O morador de albergue de 69 anos que estudou em cursinho gratuito, não alcançou a nota do Enem e conquistou uma vaga em Gerontologia na UnB para ajudar idosos vulneráveis
José Raimundo transformou a tentativa frustrada de entrar numa graduação em uma nova oportunidade para estudar envelhecimento, direitos e políticas públicas
José Raimundo voltou a carregar cadernos quando muitas pessoas de sua idade já haviam abandonado qualquer plano de retornar à sala de aula. Morando em um albergue de Taguatinga, no Distrito Federal, ele encontrou nos estudos uma forma de organizar os dias e enfrentar o isolamento. A primeira tentativa não terminou com a aprovação esperada no Enem, mas abriu um caminho diferente: um curso na Universidade de Brasília dedicado justamente ao envelhecimento e à vulnerabilidade que ele conhece de perto.
Como José Raimundo começou a buscar uma vaga na UnB aos 69 anos?
Aos 69 anos, José Raimundo vivia em um albergue em Taguatinga quando decidiu retomar os estudos. Ele explica que precisava ocupar o tempo, manter a mente ativa e evitar que a rotina fosse dominada pela ociosidade. A leitura e as aulas começaram como uma tentativa de reorganização pessoal, mas logo se transformaram num projeto muito maior.
O primeiro passo foi participar do Programa Preparação DF, iniciativa gratuita voltada à preparação presencial para o Enem, vestibulares e outros processos seletivos. Criado pelo Governo do Distrito Federal, o programa prioriza estudantes que já concluíram o ensino médio e oferece estrutura de ensino sem cobrança de mensalidade.
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O que mudou quando ele conquistou a vaga na UnB?
José não conseguiu alcançar no Enem a pontuação necessária para ingressar diretamente numa graduação. A frustração, entretanto, não encerrou seu retorno aos estudos. Ele encontrou outra oportunidade e foi aprovado no curso de extensão em Educação Política-Social em Gerontologia, oferecido pela Universidade de Brasília. Portanto, não se trata de um bacharelado tradicional, mas de uma formação universitária voltada ao envelhecimento, aos direitos e às políticas públicas.
- Idade na aprovação: 69 anos
- Local de moradia: Albergue em Taguatinga
- Preparação: Cursinho gratuito Preparação DF
- Primeira tentativa: Ingresso por meio do Enem
- Curso conquistado: Educação Política-Social em Gerontologia
- Instituição: Universidade de Brasília
O vídeo “Idoso de 69 anos é aprovado na Universidade de Brasília”, publicado pelo DF Record, apresenta José Raimundo estudando, falando sobre a necessidade de ocupar o tempo e explicando o que pretende fazer depois da formação. A reportagem também mostra o ambiente onde ele vive e esclarece que a oportunidade conquistada é um curso de extensão em Gerontologia, tornando o material diretamente ligado à história.
Por que o resultado do Enem não encerrou seu retorno aos estudos?
A trajetória de José poderia ter terminado quando a nota do exame não foi suficiente para uma graduação. Em vez disso, ele aproveitou a preparação acumulada, continuou acompanhando oportunidades educacionais e encontrou uma formação compatível com seu interesse social. A mudança de rota revela que voltar à universidade nem sempre depende de um único resultado ou de um caminho acadêmico linear.
O cursinho também teve um papel que ultrapassou a preparação para uma prova. A rotina de aulas, leituras e atividades criou compromissos regulares, colocou José novamente em contato com outras pessoas e devolveu um objetivo concreto aos seus dias. Mesmo sem produzir inicialmente a vaga de graduação desejada, o estudo funcionou como uma ponte até outra oportunidade dentro da universidade.
O que o curso de Gerontologia ensina sobre uma realidade que ele conhece?
A Gerontologia estuda o envelhecimento de maneira ampla, considerando condições sociais, políticas públicas, direitos, saúde, autonomia e qualidade de vida. No curso conquistado por José, a proposta inclui uma dimensão político-social, voltada à compreensão dos desafios enfrentados pela população idosa e das respostas que podem ser desenvolvidas por instituições e comunidades.
Para José, os assuntos não são apenas conceitos apresentados em sala. Moradia, solidão, envelhecimento, acesso a serviços e falta de oportunidades fazem parte da vida de muitas pessoas com quem convive. Essa proximidade ajuda a explicar por que ele pretende usar a formação em iniciativas destinadas a idosos em situação de vulnerabilidade, em vez de tratar o curso somente como uma conquista individual.
Como a vaga na UnB transformou sua rotina no albergue?
Antes da aprovação, José descrevia os estudos como uma estratégia para impedir que o tempo permanecesse vazio. Depois da entrada no curso, essa decisão ganhou calendário, leituras, atividades e responsabilidade acadêmica. O albergue continua sendo sua moradia, mas a universidade passou a representar um novo espaço de convivência, aprendizado e participação social.
A vaga na UnB também alterou a maneira como sua história passou a ser enxergada. O homem que poderia ser resumido apenas pela idade ou pela condição habitacional tornou-se estudante de uma universidade federal. Sua experiência mostra que a permanência num serviço de acolhimento não elimina projetos pessoais e que a educação pode reconstruir vínculos mesmo quando não resolve imediatamente todos os problemas materiais.

Que futuro José Raimundo pretende construir depois do curso?
José afirma que deseja contribuir principalmente com pessoas idosas em estado de vulnerabilidade. A intenção é aproveitar o conhecimento adquirido para participar de ações, debates ou projetos capazes de melhorar as condições de vida dessa população. Ele pretende estudar um problema que conhece por experiência e transformar essa vivência numa ferramenta de apoio a outras pessoas.
Sua história também exige uma leitura cuidadosa: José não foi aprovado numa graduação convencional pelo Enem, como algumas versões resumidas podem sugerir. Ele conquistou uma vaga num curso de extensão da UnB depois de participar de um cursinho gratuito e continuar procurando oportunidades. A precisão não diminui o feito; mostra que o recomeço aconteceu justamente porque ele aceitou mudar a rota sem abandonar o objetivo de aprender.
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