O mistério dos círculos perfeitos encontrados no fundo do mar que intrigou biólogos e pesquisadores por quatro anos
Como algas de 21.000 anos pintaram o fundo do mar na Córsega.
Em setembro de 2011, a bióloga marinha Christine Pergent-Martini observava imagens de sonar a bordo de um navio de investigação na costa da Córsega quando dezenas de círculos perfeitos no fundo do mar surgiram na tela. Cada um tinha cerca de vinte metros de diâmetro, contorno nítido e uma mancha escura exatamente ao centro.
Quem descobriu os misteriosos círculos no fundo do Mediterrâneo?
Christine e o marido, o oceanógrafo Gérard Pergent, mapeavam o leito marinho a aproximadamente 120 metros de profundidade. A missão, aparentemente rotineira, era cartografar a topografia subaquática numa zona pouco explorada entre a Córsega e a costa italiana.
Os cientistas entreolharam-se sem acreditar. “Não fazíamos ideia do que aquilo seria”, contou Christine mais tarde. Registaram a localização e usaram um veículo comandado à distância para recolher imagens, mas a água turva só permitiu confirmar que não se tratava de cargas afundadas nem de crateras de bombas da Segunda Guerra Mundial.

Quantos círculos perfeitos foram encontrados no fundo do mar?
Com o tempo, os investigadores mapearam uma área de quase quinze quilómetros quadrados e contabilizaram mais de 1.300 círculos idênticos. Todos partilhavam a mesma dimensão, o mesmo contorno escuro e a mesma mancha central que a bióloga descreveu como “ovos estrelados”.
Quando apresentaram as descobertas num encontro científico em 2013, Christine e Gérard ainda não tinham respostas. Um estudo posterior com submarino, realizado em 2014, também não resolveu o enigma. O casal passou anos a candidatar-se a bolsas sem sucesso para estudar os anéis mais de perto.
Que teorias tentavam explicar a formação dos anéis?
Sabe-se que alguns organismos crescem em formações circulares, como os corais que formam atóis. Mas a repetição com regularidade tão assombrosa intrigava qualquer biólogo. “Como é possível?”, perguntava-se o fotógrafo e biólogo marinho Laurent Ballesta, antigo aluno do casal Pergent.
Christine e Gérard tinham uma hipótese baseada nas suas explorações: acreditavam que os anéis eram rodólitos, aglomerados de algas coralinas que cresciam assumindo uma forma até então desconhecida. Outros cientistas sugeriram crateras de fontes hidrotermais ou formações geológicas estranhas.
Como Laurent Ballesta conseguiu desvendar o mistério?
Em julho de 2020, Ballesta liderou a primeira descida tripulada até aos anéis. Junto com dois mergulhadores da Andromède Océanologie, desceu a quase 120 metros de profundidade. Ao avistar as estruturas, percebeu imediatamente que o casal Pergent tinha razão. “Estava viva”, disse ele.
Cada anel exibia no centro uma protuberância formada por algas calcárias vermelhas, cercada por uma vasta extensão de detritos e, logo abaixo, um perímetro circular escuro feito de rodólitos do tamanho de seixos. Para confirmar a idade, os mergulhadores recolheram amostras posteriormente submetidas a datação por carbono.
Qual a idade dos círculos e como eles se formaram?
O resultado chocou a equipa. O material mais antigo, recolhido no fundo das protuberâncias centrais, tinha cerca de 21.000 anos. Era o auge da última glaciação, quando o nível do Mediterrâneo estava muito mais baixo e o local onde os anéis hoje repousam ficava a menos de vinte metros da superfície.
A hipótese final, publicada na National Geographic, explica que as algas floresceram durante três mil anos, crescendo em cúpulas que desabaram quando o mar subiu. Os rodólitos rolaram pelas protuberâncias abaixo e instalaram-se em círculos perfeitos por simples atração gravitacional.
O que representam estes círculos para a ciência e o meio ambiente?
Os anéis são mais do que uma curiosidade geológica. São vestígios da antiga orla costeira, submersa desde o fim da era glacial, e abrigam um ecossistema intocado de rara biodiversidade. Durante os mergulhos, a equipa encontrou corais-amarelos raríssimos, gorgónias rosadas e até uma lesma-marinha azul jamais fotografada por um mergulhador.
Contudo, o equilíbrio deste pequeno universo é precário. As principais ameaças identificadas pela equipa incluem:
- Âncoras de navios comerciais que podem destruir os anéis com extrema facilidade
- Rotas marítimas que passam exatamente sobre o campo de círculos
- Apenas um terço da área total está protegida pelo Parque Natural Marinho Cap Corse e Agriate

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Por que este mistério levou mais de uma década para ser compreendido?
A profundidade de 120 metros é demasiado rasa para atrair o interesse da mineração em mar profundo, mas demasiado funda para mergulhadores convencionais. Isso fez da zona um ponto cego da oceanografia durante décadas. Ballesta precisou usar câmaras pressurizadas e técnicas de mergulho de saturação para conseguir horas de exploração.
Christine Pergent-Martini acredita que a maior lição é o que ainda está por descobrir. “As explorações a esta profundidade têm sido raras no Mediterrâneo. Talvez existam outros anéis por descobrir”, afirmou. A história, que começou com um sonar quebrado e terminou com datações de carbono de 21 milénios, é um lembrete de que o fundo do mar ainda guarda segredos que nem a ficção científica imaginaria.
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