Segundo um novo estudo, as Cataratas de Sangue da Antártida escondem descendentes de antigas criaturas marinhas
O ambiente extremo preserva pistas de formas de vida ligadas a um passado muito antigo
À primeira vista, a mancha vermelha que escorre pelo Glaciar Taylor, na Antártida, parece algo incompatível com uma paisagem dominada por gelo. A cor já tinha uma explicação química ligada a uma salmoura rica em ferro. Agora, um estudo publicado em 2026 acrescenta uma camada biológica ao fenômeno: perto da descarga vivem microrganismos com forte ligação a antigos ambientes marinhos.
Por que as Cataratas de Sangue ficam vermelhas?
A cor vem principalmente de compostos de ferro presentes em uma salmoura extremamente salgada. Esse líquido permanece sob o gelo e alcança a superfície de forma episódica na extremidade do Glaciar Taylor, nos Vales Secos de McMurdo.
Quando a salmoura entra em contato com as condições da superfície, o ferro participa de reações que formam materiais avermelhados sobre o gelo. É esse processo que produz o aspecto que deu origem ao nome Cataratas de Sangue.
O novo trabalho não muda essa explicação para a cor. Ele mostra que o mesmo sistema de salmoura também carrega pistas sobre uma história muito mais antiga entre o vale e o oceano.

O que o novo estudo encontrou perto do Glaciar Taylor?
Os pesquisadores encontraram uma comunidade ativa de microeucariotos com forte afinidade marinha. Microeucariotos são organismos microscópicos cujas células possuem núcleo, grupo que inclui diferentes tipos de algas e protistas.
O estudo publicado na Nature Geoscience em 3 de agosto de 2026 analisou 167 amostras de água, gelo, sedimentos e material transportado pelo vento, além de referências marinhas do Estreito de McMurdo.
A assinatura mais ligada ao oceano apareceu justamente no gelo avermelhado, na lama e nos sedimentos influenciados pela descarga das Cataratas de Sangue.
Como os cientistas ligaram esses organismos a um antigo oceano?
A pista veio da composição da comunidade e da comparação genética com organismos marinhos atuais. Diatomáceas, haptófitas, dinoflagelados e ciliados associados a ambientes oceânicos aparecem concentrados na região alimentada pela salmoura.
A Scripps Institution of Oceanography explica que o sinal marinho é mais forte perto das Cataratas de Sangue do que nos demais ambientes de água doce e terrestres analisados.
- Entrada do mar: água oceânica teria alcançado o Vale Taylor durante períodos climáticos mais quentes.
- Isolamento: mudanças no nível do mar e o avanço do gelo teriam separado essa água do oceano aberto.
- Adaptação: linhagens capazes de suportar frio e salinidade permaneceram no sistema.
- Descarga atual: parte dessa salmoura ainda alcança a superfície junto ao Glaciar Taylor.
Essas criaturas marinhas ficaram congeladas sem mudar?
Não. O estudo aponta uma comunidade relicta e adaptada, não uma cópia intacta de um oceano antigo. As linhagens atuais passaram por isolamento, seleção e mudanças ecológicas enquanto o ambiente se transformava.
O J. Craig Venter Institute, que participou da pesquisa, destaca que a comunidade é biologicamente ativa e de origem marinha, mas vive hoje em condições muito diferentes das encontradas no mar aberto.
Leia também: O fenômeno raro que faz o gelo da Antártida parecer sangrar um líquido vermelho-vivo
Por que essa descoberta muda a história das Cataratas de Sangue?
Porque o local passa a funcionar também como um registro biológico de antigas mudanças entre oceano, gelo e continente. Até agora, grande parte da atenção estava concentrada na origem da salmoura e na química que produz a cor vermelha.
A nova pesquisa mostra que a comunidade microscópica preserva outra parte dessa história. O estudo encontrou diferenças genéticas entre diatomáceas do Glaciar Taylor e populações do Estreito de McMurdo, sinal compatível com isolamento geográfico.
Isso transforma as Cataratas de Sangue em mais do que uma curiosidade visual. O sistema ajuda a reconstruir como ambientes marinhos antigos foram separados do oceano e como formas microscópicas de vida conseguiram persistir depois de uma mudança extrema na paisagem antártica.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)