Mais de 2.600 sulcos cortam as rochas de Malta e um novo estudo questiona a idade dessas estranhas trilhas
Estudo com 2.628 traçados em Malta e Gozo favorece datas entre as épocas fenícia e bizantina, mas não resolve a origem de cada marca.
As rochas calcárias de Malta e Gozo conservam milhares de sulcos paralelos conhecidos como cart ruts. Um estudo publicado em 2026 catalogou 2.628 traçados e sustenta que muitos podem pertencer ao período entre a colonização fenícia e o fim da era bizantina. A proposta contraria datações pré-históricas, sem resolver a origem de todas as marcas.
O que são os sulcos encontrados no calcário de Malta?
São pares de depressões compridas que atravessam superfícies rochosas, às vezes se cruzando ou formando redes. Algumas lembram marcas deixadas por rodas que passaram repetidamente sobre o calcário, embora também se discuta se certos trechos foram preparados deliberadamente para facilitar o transporte.
Um dos conjuntos mais conhecidos fica em Misraħ Għar il-Kbir, apelidado de Clapham Junction pela concentração de trilhas. A semelhança com trilhos não significa que sejam ferrovias: trata-se de vestígios associados, em diferentes hipóteses, à circulação de veículos antigos.

Quais pistas ligam essas trilhas ao transporte da Antiguidade?
O arqueólogo Joel Grima, da Universidade de Malta, examinou a relação entre os sulcos e estruturas históricas. As conexões observadas favorecem interpretações ligadas ao deslocamento de pessoas e cargas.
- Pedreiras: alguns traçados entram em áreas de extração de pedra.
- Estradas romanas: há sulcos sob pavimentos ou associados a vias.
- Áreas agrícolas: rotas se aproximam de antigas instalações rurais.
- Sepulturas: túmulos púnicos e romanos aparecem perto de trajetos.
O que os números do novo levantamento realmente mostram?
O catálogo reúne evidências de diferentes épocas. Contar uma trilha não equivale a datá-la: as associações arqueológicas são mais seguras em determinados trechos do que em toda a rede.
Como os modelos digitais ajudaram a questionar a idade das marcas?
O levantamento utilizou modelos tridimensionais gerados por fotografias de 155 locais e registros digitalizados de outros 88 conjuntos. Essas ferramentas permitiram comparar percursos, cruzamentos e relações com construções, pedreiras e sepultamentos em escala regional.

Na pesquisa publicada no Journal of Archaeological Science: Reports, Grima reuniu essas observações com evidências estratigráficas. Em alguns casos, estradas e estruturas romanas oferecem referências cronológicas; em muitos outros, a associação continua indireta.
Por que a hipótese pré-histórica ainda não foi descartada?
O estudo considera mais forte a evidência para épocas clássicas, mas não demonstrou a idade de cada par de sulcos. O debate arqueológico divulgado em Malta ressalta que milhares permanecem sem datação individual.
- Bronze: atribuições antigas dependem de interpretações contestadas.
- Roma: alguns trechos têm vínculos cronológicos demonstráveis.
- Fenício-bizantino: o intervalo proposto reúne fases históricas distintas.
- Testes futuros: sedimentos associados podem oferecer novas referências temporais.
As trilhas revelam um passado mais longo e diversificado
A interpretação mais recente aproxima muitos sulcos das rotas usadas para agricultura, extração de pedra e circulação de mercadorias entre aproximadamente 750 a.C. e 870 d.C. Não significa que todas as marcas tenham surgido ao mesmo tempo, nem que uma única atividade as explique.
A pesquisa anterior sobre a variedade dos sulcos também mostra a complexidade de suas formas. O avanço está em comparar vestígios com dados sistemáticos, mantendo aberta a possibilidade de trajetos mais antigos onde ainda faltam provas decisivas.
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