O sinal misterioso do espaço profundo que volta a cada 16 dias e ainda intriga os astrônomos
Uma fonte distante apresenta uma janela recorrente de atividade que pode revelar a natureza das misteriosas rajadas rápidas de rádio
A centenas de milhões de anos-luz da Terra, uma fonte cósmica dispara pulsos de rádio com duração de milissegundos e depois desaparece novamente. O mais estranho é que a FRB 180916 apresenta uma janela de atividade que retorna aproximadamente a cada 16,35 dias, oferecendo aos astrônomos uma pista rara sobre a origem das enigmáticas rajadas rápidas de rádio.
Por que a FRB 180916 chamou tanta atenção dos astrônomos?
A fonte, também catalogada como FRB 20180916B, pertence ao grupo das Fast Radio Bursts, ou FRBs: explosões extremamente breves de ondas de rádio produzidas por fenômenos astrofísicos muito energéticos. Muitas apareceram apenas uma vez nos primeiros levantamentos, enquanto algumas fontes foram posteriormente observadas emitindo repetidamente.
O diferencial surgiu quando o radiotelescópio canadense CHIME analisou dezenas de pulsos registrados entre 2018 e 2020. Os pesquisadores encontraram uma periodicidade de 16,35 ± 0,15 dias na atividade. Isso não significa que uma transmissão chegue pontualmente a cada 16 dias, mas que existe uma fase recorrente na qual os pulsos têm maior probabilidade de aparecer.
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Como funciona o estranho ciclo da FRB 180916?
A primeira análise encontrou todas as rajadas estudadas dentro de uma janela de aproximadamente cinco dias em cada ciclo de 16,35 dias. Metade delas estava concentrada em um intervalo ainda menor, de cerca de 0,6 dia. Estudos posteriores continuaram tratando a fonte como um repetidor com janela ativa próxima de cinco dias.
Por isso, a conhecida descrição de “quatro dias transmitindo e 12 dias desligada” é apenas uma simplificação. O comportamento real é mais irregular:
- Ciclo de atividade próximo de 16,35 dias.
- Janela ativa com aproximadamente cinco dias.
- Rajadas concentradas em determinados momentos dessa janela.
- Períodos em que nenhuma rajada é detectada mesmo durante a fase ativa.
- Pulsos individuais com duração extremamente curta.
O SpaceToday, canal brasileiro especializado em astronomia, dedicou um vídeo especificamente à descoberta da periodicidade de 16 dias da fonte. A explicação ajuda a entender por que encontrar um padrão temporal em uma FRB repetidora foi tão importante para restringir as hipóteses sobre sua origem.
Observações realizadas com o uGMRT mostram bem como a fonte não funciona como um relógio transmitindo pulsos regularmente. Em três sessões próximas ao pico esperado de atividade, os pesquisadores detectaram zero, 12 e três rajadas, respectivamente. Existe periodicidade na atividade, mas não uma sequência matemática de pulsos individuais.
Onde está localizada a FRB 180916?
Os astrônomos conseguiram localizar a fonte em uma galáxia espiral situada a cerca de 150 megaparsecs da Terra, aproximadamente 490 milhões de anos-luz. Essa distância é relativamente pequena quando comparada à de várias outras FRBs extragalácticas estudadas.
Localizar precisamente uma FRB é crucial porque permite estudar o ambiente ao redor do objeto que está produzindo os pulsos. No caso de FRB 180916, isso eliminou a ideia de uma misteriosa emissão sem endereço cósmico e transformou o problema em uma investigação sobre qual objeto compacto dentro daquela galáxia poderia gerar fenômenos tão intensos.
Um magnetar poderia explicar esses sinais periódicos?
Hoje, magnetares estão entre os candidatos mais importantes para explicar pelo menos parte da população de FRBs. São estrelas de nêutrons com campos magnéticos extremamente intensos, capazes de sofrer erupções violentas. Modelos específicos propõem que um magnetar poderia produzir rajadas enquanto sua orientação ou ambiente controla quando a emissão fica visível para nós.
Outra família de modelos coloca uma estrela de nêutrons em um sistema binário. Nesse cenário, o período de aproximadamente 16 dias poderia estar relacionado à órbita e à interação com o vento ou plasma produzido pela companheira. Pesquisas continuam comparando essas possibilidades com novas observações.
A FRB 180916 poderia ser uma tentativa de comunicação extraterrestre?
A regularidade torna essa pergunta sedutora, mas não existe evidência de que FRB 180916 seja um sinal artificial. A periodicidade, por si só, não implica inteligência: órbitas, rotação e precessão produzem ciclos extremamente regulares em inúmeros sistemas astronômicos.
A interpretação científica concentra-se em objetos compactos e ambientes astrofísicos extremos. O estudo que revelou a periodicidade de 16,35 dias transformou o ciclo em uma pista física sobre o sistema, não em indício de uma mensagem codificada.

Por que esse sinal ainda representa um grande mistério para a ciência?
O padrão temporal revelou algo fundamental, mas ainda não identificou definitivamente o mecanismo responsável pelas rajadas. Um bom modelo precisa explicar simultaneamente a enorme luminosidade de rádio, a duração extremamente curta dos pulsos, a repetição irregular dentro da janela ativa e o ciclo de aproximadamente 16 dias.
É justamente isso que mantém FRB 180916 fascinante. O “relógio” existe, mas ele determina principalmente quando a fonte tende a ficar ativa, não quando cada pulso será emitido. A ciência já sabe onde procurar e quando observar; o que ainda falta é identificar com segurança qual máquina cósmica está produzindo os disparos.
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