O sapo-cururu com glândulas atrás dos olhos que libera uma toxina branca capaz de causar convulsões, arritmias e matar cães que tentam mordê-lo
A bufotenina participa da secreção, mas os compostos mais perigosos para o coração são bufadienolídeos com ação semelhante à da digital
Ele não possui presas, ferrão nem precisa perseguir o adversário. Quando é encurralado e pressionado pela boca de um predador, duas estruturas elevadas atrás dos olhos entram em ação. A secreção leitosa transforma um anfíbio lento e aparentemente indefeso em uma presa que pode provocar uma intoxicação grave em poucos minutos.
Por que o sapo-cururu possui duas glândulas grandes atrás dos olhos?
O nome sapo-cururu não identifica apenas uma espécie. No Brasil, ele é aplicado a diferentes animais do gênero Rhinella, como Rhinella diptycha, mais comum em partes do Nordeste, Rhinella icterica, encontrada principalmente no Sul e no Sudeste, e Rhinella marina, presente na Amazônia e introduzida em outros países. Todas compartilham uma defesa bastante visível: as glândulas parotoides localizadas atrás dos olhos.
Essas estruturas armazenam uma secreção espessa, branca ou amarelada, popularmente chamada de “leite de sapo”. O líquido não é lançado voluntariamente como um jato direcionado. Ele costuma sair quando as glândulas são comprimidas, exatamente o que acontece quando um cão, uma serpente ou outro predador tenta abocanhar o anfíbio.
O que existe no veneno do cururu além da bufotenina?
A bufotenina está presente na secreção de algumas espécies, mas não é a única substância envolvida nem a principal responsável pelos efeitos cardíacos graves. O líquido reúne diferentes compostos, entre eles bufadienolídeos, bufaginas e outras bufotoxinas que apresentam ação semelhante à de medicamentos derivados da digital, interferindo diretamente no funcionamento elétrico do coração.
- Bufotenina: Composto que atua principalmente sobre o sistema nervoso
- Bufadienolídeos: Esteroides com forte ação sobre o coração
- Bufaginas: Substâncias capazes de alterar o ritmo cardíaco
- Aminas biogênicas: Compostos associados a efeitos neurológicos
- Peptídeos: Moléculas que também participam da defesa química
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O vídeo “SAPO-CURURU — Ele tem leite venenoso? Faz xixi nos olhos?”, publicado pelo canal ANIMAL TV e apresentado pelo biólogo Guilherme Domenichelli, mostra onde ficam as glândulas parotoides e esclarece mitos comuns sobre o animal. O conteúdo ajuda a compreender por que o sapo não precisa atacar para provocar uma intoxicação e como a pressão exercida sobre seu corpo libera a secreção defensiva.
Como a toxina consegue alterar o coração de cães e outros predadores?
Os bufadienolídeos bloqueiam uma estrutura celular conhecida como bomba de sódio e potássio. Essa interferência altera a concentração de minerais dentro das células cardíacas e pode desorganizar os impulsos responsáveis por manter o coração batendo em ritmo regular. O resultado pode incluir batimentos acelerados, lentos ou completamente irregulares.
Em cães, a intoxicação normalmente ocorre quando o animal morde, lambe ou tenta engolir o sapo. A secreção entra em contato com a gengiva e outras mucosas, sendo absorvida com rapidez. Casos veterinários documentam salivação intensa, vômitos, alterações neurológicas e arritmias ventriculares, que podem evoluir para colapso circulatório e morte quando a exposição é grave e o atendimento demora.
Quais sinais revelam uma intoxicação pelo veneno do cururu?
Os primeiros sintomas podem aparecer logo depois do contato. O cão costuma balançar a cabeça, esfregar a boca com as patas e produzir uma quantidade incomum de saliva ou espuma. A mucosa pode ficar muito avermelhada, enquanto vômitos, fraqueza, dificuldade para caminhar e desorientação indicam que as toxinas já estão produzindo efeitos além da boca.
O risco depende da espécie do sapo, da quantidade de secreção, do tamanho do animal exposto e do tempo até o atendimento. Cães pequenos podem receber uma dose proporcionalmente maior ao morder um exemplar grande. Como não existe um antídoto veterinário específico de uso rotineiro, o tratamento é baseado na retirada do material da boca, no controle dos sintomas e na estabilização cardíaca e neurológica.
Por que tocar no sapo não costuma provocar envenenamento?
A pele humana intacta funciona como uma barreira eficiente contra a maior parte dessas substâncias. Apenas encostar no dorso do sapo não costuma causar intoxicação, especialmente quando as glândulas não são comprimidas. O risco aumenta quando a secreção alcança olhos, boca, nariz ou ferimentos abertos, locais em que pode provocar irritação e ser absorvida.
O Instituto Butantan explica que esses anfíbios são venenosos, mas não peçonhentos: eles não possuem uma estrutura para injetar a toxina. Por isso, não há motivo para matar um sapo encontrado no quintal. O animal pode ser afastado com segurança sem apertá-lo, enquanto cães devem permanecer longe até que ele deixe o local.

Como o veneno do cururu faz predadores desistirem do ataque?
A defesa funciona porque o predador normalmente recebe a secreção diretamente na boca ao tentar morder o sapo. O gosto desagradável, a irritação imediata e os efeitos posteriores podem fazer o atacante soltar o anfíbio. Animais que sobrevivem à experiência também podem associar sua aparência ao mal-estar e evitar novas tentativas, embora predadores sem experiência possam sofrer intoxicações graves.
Não há evidência sólida para afirmar que a secreção sempre provoque parada cardíaca em qualquer predador grande ou que mate especificamente jaguares. A toxicidade varia entre espécies, indivíduos e doses. O que está bem documentado é que os compostos cardiotóxicos podem causar arritmias fatais em cães e em diferentes animais que mordem ou ingerem sapos, transformando as glândulas atrás dos olhos em uma defesa muito mais eficiente do que a força física.
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