Pequenas contas de barro guardaram impressões digitais por 15 mil anos: marcas mostram que adultos e crianças moldavam os enfeites juntos
Estudo de 142 adornos natufianos revela impressões digitais de diferentes gerações e mostra a produção de objetos simbólicos antes da agricultura
Há aproximadamente 15 mil anos, quando comunidades de caçadores-coletores começavam a estabelecer assentamentos mais duradouros no Levante, crianças e adultos já moldavam pequenos enfeites de argila com as próprias mãos. Um estudo publicado em março de 2026 identificou 142 contas e pingentes natufianos, além de 50 impressões digitais preservadas em objetos de barro. As marcas oferecem evidências raras da participação de diferentes gerações na produção de adornos muito antes da expansão da cerâmica e da agricultura.
Onde foram encontradas as contas de barro com 15 mil anos?
Os objetos foram identificados em cinco sítios arqueológicos natufianos localizados no atual território de Israel. Entre eles estão Eynan-Mallaha, Hayonim e assentamentos da região do Monte Carmelo. As peças pertencem a diferentes fases da cultura natufiana, desenvolvida aproximadamente entre 15 mil e 11.650 anos atrás.
Essas comunidades viviam da caça, pesca e coleta de plantas silvestres, mas já apresentavam formas relativamente duradouras de ocupação. A descoberta demonstra que a argila era utilizada para produzir objetos pessoais antes de se tornar amplamente empregada na fabricação de recipientes cerâmicos.
Leia também: Mais de 200 espécies de aves esfregam formigas nas penas e o comportamento continua intrigando biólogos
Como as impressões digitais revelaram a presença de crianças?
Quando alguém pressiona argila úmida, as pequenas elevações da pele deixam sulcos e relevos característicos. Essas marcas podem permanecer reconhecíveis quando o material endurece. Os pesquisadores analisaram sua largura e compararam as medidas com referências experimentais modernas.
A investigação identificou diferentes vestígios associados à fabricação:
- Impressões digitais de crianças e adultos;
- Marcas de pressão dos dedos sobre a argila;
- Vestígios de fibras vegetais utilizadas como cordões;
- Superfícies decoradas com pigmento vermelho;
- Pequenos adornos moldados manualmente.

O que as impressões digitais mostram sobre o trabalho coletivo?
Das 50 impressões analisadas, algumas foram atribuídas a crianças, adolescentes e adultos. Em seis adornos com marcas suficientemente informativas, cinco apresentaram impressões compatíveis com indivíduos jovens. Uma pequena conta de formato semelhante ao de uma borboleta conservou marcas de uma criança nas duas faces.
Os resultados demonstram que crianças efetivamente manipulavam a argila durante a fabricação. Entretanto, não permitem afirmar que todos os objetos fossem produzidos coletivamente ou que adultos ensinassem diretamente cada criança. A transmissão de conhecimentos entre gerações constitui uma interpretação plausível, apoiada pelo contexto arqueológico.
Como os arqueólogos identificaram a idade de quem deixou as marcas?
O estudo publicado na revista Science Advances, em 18 de março de 2026, foi liderado pelo arqueólogo Laurent Davin, da Universidade Hebraica de Jerusalém. A equipe combinou análises tecnológicas, microscópicas e dermatoglíficas para investigar a fabricação dos adornos.
Os pesquisadores mediram a largura média dos relevos das impressões digitais. Marcas mais estreitas geralmente estão associadas a indivíduos mais jovens, enquanto relevos mais largos podem indicar adultos. O método produz estimativas demográficas, não identificações individuais. Além disso, marcas de mulheres adultas e homens jovens podem apresentar dimensões semelhantes.
Quais formatos tinham os enfeites produzidos pelos natufianos?
A coleção reúne 19 tipos de adornos, incluindo formas cilíndricas, circulares, elípticas e pequenos pingentes. Alguns lembram sementes e partes de plantas conhecidas pelos natufianos, como cevada silvestre, trigo-einkorn, lentilhas e ervilhas.
Certas peças receberam uma fina camada de argila líquida misturada com ocre vermelho. Outras preservaram fibras vegetais, indicando que podiam ser usadas em cordões. Os detalhes revelam uma tradição ornamental diversificada, com técnicas simples, mas cuidadosamente executadas.
Por que essas descobertas mudam a compreensão da infância pré-histórica?
As impressões digitais mostram que crianças não eram apenas observadoras das atividades realizadas pelos adultos. Elas também participavam diretamente da produção de objetos com possíveis significados pessoais e sociais. O trabalho com argila poderia envolver experimentação, aprendizagem e convivência entre diferentes gerações.
A descoberta também amplia a compreensão das práticas simbólicas anteriores à agricultura. Os adornos sugerem que comunidades natufianas já investiam tempo na criação de objetos relacionados à aparência e possivelmente à identidade. Embora seus significados específicos permaneçam desconhecidos, as marcas preservadas revelam mãos de diferentes idades envolvidas nessa tradição.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)