O cofre escavado a mais de 100 metros no Ártico que guarda 1,4 milhão de amostras para salvar plantações
Mantidas a −18 °C dentro de uma montanha norueguesa, as sementes funcionam como cópias de emergência de coleções agrícolas do mundo inteiro
Em uma encosta permanentemente gelada, uma entrada de concreto é praticamente tudo o que aparece do lado de fora. Atrás daquela porta existe uma reserva que só deveria ser aberta quando alguma parte da agricultura mundial perder algo impossível de substituir.
Onde fica o cofre de Svalbard escondido no Ártico?
O Svalbard Global Seed Vault foi construído na ilha de Spitsbergen, no arquipélago norueguês de Svalbard, aproximadamente a meio caminho entre a Noruega continental e o Polo Norte. A instalação fica perto de Longyearbyen, em uma encosta elevada a cerca de 130 metros acima do nível do mar, localização escolhida para reduzir riscos de inundação e manter as câmaras cercadas pelo frio do Ártico.
Inaugurado em 26 de fevereiro de 2008, o complexo foi escavado em rocha sólida. A área de armazenamento está a mais de 100 metros da entrada e protegida por uma camada rochosa com espessura entre 40 e 60 metros. O acesso visível conduz a um túnel comprido, enquanto as sementes permanecem guardadas em salas muito mais profundas dentro da montanha.
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O que existe nas caixas levadas para o interior da montanha?
O local guarda cópias de segurança de coleções mantidas por bancos genéticos de diferentes países. Em junho de 2026, o total chegou a 1.401.285 amostras, após o 70º depósito realizado desde a inauguração. Entre os materiais conservados estão variedades de trigo, arroz, cevada, milho, feijão, sorgo, grão-de-bico e outros cultivos importantes para a alimentação.
- Amostras armazenadas: 1.401.285
- Capacidade máxima: 4,5 milhões
- Salas subterrâneas: Três
- Temperatura interna: −18 °C
- Aberturas programadas: Normalmente três por ano
O documentário “GoPro Cause: Forever Securing World Food Supply with Crop Trust”, publicado pelo canal GoPro, acompanha o cientista Cary Fowler até o interior da instalação e mostra corredores, caixas lacradas e câmaras congeladas. O vídeo complementa a pauta ao revelar como materiais enviados por bancos genéticos do mundo inteiro são recebidos, identificados e colocados nas prateleiras subterrâneas.
As caixas não contêm sementes destinadas à distribuição cotidiana. Elas chegam fechadas sob o princípio de “caixa-preta”: continuam pertencendo à instituição depositante, não são abertas pelos administradores e somente o proprietário pode solicitar sua retirada. Dessa maneira, o cofre funciona como uma cópia de emergência, e não como um banco que fornece sementes diretamente aos agricultores.
Como o cofre de Svalbard mantém as sementes vivas por tanto tempo?
As sementes são secas e seladas em embalagens herméticas de alumínio antes de serem colocadas nas caixas. Dentro do Svalbard Global Seed Vault, um sistema artificial mantém a temperatura constante em −18 °C, condição que reduz drasticamente a atividade biológica e desacelera o envelhecimento do material armazenado.
A montanha funciona como uma segunda proteção. O permafrost ao redor permanece entre aproximadamente −3 °C e −4 °C e ajudaria a conservar as sementes congeladas por um longo período mesmo se a refrigeração parasse temporariamente. O complexo também conta com geradores de emergência, vigilância e monitoramento contínuo de temperatura, umidade e funcionamento dos equipamentos.
Que números revelam a verdadeira escala dessa reserva?
Cada uma das três salas mede aproximadamente 9,5 metros por 27 metros e pode receber cerca de 1,5 milhão de amostras. Isso produz a capacidade total de 4,5 milhões, embora apenas uma câmara esteja atualmente preparada, refrigerada e equipada com estantes. As outras podem ser ativadas conforme a primeira se aproxima do limite.
A instalação não conserva toda a flora do planeta. Ela recebe principalmente sementes “ortodoxas”, capazes de sobreviver à secagem e ao congelamento. Cultivos como banana, mandioca e diversas frutas tropicais não podem ser preservados da mesma maneira e exigem técnicas como cultivo de tecidos, conservação em campo ou armazenamento criogênico.
O cofre de Svalbard já precisou devolver sementes?
A primeira grande prova ocorreu após a guerra na Síria tornar inacessível o banco genético do ICARDA em Aleppo. A instituição solicitou amostras que havia depositado anteriormente e usou esse material para reconstruir suas coleções em instalações no Líbano e no Marrocos. Em 2017, mais de 52 mil amostras foram retiradas em uma das etapas dessa recuperação.
Depois de multiplicar as plantas e produzir novas sementes, o ICARDA voltou a depositar parte do material em Svalbard. O episódio mostrou que o sistema não foi criado apenas para um cenário de extinção mundial: ele pode atender perdas regionais causadas por guerras, desastres naturais, acidentes, falta de recursos, mudanças políticas ou falhas de administração em bancos genéticos.

Ele realmente poderia salvar a agricultura depois de uma catástrofe?
O apelido “cofre do fim do mundo” fez nascer a imagem de um bunker capaz de reconstruir sozinho toda a vegetação terrestre. Sua função real é mais específica: proteger a diversidade genética dos cultivos para que pesquisadores possam recuperar coleções perdidas e desenvolver plantas mais resistentes a secas, doenças, calor, frio e mudanças nas estações agrícolas.
A montanha, a distância de grandes centros e as câmaras congeladas oferecem proteção contra diversos cenários extremos, mas a missão oficial não depende de prometer resistência ilimitada a um impacto nuclear direto. O verdadeiro poder do complexo está na redundância: se uma variedade desaparecer de seu banco original, ainda poderá existir uma cópia lacrada nas prateleiras do Ártico, esperando o momento de voltar ao solo.
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