Segundo um novo estudo, as Cataratas de Sangue da Antártida abrigam microrganismos ligados a antigas comunidades marinhas
A descoberta ajuda a reconstruir a história de formas de vida preservadas em um ambiente extremo
Uma água avermelhada escorre pela extremidade do Glaciar Taylor, deixando manchas que contrastam com o gelo da Antártida. Nas Cataratas de Sangue, pesquisadores identificaram microrganismos ativos com características genéticas associadas à vida marinha, segundo um estudo publicado em agosto de 2026. A descoberta fortalece a hipótese de que a água salgada ligada ao glaciar preserva sinais de uma antiga conexão com o oceano, mesmo após mudanças profundas na paisagem polar.
O que os cientistas encontraram nas Cataratas de Sangue?
Os pesquisadores identificaram uma comunidade de microrganismos eucariontes com forte afinidade marinha. Esses organismos possuem células com núcleo, uma característica que os diferencia das bactérias.
O estudo publicado na revista Nature Geoscience em 3 de agosto de 2026 analisou materiais coletados perto do Glaciar Taylor e em outros ambientes da região.
Entre os organismos identificados estavam grupos de diatomáceas, dinoflagelados, ciliados e haptófitas. Parte dessas linhagens possui parentes encontrados em ambientes oceânicos.
A maior concentração dos sinais marinhos apareceu em amostras de gelo avermelhado, lama e sedimentos próximos à saída da salmoura.
Esse padrão chamou a atenção porque os ambientes aquáticos próximos apresentavam comunidades diferentes, mais associadas à água doce e ao meio terrestre.

Como uma comunidade ligada ao oceano foi parar sob uma geleira?
A hipótese dos pesquisadores é que a água marinha tenha alcançado o Vale Taylor durante períodos mais quentes do passado. Posteriormente, mudanças no nível do mar e o avanço do gelo podem ter isolado parte dessa água salgada.
O ambiente formado sob o glaciar teria permanecido separado do oceano atual, submetido a condições de baixa temperatura, salinidade elevada e disponibilidade limitada de nutrientes.
A Universidade Yale, que participou da pesquisa, explica que os resultados são compatíveis com a persistência de comunidades relacionadas ao mar.
Entretanto, a equipe não determinou quando cada linhagem começou a se diferenciar de seus parentes oceânicos. Também não comprovou que todos os organismos atuais sejam descendentes diretos de uma única comunidade preservada desde milhões de anos atrás.
Os dados indicam uma história de isolamento e adaptação, que ainda precisa ser investigada em maior detalhe.
Como os pesquisadores identificaram essa ligação com a vida marinha?
A equipe comparou material genético de 167 amostras provenientes de ambientes diferentes. O conjunto incluiu áreas próximas às Cataratas de Sangue, lagos, sedimentos, partículas transportadas pelo vento e pontos marinhos de referência.
As análises permitiram identificar diferenças na composição das comunidades microscópicas.
O trabalho utilizou técnicas complementares:
Entre as variantes genéticas dos eucariontes, 9,34% eram compartilhadas com as amostras marinhas de referência na área do Glaciar Taylor. Nos ambientes aquáticos de comparação dos Vales Secos, essa proporção foi de 1,15%.
Esses percentuais medem variantes genéticas compartilhadas entre as amostras. Não representam a porcentagem de todos os organismos da região que necessariamente vieram do oceano.
Os microrganismos encontrados ainda estão vivos?
O estudo encontrou sinais de atividade biológica, indicando que parte da comunidade está funcionalmente ativa. Os pesquisadores identificaram RNA relacionado à fotossíntese, ao metabolismo e à resposta a condições ambientais difíceis.
A presença dessas atividades diferencia a descoberta de um registro composto apenas por fragmentos genéticos antigos.
Alguns grupos apresentaram mecanismos associados ao controle de salinidade e ao reparo de componentes celulares. Essas funções podem ajudar os organismos a enfrentar variações de temperatura e concentração de sais.
O J. Craig Venter Institute, participante da pesquisa, destaca que a comunidade atual provavelmente foi modificada por seleção natural e pelas condições extremas do ambiente.
Essa adaptação não significa que um mesmo microrganismo tenha sobrevivido individualmente durante milhões de anos. O estudo trata de linhagens e comunidades biológicas que podem ter persistido por sucessivas gerações.
Por que a água das Cataratas de Sangue fica vermelha?
A coloração avermelhada está ligada à presença de ferro na salmoura que emerge do glaciar. Quando o líquido rico em ferro alcança a superfície, reações químicas favorecem a formação dos materiais responsáveis pelas manchas.
O nome Cataratas de Sangue vem da aparência do escoamento sobre o gelo branco, e não da presença de sangue ou de organismos vermelhos em grande quantidade.
A salmoura também contém sais e outros compostos que modificam as condições químicas próximas à saída da água.
Esses ambientes isolados mostram como o gelo pode preservar condições diferentes da superfície ao redor. Outro exemplo é uma caverna do Novo México que mantém uma grande massa de gelo mesmo cercada por uma região quente e seca, embora seu processo de formação seja distinto.
O que a descoberta pode revelar sobre o passado da Antártida?
As linhagens encontradas podem ajudar a reconstruir antigas conexões entre o oceano, o gelo e os ambientes terrestres antárticos. A associação genética com organismos marinhos oferece evidências de que a região passou por transformações ambientais profundas.
Os pesquisadores também observaram que o transporte atual pelo vento, sozinho, dificilmente explicaria a distribuição concentrada dos organismos com afinidade marinha.
A próxima etapa é investigar com maior precisão quando ocorreu o isolamento das comunidades e como elas responderam às mudanças de temperatura, salinidade e cobertura de gelo.
Essas informações poderão ajudar a compreender a evolução dos ambientes polares e a capacidade de sobrevivência de microrganismos em regiões frias e isoladas. As Cataratas de Sangue continuam fornecendo água e sedimentos que registram essa história biológica, mesmo sem revelar ainda uma data definitiva para sua origem marinha.
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