Tomates selvagens guardaram sabores que o cultivo perdeu e um novo mapa genético aponta onde eles estão escondidos
Pesquisa identifica mecanismos genéticos que controlam doçura, amargor, cor e aroma, abrindo novas possibilidades para melhorar tomates comerciais
Pesquisadores descobriram que tomates selvagens preservam mecanismos genéticos ligados ao sabor, à doçura e à coloração que foram reduzidos durante a domesticação. Um estudo publicado em setembro de 2026 na revista Genome Biology identificou regiões regulatórias capazes de orientar o desenvolvimento de tomates cultivados mais saborosos e nutritivos.
Por que os tomates selvagens preservaram características perdidas pelo cultivo?
A domesticação do tomate moderno, Solanum lycopersicum, favoreceu frutos maiores, resistentes ao transporte, produtivos e com amadurecimento uniforme. Entretanto, sucessivas gerações de seleção reduziram parte da diversidade genética disponível, dificultando a recuperação de características relacionadas ao sabor e à composição nutricional.
Seus parentes selvagens seguiram caminhos evolutivos diferentes. Espécies como Solanum pennellii e Solanum neorickii produzem frutos que permanecem verdes quando maduros, enquanto outras apresentam combinações distintas de açúcares, pigmentos e compostos aromáticos. Essa diversidade representa uma reserva genética importante para o melhoramento agrícola.
O que o novo mapa genético revelou sobre os tomates selvagens?
Os cientistas compararam o tomate cultivado com três espécies selvagens e descobriram que alterações regulatórias próximas aos genes, conhecidas como efeitos cis, predominam nas diferenças de atividade genética. Essas alterações afetaram até 23,5% dos genes ativos analisados, enquanto os efeitos regulatórios distantes, chamados trans, atingiram no máximo 4,6%.
Outro resultado importante foi a especificidade dessas diferenças. Determinados mecanismos funcionavam somente em tecidos particulares ou durante fases específicas do amadurecimento. Isso indica que melhorar características alimentares exige compreender não apenas quais genes estão envolvidos, mas quando e onde eles atuam.
Entre os resultados identificados estão:
- Regulação genética associada à produção de pigmentos;
- Mecanismos que favorecem a retenção de sacarose;
- Alterações relacionadas à redução do amargor;
- Diferenças na produção de compostos aromáticos;
- Controles específicos de tecidos e estágios de amadurecimento.

Como os genes controlam a doçura e o amargor dos tomates?
O sabor depende de uma combinação de açúcares, ácidos orgânicos e substâncias voláteis responsáveis pelo aroma. Nos tomates selvagens estudados, pesquisadores identificaram uma regulação coordenada entre um gene associado à decomposição da sacarose e outro capaz de inibir esse processo, favorecendo sua conservação no fruto.
O amargor envolve compostos defensivos chamados glicoalcaloides. Durante o desenvolvimento inicial, essas substâncias ajudam a proteger os frutos contra organismos consumidores. Conforme o tomate cultivado amadurece, mecanismos regulatórios favorecem sua transformação em formas menos amargas, tornando o fruto mais adequado ao consumo.
Como os pesquisadores construíram o mapa genético do tomate?
O estudo publicado na revista Genome Biology, em 12 de setembro de 2026, foi conduzido por Jiantao Zhao, Philippe Nicolas e colaboradores do Boyce Thompson Institute. A pesquisa contou com a participação de Carmen Catala, Zhangjun Fei e James Giovannoni, especialistas em genética e amadurecimento de frutos.
A equipe cruzou tomates cultivados com três parentes selvagens, produzindo plantas híbridas. Em seguida, comparou a atividade das versões materna e paterna dos genes em três tecidos dos frutos, durante até quatro estágios de desenvolvimento. Essa estratégia permitiu separar alterações regulatórias locais daquelas produzidas por mecanismos genéticos mais amplos.
Quais características dos tomates selvagens podem melhorar as variedades comerciais?
O mapa identificou diferenças em processos responsáveis pela produção de carotenoides, flavonoides, açúcares, alcaloides e substâncias aromáticas. Nos frutos selvagens que permanecem verdes, alterações regulatórias desviam etapas da produção de pigmentos, reduzindo o acúmulo de licopeno responsável pela coloração vermelha.
Entretanto, cada característica precisa ser avaliada separadamente. Uma alteração que aumenta determinados açúcares pode também modificar outros aspectos do desenvolvimento. O objetivo dos pesquisadores é selecionar mecanismos vantajosos sem comprometer produtividade, tamanho, resistência ou conservação após a colheita.
| Característica | Controle identificado |
|---|---|
| Doçura | Regulação da decomposição de sacarose |
| Coloração | Controle da síntese de carotenoides |
| Amargor | Transformação de glicoalcaloides durante o amadurecimento |
| Aroma | Variações na produção de compostos voláteis |
Como o mapa genético do tomate poderá transformar o melhoramento agrícola?
O trabalho oferece alvos para programas de cruzamento seletivo e possíveis estratégias futuras de edição genética. Em vez de transferir grandes segmentos do genoma selvagem, pesquisadores poderão investigar alterações específicas capazes de melhorar determinadas propriedades nutricionais e sensoriais.
Ainda não foram produzidas variedades comerciais superiores a partir desses resultados. Será necessário testar os mecanismos identificados em diferentes ambientes e verificar seus efeitos sobre sabor, rendimento e conservação. A disponibilização pública dos dados, incluindo dois novos genomas selvagens, permitirá ampliar essas investigações.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)