O peixe comprido que parece uma fita finalmente entregou o segredo do nado, e câmeras ajudaram a medir a onda que percorre sua barbatana
Pesquisadores de Cornell revelam como articulações e músculos permitem que o peixe-remo produza ondas propulsoras sem grandes flexões corporais
Com um corpo que pode alcançar vários metros e uma longa barbatana dorsal vermelha, o peixe-remo consegue nadar produzindo ondas sem precisar movimentar intensamente o corpo inteiro. Pesquisadores da Universidade Cornell, nos Estados Unidos, investigaram a anatomia responsável por esse movimento incomum. Publicado em setembro de 2026, o estudo revelou como centenas de estruturas articuladas trabalham em conjunto para produzir uma propulsão que também pode inspirar robôs submarinos.
Por que o peixe-remo nada de maneira diferente de outros peixes?
O peixe-remo-gigante (Regalecus glesne) possui corpo extremamente alongado e comprimido lateralmente, semelhante a uma fita prateada. Exemplares podem alcançar aproximadamente oito metros, colocando a espécie entre os maiores peixes ósseos conhecidos. Sua barbatana dorsal percorre praticamente toda a extensão corporal.
Diferentemente de muitos peixes alongados, que produzem grandes ondulações laterais para avançar, o peixe-remo consegue deslocar-se mantendo o tronco relativamente estável. A propulsão acontece principalmente por meio de ondas coordenadas que percorrem sua barbatana dorsal, permitindo movimentos mais discretos.
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Como a barbatana dorsal do peixe-remo produz movimento?
A barbatana possui centenas de raios ósseos alongados, conectados por uma membrana flexível. Quando essas estruturas se movimentam de maneira coordenada, formam uma onda que percorre a membrana. A interação dessa ondulação com a água gera forças capazes de impulsionar o animal.
O mecanismo envolve diferentes componentes anatômicos:
- Raios ósseos distribuídos ao longo do dorso;
- Membrana flexível conectando os raios;
- Articulações que permitem movimentos individuais;
- Músculos responsáveis pelo controle dos raios;
- Ondas coordenadas que produzem propulsão.
O vídeo mostra o peixe-remo e seu movimento característico na água.
Como os pesquisadores descobriram o funcionamento dessas estruturas?
A equipe combinou dissecações anatômicas, análises histológicas, radiografias, tomografia computadorizada e observação de vídeos do peixe-remo. Parte dos exames utilizou um exemplar preservado no Smithsonian Institution, enquanto as tomografias foram realizadas em Cornell.
Os resultados revelaram uma articulação semelhante a uma junta esférica na base dos raios dorsais. Essa estrutura, associada a músculos e cartilagens, permite que cada raio realize movimentos rotacionais amplos. Assim, o peixe consegue modificar rapidamente o formato da barbatana sem depender exclusivamente das flexões do tronco.
O que o novo estudo revelou sobre a mecânica do nado?
O estudo publicado na revista Ichthyology & Herpetology, em 30 de setembro de 2026, teve Gabriel Afonso como primeiro autor e Willy Bemis como autor sênior. A pesquisa descreveu a organização anatômica que permite aos raios dorsais girar individualmente, de maneira comparável ao movimento de um joystick.
As observações mostraram que diferentes regiões da barbatana podem produzir ondas em direções distintas, inclusive simultaneamente. Essa flexibilidade ajuda a explicar como o animal consegue avançar, recuar e realizar ajustes delicados de posição. Entretanto, o estudo não estabeleceu uma velocidade universal de propagação dessas ondas para todos os indivíduos.

Por que esse mecanismo pode inspirar robôs submarinos?
A descoberta despertou interesse na engenharia porque veículos subaquáticos convencionais frequentemente utilizam hélices para produzir movimento. Sistemas inspirados em barbatanas ondulantes poderiam oferecer alternativas para operações que exigem deslocamentos discretos e controle preciso.
O engenheiro Robert Shepherd, de Cornell, participou da pesquisa buscando compreender princípios aplicáveis a robôs destinados ao monitoramento oceânico. A proposta envolve desenvolver equipamentos capazes de transportar instrumentos científicos e movimentar-se sem perturbar excessivamente os animais observados.
O que o peixe-remo ainda pode revelar sobre a evolução do nado?
A locomoção por barbatanas semelhantes a fitas surgiu independentemente em diferentes linhagens de peixes ósseos. Segundo os pesquisadores, esse tipo de movimento evoluiu aproximadamente dez vezes, demonstrando que soluções mecânicas semelhantes podem aparecer em grupos distintos.
Ainda não se sabe se outros peixes que utilizam essa estratégia possuem articulações com a mesma capacidade de rotação. Investigações comparativas poderão esclarecer se a anatomia do peixe-remo representa uma solução particularmente especializada. O estudo também abre possibilidades para compreender como diferentes combinações de músculos, articulações e membranas produzem movimentos eficientes no ambiente aquático.
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