar como defesa contra predadores, reduzindo a vulnerabilidade do corpo achatado.
Entretanto, a mesma característica teria adquirido outra vantagem evolutiva: limitar a exposição da pele à água salgada. Os pesquisadores propõem que isso favoreceu uma fisiologia mais dependente das brânquias e do sistema digestivo, permitindo explorar ambientes inacessíveis à maioria dos anfíbios conhecidos.
Qual estudo científico identificou o primeiro anfíbio potencialmente inteiramente marinho?
A pesquisa foi publicada em 26 de outubro de 2026 na revista Nature Ecology & Evolution. O estudo original sobre o Gerrothorax maritimus foi conduzido por Lipin Diao, Ryosuke Motani, Da-yong Jiang, Jiaxu Hao e Shengyu Wang, envolvendo instituições chinesas e a Universidade da Califórnia em Davis.
Além da anatomia, os cientistas analisaram proporções isotópicas de estrôncio nos fósseis. As assinaturas químicas apresentaram compatibilidade com a água oceânica do Triássico. Combinadas à localização dos esqueletos, essas informações fortaleceram a hipótese de permanência em ambientes integralmente marinhos.
Quais números tornam o Gerrothorax maritimus uma descoberta tão importante?
O maior exemplar preservado apresenta comprimento mínimo de 737 milímetros, aproximadamente 74 centímetros. Os fósseis foram encontrados em sedimentos depositados a pelo menos 30 quilômetros das possíveis ilhas mais próximas, distância relevante para avaliar a hipótese de transporte das carcaças.
Atualmente, existem mais de oito mil espécies de anfíbios, mas nenhuma é considerada inteiramente marinha. Menos de 2% apresentam algum grau de tolerância à salinidade. Os números destacam como o animal do Triássico ocupava um ambiente excepcional para sua linhagem evolutiva.
| Indicador paleontológico | Resultado documentado |
|---|---|
| Idade dos fósseis | Aproximadamente 237 milhões de anos |
| Esqueletos estudados | 2, quase completos |
| Comprimento mínimo preservado | 737 milímetros |
| Distância mínima de possíveis ilhas | 30 quilômetros |
| Espécies atuais de anfíbios totalmente marinhos | Nenhuma conhecida |
O que o Gerrothorax maritimus muda na história evolutiva dos anfíbios?
A descoberta amplia as possibilidades conhecidas de adaptação dos vertebrados ao oceano. Diferentemente de répteis marinhos, como os ictiossauros, esse animal pertencia aos temnospôndilos, uma linhagem antiga de tetrápodes tradicionalmente associada a ambientes aquáticos continentais.
Seu crânio largo e o corpo achatado também sugerem alimentação por sucção, provavelmente com o animal esperando presas no fundo marinho. Entretanto, a reprodução e o funcionamento fisiológico exato permanecem desconhecidos. Sem tecidos moles preservados, os cientistas ainda precisam investigar como esse anfíbio controlava o excesso de sal e se reproduzia sem retornar à água doce.
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